Pandemia: vereadores de João Pessoa se adaptam a estratégias de comunicação na pré-campanha

Publicado em: 30/08/2020 às 00:20
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A internet vem sendo considerada uma das grandes aliadas dos pré-candidatos nas eleições municipais deste ano. Sem poder exagerar no tradicional corpo a corpo com a população, por conta das restrições sanitárias impostas pela pandemia no novo coronavírus (covid-19), as mídias digitais deixaram de ser uma alternativa para se tornarem a principal ferramenta de comunicação com os eleitores neste período.

A utilização desse recurso não chega a ser uma novidade no processo eleitoral e a legislação em vigor já prevê a aplicação de algumas regras durante as campanhas virtuais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possui, inclusive, uma cartilha para disciplinar o uso da rede mundial de computadores e evitar abusos de partidos, candidatos e apoiadores.

Contudo, apesar de bem conhecida do público, nem todos os políticos estão habituados a incorporá-la em suas ações de comunicação. “A gente está acostumada a uma política de rua, com contato corpo a corpo. Eu sou mais de panfletar e conversar com as pessoas do que fazer propaganda profissional. Essa sempre foi nossa característica”, reconhece a vereadora de João Pessoa, Helena Holanda, que tentará a reeleição pelo Progressistas.

A parlamentar destaca que vem tendo o cuidado de evitar visitas em residências e que ainda não se sente segura em fazer o trabalho boca a boca nas ruas. “Essa campanha vai ser na base de redes sociais, este é o primeiro material que temos de via direta para as pessoas. Depois eu pretendo partir para a panfletagem, prestando contas do meu mandato às pessoas”, continua.

Essa alternância de estratégia também vem sendo adotada pelo vereador Professor Gabriel (Avante) que admitiu ser novado em matéria de mídias digitais. “Estou entrando nas redes sociais para divulgar o trabalho. Realmente é um caminho. Não tem outro”, avalia. O parlamentar lamenta o fato de não poder haver reuniões no modelo que está mais acostumado e que isso tem feito os pré-candidatos se desdobrarem para atingir antigos públicos.

Avaliação similar faz o colega de parlamento na Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP), Bispo José Luiz (Republicanos), para quem as eleições deveriam ter sido adiadas. “Tenho a preocupação de que até o dia das eleições o quadro possa se agravar, porque nós estamos vivendo numa pandemia e, para alguns, é como se não estivéssemos vivendo”, lamenta.

José Luiz destacou que tem buscado formas de se reinventar e entende que essa eleição vai ocorrer mais “em grupos de redes sociais, perfis no Facebook, Instagram, WhatsApp e encontros pontuais para se conversar com lideranças e algumas pessoas que poderão ser influenciadores”. O vereador, entretanto, salienta sua preocupação com o excesso de pessoas sem acesso à internet ou com o serviço “de péssima qualidade” prestado no país.

A mesma preocupação é do vereador Sérgio da Sac (Solidariedade) para quem a “campanha atípica e diferenciada” pode excluir cidadãos. “Digo sem medo de errar que 60% do povo de João Pessoa não faz uso das redes sociais e isso é uma dificuldade muito grande. Sabemos que é muito forte o meio de comunicação digital, mas sabemos que nem todos têm internet”, refletiu.

Aposta no trabalho

Assim como o colega de casa legislativa, o vereador Leo Bezerra (Cidadania) também compartilhou o dado de pessoas ausentes das redes como motivo de análise de estratégia de comunicação neste período de pandemia, e reforçou a importância de alternar estratégias. “Acho que 60% das pessoas de João Pessoa não são ligadas às redes sociais. Gosta mais de olhar no olho. Então, o político vai ter que mesclar de acordo com o perfil”.

Leo é assíduo em seus canais digitais e reconhece que para a população abrir suas portas está difícil, porque é necessário proteger a si mesmo e a quem é visitado. “Temos que procurar focar nas redes sociais, e a maioria da população gosta ainda do corpo a corpo. Eu mesmo recebo diversos convites para dialogar presencialmente”, diz.

Para driblar as dificuldades do novo momento político, alguns parlamentares apostam em seu portfólio de trabalho. O vereador Chico do Sindicato (Avante), por exemplo, ressaltou as contribuições de sua atuação como vereador nas últimas eleições. “Vai fazer oito anos que estou no mandato. Tenho um trabalho social na saúde e no emprego. Para quem trabalha é mais fácil, mas vereador que não trabalha é mais difícil”, alfineta.

O parlamentar admite que tem mantido uma rotina de visitas com as precauções necessárias para combater a covid-19. “Não estou tendo dificuldade de entrar na casa do povo, mesmo na pandemia. Eu estou fazendo meu trabalho visitando as pessoas”, sustenta. Quem também tem feito visitas mais isoladas é o vereador Zezinho do Botafogo (Cidadania). “Tenho conversado com as pessoas, tomando os cuidados. Baseado no que está todo mundo comentando, está todo mundo correndo para as redes sociais. Mas o corpo a corpo é importante porque temos que cumprir com as metas, fazer as visitas”, argumenta.

Zezinho vai tentar a titularidade do mandato nas eleições deste ano e pretende fazer um resgate de sua história para cativar eleitores. A história política deve estar presente ainda na campanha da vereadora Eliza Virgínia (Progressistas), que tentará a reeleição como seus pares e já sente a pressão da disputa. “O que está acontecendo é que está havendo uma pré-campanha forte. Estão antecipando a reunião de pequenos grupos”, destaca.

