Violência contra a mulher: jovem paraibana narra como conseguiu sair de uma relação abusiva

Publicado em: 07/08/2020 às 10:20 - Atualizado em: 07/08/2020 às 10:23
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Esta sexta-feira, 7 de agosto de 2020, é a data que marca os 14 anos de criação e instituição da Lei Maria da Penha, sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com a pandemia da covid-19, as denúncias de violência contra as mulheres – recebidas pelo número 180 – cresceram significativamente desde março deste ano, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Os dados apontam um crescimento de 13,35% em fevereiro, 17.89% em março e 37,58% em abril, quando comparados ao mesmo período de 2019. A violência doméstica e familiar é a principal causa de feminicídio não só no Brasil, mas em todo o mundo. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), 17,8% das mulheres do mundo sofreram algum tipo de violência física ou sexual no ano de 2019. Isso significa que quase uma a cada cinco mulheres em todo o planeta foi vítima deste tipo de crime, no ano passado.

Além da violência e das mortes perpetradas principalmente por uma cultura machista, outras milhares de mulheres sofrem em relacionamentos que há uma situação abusiva. E, na maioria das vezes, essas vítimas demoram a perceber que estão sendo maltratadas física e psicologicamente, demorando a abandonar a relação.

Para marcar a data de criação da Lei Maria da Penha, o Espaço PB publica, a seguir, o depoimento de uma jovem que vivenciou uma situação dessa. Para preservar sua vida privada e imagem, o Espaço PB não vai identificá-la, ressaltando que ela é moradora na Região Metropolitana de João Pessoa, está com 21 anos de idade e enviou o seu depoimento para o site por e-mail. A seguir, o depoimento:

As mulheres são as principais vítimas de relacionamentos abusivos no Brasil. Não obstante, nossa cultura, costuma naturalizar o abuso de forma poética e romantizada, negligenciando seu caráter destrutivo e tornando-o sexy e desejável.

Essa romantização do abuso faz com que a grande maioria da sociedade não consiga identificar de imediato as violências silenciosas presentes na vida de um casal, muitas vezes por acreditarem que esses episódios sejam apenas fases naturais de todo e qualquer relacionamento afetivo, enquanto pesquisas mostram que um relacionamento que se constrói com bases abusivas tende a terminar de maneira cruel para suas vítimas, causando danos, às vezes, irreparáveis.

Como algumas características dos relacionamentos abusivos são normalizadas pela nossa cultura, é difícil para as próprias vítimas entenderem o que se passa com elas. Estas situações retratam claramente o medo gerado por um relacionamento abusivo, mas a forma como isto é percebido pelo consumidor visto apenas como uma fase da relação, que é o grande problema.

Frequentemente a “estratégia” utilizada pelo agressor passa pela mobilização emocional e psicológica da pessoa vitimizada para satisfazer todas as suas necessidades de atenção, de carinho e de importância. Vou narrar para vocês a minha história, de uma menina que enfrentou um relacionamento abusivo e que mesmo com toda a sua base de ensino e aprendizado ela foi se afundando cada vez mais nesse relacionamento abusivo.

Nos últimos anos, muito tem se discutido sobre relacionamento abusivo e o impacto que ele causa na vida dos indivíduos que são submetidos a essa condição, várias pessoas julgam a vítima por estar em um relacionamento desse contexto e fica se autoquestionando o porquê da vítima ainda “persistir”, pois bem, vou esclarecer um pouco aqui para vocês.

Com 18 anos de idade, eu já tinha minha própria “independência”, trabalhava, estudava, almejava tudo aquilo que tinha necessidade de sonhar, e amava a minha família mais que tudo neste mundo, ou melhor, quero dizer, amo minha família mais que tudo.

Já tinha passado por dois relacionamentos em minha vida, e os dois não deram certo para fazer com que eu continuasse nessas relações, mas qual foi a análise extraída desses relacionamentos? Eu tinha a certeza de que Deus colocou pessoas em minha vida para que tirasse ensinamentos das minhas relações para quando chegasse a pessoa, que podemos chamar de certa, eu estivesse totalmente preparada para depositar todo o amor e respeito necessário. Os meus relacionamentos foram ótimos, aprendi, amadureci, amei, mas o destino não quis aquelas pessoas em minha vida, mesmo aparentando serem boas relações, até que o desgaste afastou essas almas puras e respeitáveis.

Aos dezoito anos, após meses vivendo estavelmente minha vida, meus estudos, trabalho e família, entrei em mais um relacionamento, minha terceira relação, na qual me encantei pelo jeito tímido e de tantas diferenças que o casal tinha. Éramos pessoas opostas, mas que eu estava completamente disposta a enfrentar todas as dúvidas que me motivavam mais ainda a descobrir se realmente os opostos se atraem. Meses, anos se passaram e eu estava tão apaixonada que não via na minha própria frente que essa relação só afundava, eu tentava tirar proveito dos poucos momentos bons e criava forças para enfrentar aquelas brigas que me afligiam, pois tudo é fase. Pelo menos era isso que eu pensava, ou seja, que um dia as brigas iam ter fim.

