A dor, o trauma e as aflições provocadas pela pandemia do novo coronavírus podem até não mudar o comportamento da humanidade, mas a infecção e as mortes provocadas pela covid-19 pelo menos dão sinais de que podem contribuir para a mudança de atitudes e de pensamento das pessoas. Só não vai aprender quem não quiser.
Todos estão vulneráveis à doença provocada pelo vírus. Uns mais, outros menos. Porém, há aqueles que, devido à própria natureza de suas atividades, são muito mais vulneráveis e estão sofrendo mais. São profissionais que estão na linha de frente e não podem parar. Homens e mulheres das forças de segurança, da imprensa e da educação, por exemplo, estão sim mais expostos. Eles não têm escolha.
Todavia, quem atua na área da saúde está inserido literalmente na crise sanitária. São profissionais aptos e com a missão de salvar vidas. Eles estão diariamente cara-a-cara com o novo coronavírus; frente-a-frente com a morte; tête-à-tête com a exaustão, a insegurança, o medo, a dor, o sofrimento, a angústia e a crises emocionais.
Na teoria, esse pessoal da saúde – já acostumado a se equilibrar na linha tênue que separa a vida da morte – deverá aprender muito mais com a pandemia (pelo menos deveriam). Terão toda a bagagem para mudar seus pensamentos e comportamentos, levando em conta a sua profissão, tendo a certeza de que o coletivo é muito mais necessário do que o pensar individual. Ninguém é melhor ou mais importante do que o outro. É certo que, devido a certas circunstâncias, se trabalha com prioridades, mas, no fundo, todos são iguais.
Todavia, alguns se acham deuses. Privilegiados não por forças sobrenaturais ou divinas. Mas por condição social, de classe, de raça... São pessoas que geralmente obtiveram muito mais oportunidades de estudo, de crescimento econômico e de condições melhores de vida do que a grande e massiva maioria da sociedade. Quase sempre são pessoas que não pensam no coletivo e se agarram à ideia de que são superiores à maioria de seus semelhantes. Se sentem, assim, deuses encarnados na crosta terrena.
E dentre os que atuam na área da saúde, o médico – principalmente num país de pensamento extremamente escravocrata e de um apartheid social crônico –, em boa parte das vezes, se sente um deus vivente entre os demais cidadãos de segunda ou até de terceira classe.
Porém, os médicos – aqueles que assim pensam e se comportam – estão descobrindo que são de carne e osso. E também adoecem e morrem. A covid-19 ameaça e mata a todos. Sem distinção. E quem está mais exposto – no caso os profissionais da saúde – é presa fácil ao vírus mortal que tem varrido o planeta Terra.
Infelizmente, há uma cultura no país de que médico, quem exerce a Medicina, é um ser superior. Isso é alimentado pela ideia histórica e coletiva de uma população que aprendeu que existe o “doutor” e o resto. E o “doutor” é praticamente um deus.
Claro que não se pode generalizar. Há muitos – muitos, mesmo – profissionais médicos que não pensam assim. São abnegados à profissão e ao atendimento e à atenção ao próximo. A história registra e vê-se isso no dia-a-dia. Mas também há muitos deles que se recusam, por exemplo, a trabalhar em áreas pobres nas periferias das grandes cidades e em localidades do interior brasileiro.
Grande parte deles é extremamente corporativista. É bom lembrar o comportamento deles em oposição, por exemplo, à presença dos médicos cubanos no país. Foram atitudes deploráveis. E hoje, em plena pandemia do novo coronavírus, é um bom momento para que esses médicos reflitam sobre a importância da profissão que exercem. A importância do que eles representam para a humanidade.
Também é bom ressaltar que a ciência médica não é feita só de médicos e médicas. A linha de frente da saúde – bem de frente, mesmo – estão os enfermeiros e enfermeiras na luta para salvar vidas. Têm também os fisioterapeutas, os técnicos de enfermagem, os farmacêuticos, os psicólogos, os assistentes sociais, os nutricionistas, os maqueiros, os auxiliares de higienização, os motoristas de ambulância... Enfim, um exército de trabalhadores e trabalhadoras da saúde. Não se deve pensar a Medicina como área hegemônica de médicos e médicas.
Outro lembrete: “Sabem qual o profissional que fica com o paciente com covid em insuficiência respiratória aguda durante todo o processo de angústia respiratória?”, perguntou alguém em um grupo das redes sociais. E essa pessoa mesmo respondeu: “O fisioterapeuta. Ele é quem fica lá, administrando pressão positiva, oxigenoterapia, posição prona (deitar a pessoa de bruços), calculando mecânica pulmonares etc.”. Ou seja, quer um profissional mais exposto ao coronavírus do que um fisioterapeuta?
Há informações de quem vive em algum país europeu de que “apenas no Brasil temos isso (...) Na Europa, o médico é apenas mais um profissional dentro da equipe multiprofissional. Ele não é mais nem menos, comparado à Enfermagem e aos demais membros da equipe de saúde”.
Enquanto isso, aqui no Brasil, tem médico que, por incrível que possa parecer, ainda nega a ciência e defende até Cloroquina... E muita gente prefere endeusar os médicos.
O endeusamento é tão grande que tudo já começa na diferença salarial. Enquanto um médico só de gratificação do Sistema Único de Saúde (SUS) receberia algo em torno de R$ 10 mil, outros trabalhadores da saúde recebem uma mixaria. É claro que o médico tem que ser bem pago, mas boa parte deles faz o próprio horário nas Unidades Básicas de Saúde. Assiste-se a notícias de casos de que determinado médico vai para a UBS no dia que quer e no horário que lhe é mais conveniente. Os demais profissionais trabalham 40 horas semanais.
Em tempo: é triste e desolador ver tantos profissionais da saúde morrendo pela covid-19. Nesse caso, a morte de um desses profissionais tem peso dobrado. Não que ele é mais que os outros, mas, além de perder a vida e deixar sua família enlutada e na dor, será menos um combatente profissional na luta contra a pandemia, na batalha de salvar vidas.
Só o estado da Paraíba já perdeu 25 médicos para a covid-19 desde o início da pandemia, em março do ano passado. De acordo com o Conselho Regional de Medicina na Paraíba (CRM-PB), desde o primeiro caso da doença no estado, 896 médicos paraibanos foram infectados pelo novo coronavírus. Este número representa mais de 10% da quantidade de médicos ativos no estado: 8.729 profissionais.
Definitivamente, médicos não são deuses. E eles estão morrendo. Muito triste e desesperador.
Fonte: Espaço PB – Ilustração: Meu Bloguezinho – contato@espacopb.com.br
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