Eliza não acredita que a ausência de uma pré-campanha mais presencial possa prejudicar pessoas novatas na política e considera que, com relação à pandemia, “será disputa igual para todo mundo”. “Os públicos que diferenciam um pouco. Vão levar vantagem os que já são e têm uma base formada, com material para ser trabalhado”, prevê.

Caminho sem volta

Apesar do cenário diferenciado, nem todos os políticos estão desconfortáveis com o uso de ferramentas digitais como principal canal de comunicação. Com contas ativas e bastante movimentadas nas redes, vereadores pré-candidatos têm driblado as dificuldades e apostado nas conversas online.

“É a necessidade de readaptação. O novo normal traz embutido isso na nossa vida social, afetiva, profissional e política”, afirma o vereador Bruno Farias (Cidadania). O parlamentar faz uma avaliação de que o momento criou um campo fértil de trabalho para quem tem expertise em mídias digitais uma vez que “os pré-candidatos têm que saber utilizar os recursos que a tecnologia dispõe para chegar ao maior número de pessoas para conquistar a confiança do voto”.

Bruno sustenta que não é possível descartar as visitas presenciais, mas que a necessidade de cumprir as orientações sanitárias devem ser observadas. “É claro que as redes sociais terão como nunca um papel de aproximação, de cartão de visitas dos postulantes, mas as reuniões pequenas com adoção dos protocolos de segurança serão necessárias na disputa para a Câmara Municipal em que o voto é conquistado um a um”, lembra. O vereador também acredita que algumas modificações são irremediáveis. “Vieram para ficar. Sobretudo, no que tange à comunicação virtual que tende a ser massificada ao longo dos próximos pleitos. É uma realidade que não retrocede”.

Essa é uma visão compartilhada pelo vereador Lucas de Brito (PV) para quem a mídias digitais representam uma força no processo eleitoral. “Acredito que muitas das mudanças nessa relação de diálogo com a sociedade vão permanecer mesmo quando esta pandemia for superada. Apesar da dificuldade, durante esta pandemia, conseguimos conversar com vários setores e envolvê-los numa pauta importante que é a recuperação da nossa cidade”, garante. Lucas tem investido em suas mídias digitais e considera que a ação tem feito diferença para muitos eleitores que teriam se sentido mais conectados com as discussões legislativas em meio à pandemia por conta da facilidade que os recursos tecnológicos oferecem.

Para Sandra Marrocos, vereadora pelo PT, as mudanças no contato com os eleitores começaram a ser sentidas. “Tenho investido nas redes sociais, com lives temáticas, no Instagram, no Facebook. Desde que começou a pandemia quase mil pessoas começaram a me seguir”, destaca. Ela explica que o uso da ferramenta não é novo e já fazia parte de sua rotina parlamentar. “Eu já tinha esse engajamento porque entendo que é um espaço de poder. Estou mais do que nunca tendo clareza do meu papel, porque não é uma eleição qualquer, mas uma disputa de projeto de sociedade”.

Igualmente ativo nas redes sociais, o vereador Thiago Lucena (PRTB) acredita na força das mídias digitais, mas pondera que o eleitor pode se sentir de fora do pleito. “Acho que a campanha digital possibilita a redução dos custos, mas nada substitui o abraço, o aperto de mão e o olho no olho. A democracia vai perder muito com isso”. A preocupação do parlamentar é o cenário de pandemia afastar a população do debate político e que o tema não gere interesse no ambiente digital.

“Meu receio é que o eleitor não queira participar do pleito e essa ausência é muito ruim. Há muita insatisfação de modo geral”, reconhece. Thiago, que está em seu primeiro mandato na CMJP e já teve covid-19, disse respeitar as normas de segurança para evitar a contaminação de pessoas e que essa postura o acompanhará até a votação, marcada para 15 de novembro. “Acredito que, durante a campanha, ainda estaremos em pandemia e temos que ter respeito pela vida. Mas tenho esperança de que tudo isso traga uma lição, de que, mais do que nunca, é preciso ter participação no processo eleitoral”.

Ferramentas digitais

Para que a disputa eleitoral no ambiente digital também ocorra de modo equilibrado, a Justiça Eleitoral estabelece algumas regras para a utilização das ferramentas disponíveis. Um exemplo disso é o chamado impulsionamento de conteúdo nas mídias sociais (quando o candidato paga para que a sua mensagem tenha uma visibilidade maior nas redes sociais) que, segundo o TSE, não pode ser feito com o uso dos chamados “robôs”, que distorcem o número de visualizações do conteúdo. O recurso também não pode ser “terceirizado” e é vetado no dia das eleições.

De acordo com as instruções do TSE, a propaganda pode ser feita em plataformas online, nos sites do candidato, do partido ou da coligação; e, do mesmo modo, por meio de mensagens eletrônicas, em blogs, nas redes sociais e em sites de mensagens instantâneas. Contudo, é proibida em sites de pessoas jurídicas, em sites oficiais ou hospedados por órgãos da administração pública e por meio da venda de cadastros de endereços eletrônicos.

A lei eleitoral proíbe a propaganda feita por meio de perfis falsos (chamadas de fake news) e a Justiça Eleitoral, igualmente, verifica a divulgação de conteúdos inadequados, como os que têm o objetivo de desqualificar adversários. O conteúdo pode ser retirado da internet e gerar direito de resposta ao ofendido. Se a mensagem foi impulsionada, o direito de resposta deverá ser veiculado da mesma maneira. O órgão esclarece ainda que todos os gastos que os políticos tiverem com a divulgação de suas propostas pela internet terão que constar da prestação de contas da campanha.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (Thaís Cirino) – Foto: Internet – contato@espacopb.com.br

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