Os relacionamentos abusivos são compostos por muito controle e dependência, seja ela qual for. Assim, quando um exerce forte influência sobre o outro, este por sua vez cria um vínculo difícil de ser quebrado, que foi o que ocorreu nessa relação, mas em um determinado tempo eu observei que o meu parceiro estava querendo me controlar profissionalmente e não queria que eu tivesse minha independência alcançada, foi ai então onde passei a observar ainda mais o que acontecia nesse relacionamento, em que já tinha “aceitado” que era abusivo.

A abusada tem a tendência de satisfazer o opressor a qualquer preço. Dessa forma, torna-se submissa e dominada, sobretudo diante das ameaças. Pode-se afirmar que, em relacionamentos abusivos, é comum experimentar sensações como inferioridade, isolamento, tristeza, medo e anulação. Com as experiências que já tinha enfrentado, analisei que ele não ficava feliz com o meu crescimento, aquilo o incomodava, o machismo estrutural começou a aparecer, o direito de eu ser melhor que ele em algo o perturbava.

Foi uma relação de tantas convivências como se já fôssemos casados, que eu descobri seus desejos, manias, gostos, e parecia que o conhecia mais do que ele conhecia a si mesmo, foi como se eu o apresentasse para si mesmo, como se ele nunca tivesse feito uma autoanálise sobre seu jeito de agir, pensar e sonhar.

Pois bem, no ano de 2018 foi quando ele revelou a mim sua primeira atitude de machismo, ou até mesmo demonstrou que eu estava mergulhando em uma relação abusiva, por um motivo minúsculo, ele me segurou pelo braço em uma rua e me impediu de sair daquele momento de desespero, que me fazia tentar tirar as garras dele que machucavam. A atitude repressiva e passional fazia com que eu me desesperasse por nunca ter visto algo igual no meu lar.

Retornando a minha casa, eu parei e o abordei dizendo que o que ele fez foi errado e que, independente de qualquer situação que ocorra, homem nenhum pode fazer isso com quem quer que seja, imagine com sua companheira. Em minha argumentação, enquanto mulher, mostrava que, de certa forma, ele tinha me “violentado”.

Com as mãos trêmulas e semblante assustado peguei o celular e abri em uma página no qual falava a respeito de relacionamento abusivo, e tentei explicar a ele que tudo aquilo estava errado. Tentava fazer com que ele aprendesse sobre aquele assunto para o bem de ambos e ele me olhava de uma forma como se estivesse com medo de que eu falasse daquela situação a alguém, como, por exemplo, aos meus pais, já que sempre falei sobre tudo a eles, e meu namorado não gostava.

Ele dizia que roupa suja tinha que ser lavada em casa, e me criticava com o olhar de não querer aceitar que o que ele fez foi errado, mas eu o desculpei e fiquei com aquilo por meses e até mais alguns anos. A minha estrutura familiar me deu uma mente forte e analítica. Eu sabia que não merecia aquilo, que era uma menina forte e intensa demais para aceitar menos do que os meus pais me ensinaram e, aos poucos, fui enxergando ainda mais os pontos ruins do meu relacionamento. Até comparava com minhas relações anteriores e procurava detectar o que tinha sido bom para a minha vida.

Tempo se passou e as atitudes aparentavam estar mais aguçadas, ciúmes exagerados, controle de minhas vestes, jeitos, falas, andadas, como se tudo que eu fizesse o incomodasse de alguma forma. Até as minhas conquistas o deixavam chateado e inquieto. Mesmo percebendo isso, me manteve forte na caminhada para almejar as conquistas do meu próprio futuro. Ele estava querendo se tornar dono de algo que ninguém jamais poderá se tornar, dono de outra pessoa.

Foram puxões em meus braços, lágrimas arrancadas, humilhações em público, ignorância. Com isso, entrei em um processo de redescoberta da minha relação e fiz um grande cerco de culpa. Ele conseguiu fazer com que a situação se apresentasse invertida e como se eu fosse a culpada de todas as atitudes. A culpa é, inclusive, um dos elementos mais poderosos que faz com que a mulher vítima de violência permaneça no relacionamento e que o abusador tenha controle sobre ela.

Dezembro de 2019, eu coloquei um fim na relação, mas o agressor tem muito claro quem é detentor do poder sobre a outra pessoa. Se for a dependência econômica, as suas ameaças serão focadas nesse ponto. Se for o medo, as agressões físicas serão o foco, e assim por diante. O poder pode humilhar e envergonhar a companheira frente às demais pessoas, de forma regular. Então, toda essa lavagem que ele conseguiu fazer em minha cabeça me deixou pensando que tinha tomado à decisão errada, e então voltei à relação dias depois.

