Tecnologia da informação: Projeto visa reduzir efeitos negativos

Publicado em: 15/06/2026 às 11:20
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Iniciativa comandada por professor da UFPB incentiva a adoção de medidas sustentáveis no âmbito da computação

As evoluções da tecnologia da informação (TI) no Brasil vêm crescendo em ritmo acelerado. A ferramenta diz respeito ao uso de computadores, redes e outros dispositivos utilizados principalmente para armazenar e processar dados. Com a demanda exponencial da inteligência artificial (IA), o mercado de TI alcançou R$ 67,8 bilhões em receitas durante 2025, representando um crescimento de 18,5%. Os dados são da Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes) e foram divulgados no início de abril deste ano.

Esse avanço traz também preocupações sobre os efeitos causados por essas tecnologias, como alta demanda por energia e água, mineração predatória e o descarte inadequado de lixo eletrônico. Para lidar com essas questões, profissionais da área desenvolveram o conceito de “TI Verde”, abordagem adotada para reduzir os impactos ambientais causados pela área da computação. O objetivo é torná-la mais sustentável por meio de ações como a utilização de equipamentos que consumam menos energia e a implementação de políticas de descarte adequado de resíduos eletroeletrônicos.

Pensando sobre essa temática, o professor de Engenharia de Software, do Departamento de Informática da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Alan Moraes, desenvolveu o projeto de extensão intitulado “TI Verde: Disseminação de Práticas de Sustentabilidade em Tecnologia da Informação em João Pessoa”. A iniciativa, que desenvolve suas atividades no Laboratório de Tecnologias Digitais (LTD) do Centro de Informática (CI) da instituição, pretende propor soluções mais ecológicas frente ao uso das tecnologias, bem como utilizá-las para resolver desafios ambientais.

“O projeto começou com uma preocupação minha enquanto pai. Minha filha tem seis anos e comecei a pensar, dentro da Engenharia de Software, o que conseguimos fazer para minimizar os problemas ambientais”, explicou o professor.

A ação surge, portanto, como uma forma de propor respostas para os desafios ambientais, englobando o desenho, o projeto, a manufatura, a operação e o descarte correto de servidores e computadores. “Nós tentamos minimizar a pegada de carbono do software, fazendo com que ele rode mais eficientemente, gastando menos energia e evitando o desperdício”, detalhou.

Pegada de carbono

A chamada “pegada de carbono” corresponde à quantidade de gases de efeito estufa emitidos em decorrência de determinada atividade. No caso dos equipamentos eletrônicos, esse cálculo considera desde a fabricação e o transporte até o consumo diário de energia.

Os softwares também contribuem para o aumento dessas emissões. Programas mais pesados exigem máquinas mais potentes, enquanto serviços em nuvem e sistemas baseados em inteligência artificial dependem de data centers que funcionam ininterruptamente.

Assim, mitigar essas emissões é o que propulsiona as atividades do projeto TI Verde. “Atuamos por meio de um processo de conscientização, educação e mudança nos processos e métodos na construção de softwares”, afirmou Alan Moraes. Focar em códigos mais eficientes, que consomem menos memória é uma das metas do grupo. E a finalidade principal é que essas ações sustentáveis sejam adotadas por empresas e vivenciadas na prática. De acordo com o professor, o objetivo de um projeto de extensão é sempre a interação dialógica entre a universidade e a sociedade.

Parceria com empresas amplia debate sobre conceito de TI Verde

O projeto tem uma parceria com a Sucesu, associação representativa que reúne cerca de 50 empresas do setor de Tecnologia da Informação e Comunicação da Paraíba. A iniciativa prevê a seleção de uma empresa para participar de um projeto-piloto de Engenharia de Software Sustentável. A proposta inclui um período de três meses de acompanhamento técnico para implementação de sistemas com menor gasto energético. “Vamos, inicialmente, fazer uma palestra para conscientização dos empresários, para depois mostrar tudo na prática com o projeto-piloto, que consiste em levar pessoas capacitadas para passar três meses na empresa, ensinando e implantando sistemas mais eficientes”, afirmou.

A urgência do tema exige conscientização coletiva | Foto: Ademar Netto/Arquivo pessoal

Após a conclusão dessa etapa, uma nova apresentação será realizada para compartilhar os resultados obtidos. Para aquelas empresas que pretendem implantar iniciativas mais sustentáveis, de menor gasto energético, o professor Alan faz um convite: “Fala com a gente! Podemos visitar as empresas, conversar e ajudar nesse processo. É só procurar o Laboratório de Tecnologias Digitais (LTD)”.

