Hoje eu sei que, quando era menino, sonhava como um menino. Cresci, endureci e todo dia procuro dentro de mim o restinho dessa criança do meu passado. Quase sempre vem a frustração... O menino pés descalços que corria só de calção – produzido com restos de retalhos da máquina de costura de minha avó, Dona Dica –, enfrentando o frio de gear lá do sul de Minas Gerais, vai se apagando cada vez mais.
Todavia, uma das coisas que teimam em não se apagar em mim é o Natal. Aliás, não era bem o Natal em si e muito menos a noite de véspera de Natal. Era a espera pela data. Ainda pulsa na alma a expectativa pelo Natal. Como era bom naqueles tempos de menino. Juro que começava a pensar no Natal já a partir do dia 1º de janeiro de cada ano. E como demorava pra chegar... E um dia ele chegava.
E a felicidade pela data não era só pelos possíveis presentes, mas porque eu sabia que ia ter por perto um monte de gente que eu gostava. E o melhor: os almoços de Natal – os oficiais –, quase sempre realizados na minha casa, pelas mãos de minha mãe Elza; e, em dias subsequentes ao 25 de dezembro, os “almoços paralelos” na casa de minha avó Dica e na casa da tia Conceição e tio Wilson. Por algumas vezes, esses “banquetes” natalinos chegaram a ocorrer no Bairro de Itaquera, em São Paulo, onde moravam tia Zezé e tio Reis. Íamos todos para a capital paulista, meio caminho por trem, de Três Corações (MG) a Cruzeiro (SP), e o restante de ônibus.
Na verdade (não sei o porquê) não era usual a minha família fazer ceia de véspera de Natal. Importante eram os almoços do dia 25 de dezembro, com muita comida mineira, misturando alimentos tradicionais da data, como pernil e peru assados, com torresmo, chouriço, angu e até galinha caipira ao molho pardo, que aqui na Paraíba recebe o nome de galinha capoeira à cabidela.
Voltando à história do menino que sonhava... Podem rir. Mas acreditei em Papai-Noel até por volta dos meus dez anos. E como era bom acreditar no Papai-Noel. Pra abrir logo o jogo, também acreditava em saci-pererê, lobisomem, mula-sem-cabeça, na loira do banheiro, na história de que Seu Chico, que morava na minha rua, virava porco na época da quaresma... Só nunca acreditei em coelho da Páscoa (não sei explicar o porquê: acho que é pelo fato desses mamíferos não colocarem ovos) e nos tais bicho-papão e boi-da-cara-preta (na minha cabeça, isso era só pra criancinhas).
Todavia, o Papai-Noel foi mais forte na minha crença. Acho que isso foi reforçado na minha mente devido a uma história contada pela minha irmã mais velha, Maria José, a Meizé, que jura que um dia, aliás, numa noite, ela viu o Papai-Noel na janela da casa de minha avó... Não foi o Papai-Noel de corpo inteiro, não, mas a mão dele vestida com uma luva marrom. Minha irmã hoje está com 63 anos e garante que viu mesmo a mão do Papai-Noel numa noite de véspera de Natal. E eu acredito nela.
Por outro lado, o meu encanto pelo Papai-Noel acabou quando em um Natal daqueles tempos pedi para o bom velhinho um daqueles jipes em miniatura movidos a pedal, mas acabei ganhando um jipezinho de plástico que mal cabiam meus soldadinhos do Forte Apache ganho no Natal anterior. A verdade nua e crua foi uma pancada nos sonhos daquele menino sonhador. Descobri que meu pai, Seu Jorge Severino, o Sargento Carmo, era na verdade o meu Papai-Noel. Era do seu pouco dinheiro que alguns dos meus desejos eram concretizados. E um jipe de metal a pedal era coisa somente para os filhos dos ricos dos anos de 1970.
O tempo passou e, já aqui na Paraíba, me adaptei ao costume da maioria. Passei a preparar a ceia de véspera de Natal, tentando manter acesa a chama daquele menino sonhador.
Porém confesso que este ano de 2020 não farei ceia e nem me entusiasmo por festas, por tudo que está acontecendo, mas principalmente porque este é o meu primeiro Natal sem o meu verdadeiro Papai-Noel: o meu pai. É um infeliz Natal aqui na Terra, mas vou procurar estar feliz em saber que o meu pai vai participar, em algum lugar do mundo espiritual, do almoço de Natal em companhia daqueles que eu também amava e que já deixaram a vida terrena: vó Dica, tio Wilson, tio Reis, Tia Zezé, tia Alice, minha mãe Elza, meu primo Leides, tio Antônio, tio Zé, vó Ana...
Não quero estragar a festa de ninguém. Um feliz Natal pra todo mundo, mas, para mim, este será o dia mais infeliz deste ano.
Fonte: Espaço PB – Foto: Reprodução – contato@espacopb.com.br
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