Eu estava cansada, triste, amargurada, sem forças de persistir nessa relação, mesmo com todas as chances dadas para ambos, eu estava sufocava e não aguentava mais tudo isso. Mesmo com uma relação tão positiva com meus pais, eu não tinha cara nem coragem de contar a eles o que estava enfrentando. Eu sabia que o afastamento era o certo a fazer, mas o nó na garganta estava tão grande que me atrapalhava de desfazer tão danoso relacionamento.

Fevereiro de 2020, eu estava em outro estado, se sentido livre e feliz como fazia tempos que não sentia, então teve o gatilho final da relação, descobri nas redes sociais fakes protagonizadas por ele, que revelava uma atitude de ciúme doentio do meu parceiro, mesmo eu estando a quilômetros de distância dele. Ele não tinha confiança o suficiente no que eu dizia que estava fazendo, ou melhor, nunca teve. É muito complexo realizar intervenção em um relacionamento abusivo. Isso porque é muito difícil que a vítima consiga se reconhecer em um. A culpa e o medo são os principais motivos para essa percepção distorcida da realidade. E se o reconhecimento da relação tóxica é difícil, a libertação dela torna-se quase impossível.

Entretanto, nesse momento, eu enxerguei, paralisei por minutos, enxuguei as lágrimas, engoli a seco tudo que já tinha suportado e, aí, então, foi como se naquele momento eu estivesse me tornando outra pessoa, ou melhor, analisando, voltando a ser quem eu era. Eu sofri, chorei, foram dias sem dormir, uma alimentação desregulada e, o principal, toda essa situação longe de quem eu mais amava, a minha família.

Por telefone, revelei tudo que enfrentei sozinha. Após minhas palavras finais, meus pais passaram por minutos de revolta por eu ter aguentado tudo sozinha, mesmo tendo total confiança e abertura para ter revelado essa situação há tempo. Mas, por que eu enfrentei tudo isso só, tendo uma família tão boa e uma relação tão aberta com meus pais?

É muito difícil revelar o que acontece na vida privada, principalmente por medo de julgamentos externos. E a situação piora, quando a vítima de relacionamento abusivo se expõe a um enorme desconforto psicológico, pelo fato do autor não reconhecer, nem admitir, que esteja cometendo ações abusivas.

Às vezes, esse sentimento reforça a culpa que a vítima de relacionamento abusivo sente, aumentando ainda mais a dependência e a ligação com o relacionamento abusivo.

Romper a sequência do processo fará com que a vítima possa libertar-se das amarras condicionantes de seu estado emocional, podendo reconstruir novamente seus laços sociais e retomar o curso natural. Como se trata de um quadro altamente delicado, a ajuda de um psicólogo é essencial para a superação desse trauma.

Aí, então, depois de se desfazer desse laço doloroso, eu enxerguei mais inúmeros acontecimentos como uma relação abusiva. Crises de ansiedade foram constantes por um tempo. As dúvidas de que essa situação iria passar, o pensamento diário a respeito dele, a vontade dolorosa de saber sobre a sua vida, foram outras tantas sensações dolorosas, mas uma coisa eu tinha aprendido com minha mãe, a de que tudo passa e que aquela situação também iria passar.

Foi aí onde a minha fé em Deus só aumentou, aprendi a enxergar os sinais diários dele sobre minha vida, tudo ficou mais claro e leve, parecia estar vivendo em um anúncio de amaciante tão gostoso, que minha vida estava ficando normal sem a presença daquele namoro de três anos de existência, que por muito mais tempo foi mais conturbado do que apreciado como deveria ser.

Por mais que seja positiva a sua vida, por mais maduro que seja seus pensamentos e por mais linda que seja a sua relação com sua família, quando você entra em um relacionamento abusivo, tudo se torna escuro. Você só enxerga seu relacionamento e tudo ao seu redor parece não fazer mais sentido.

Jamais, em hipótese alguma, aceite de alguém menos do que você merece, e quando você passa a ver as coisas com um olhar mais crítico e vislumbra um processo de aceitação tudo fica mais nítido com relação ao que você realmente merece. Saiba que a vítima é sempre a vítima, nunca a julgue, nem a critique por estar em uma relação abusiva. Juntas, somos mais fortes, apoie e ajude a vítima a se livrar deste mal sugador. Hoje, eu amadureci anos a mais, estou muito mais forte, leve e feliz.

Supere as dificuldades da vida com uma boa dose de fé!



Fonte: Espaço PB – Ilustração: Helô D’Ângelo – contato@espacopb.com.br

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