Segundo Alan Moraes, a urgência do tema é evidente. “Temos que entender qual a nossa responsabilidade com o planeta. A TI já possui um consumo energético equivalente ao setor da aviação, representando cerca de 4% do consumo mundial de energia. E a tendência é que esse número dobre nos próximos anos. Precisamos fazer escolhas mais eficientes”.

Além da atuação junto às empresas, o projeto pretende sensibilizar estudantes da área de tecnologia. De acordo com o professor, a temática da TI Verde ainda aparece pouco nos currículos dos cursos da área. Por isso, a intenção é incorporar o assunto às disciplinas ministradas no Centro de Informática. “Eu não vou só dar uma aula, eu vou envolver os alunos na pesquisa, para eles debaterem. O projeto começa na extensão, bebe da pesquisa, leva conhecimento para a sociedade, aprende com ela e depois retroalimenta a graduação como um tópico de aula”, detalhou.

Para o estudante de Ciência da Computação, Elias Torres, integrante da equipe, o projeto busca desenvolver uma solução inédita para o Brasil. “Existem ferramentas que medem a pegada de carbono e outras que analisam o consumo energético. Nosso objetivo é integrar todas elas em uma única plataforma e, assim, propor soluções verdes para diversas empresas”.

De acordo com o estudante de Engenharia da Computação, Vinícius Moraes, a participação na iniciativa representa um diferencial na formação profissional.

Descarte apropriado de resíduos eletrônicos move outros projetos

Se o consumo energético preocupa, o descarte inadequado de resíduos eletroeletrônicos também representa um problema crescente. Com o objetivo de enfrentar essa questão, a UFPB desenvolve outro projeto de extensão, o “Tree–UFPB: Sensibilização sobre o Correto Descarte e Reaproveitamento dos Resíduos Eletroeletrônicos da Região Metropolitana de João Pessoa”. A sigla “Tree” significa “Tratamento de Resíduos Eletroeletrônicos”.

Coordenada pelo professor Ademar Netto, do Departamento de Engenharia Elétrica, a iniciativa promove ações educativas em escolas públicas e incentiva o reaproveitamento de equipamentos eletrônicos para fins didáticos. “O projeto surgiu porque eu observava que as pessoas não sabiam onde fazer esse descarte. Então, o intuito é ir até as escolas, falar sobre a problemática e identificar os pontos de coleta na nossa cidade”, explicou o professor.

Para ele, a importância do projeto é conscientizar as pessoas sobre a importância do descarte correto. “Muita gente joga, por exemplo, as pilhas no lixo comum, mas elas são um resíduo especial”.

Além da conscientização, parte dos equipamentos recebidos é desmontada e reaproveitada em laboratórios e projetos acadêmicos. “Retiramos componentes que podem ser utilizados em protótipos, atividades de ensino e pesquisas dentro da universidade”.

Segundo Ademar, o descarte inadequado pode contaminar o solo e os recursos hídricos, já que muitos equipamentos contêm metais pesados. “Quando esses materiais são abandonados em terrenos baldios e começam a se degradar, liberam substâncias que contaminam o ambiente”, destacou.

Logística reversa

Outra iniciativa que atua na destinação correta de resíduos eletrônicos é a empresa circular de impacto ambiental, Reeecicle. Especializada em logística reversa, ela atua na manufatura de equipamentos eletrônicos de maneira geral. A organização recebe equipamentos descartados, realiza a desmontagem e encaminha os materiais para reaproveitamento industrial. “A logística direta é quando o produto é fabricado e chega na sua casa. Já a reversa diz respeito à reciclagem, manufatura e retorno do material”, explicou o fundador da Reeecicle, Sávio França. “Nós somos uma fábrica de desfabricar”, brincou.

O processo transforma computadores e outros equipamentos em matérias-primas como plástico, vidro, fios, placas eletrônicas e sucata metálica, que retornam à cadeia produtiva. “Quando isso acontece, reduzimos a necessidade de extrair novos recursos da natureza. É uma forma de dar um descanso ao meio ambiente”, afirmou Sávio França. A empresa também oferece coleta gratuita para pessoas físicas a partir de 30 kg de material eletrônico descartado.

Projeto Catador Digital

Além disso, o Reeecicle participa do projeto Catador Digital, iniciativa voltada à capacitação de cooperativas de reciclagem para atuarem também na logística reversa de resíduos eletroeletrônicos. Recentemente, cerca de 200 catadores de 19 municípios paraibanos foram qualificados. “Quando ajudamos essas cooperativas a trabalhar com resíduos eletrônicos, aumentamos a renda dos catadores e criamos soluções locais para um problema que existe em todas as cidades”, destacou.



Fonte: Espaço PB – A União -por Camila Monteiro* - Foto: Ademar Netto/Arquivo pessoal: contato@espacopb.com.br

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