Em uma sessão conturbada no plenário do Senado, a maioria dos senadores presentes pediu a saída do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, do cargo após duras críticas à sua atuação na estratégia de conseguir vacinas de outros países. O chanceler negou que pretenda deixar o cargo.
No meio da sessão, o assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins, que estava sentado atrás do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-RO), fez um gesto interpretado como obsceno e gerou revolta de parlamentares.
Em seu lugar [Araújo], pediria demissão hoje. Quando se entra em vida humana, gostaria de saber como foi o convívio neste ano todo ignorando a pandemia. O senhor não sente que colocou a digital nisso? Viu 300 mil mortes e 12 milhões de pessoas infectadas? O senhor ouviu o presidente dizer que era uma gripezinha. Faça um bem para o país e saia do Ministério das Relações Exteriores, afirmou o senador Jorge Cajuru (Cidadania-GO), durante a sessão no Senado, na parte da tarde.
Parlamentares dos mais diversos partidos pediram a cabeça do chanceler e acusaram o governo de ser sido cruel com a população.
O ministro foi cobrado por ter viajado a Israel em busca de um remédio cuja eficácia não é comprovada, pelos problemas que teve com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, e pela demora de Bolsonaro em reconhecer Joe Biden como presidente dos Estados Unidos.
Todos os dias vou para a cama, fecho os olhos e durmo com minha consciência limpa, tanto no tema da Covid como em outros. Em cada dia trabalhei pelo Brasil. Poderia ter tido mais leitos se não tivesse havido corrupção na saúde, poderíamos estar na frente em tecnologia, poderíamos estar juntos com a Índia. Durmo com a consciência tranquila. Me sinto enaltecido quando sou criticado por coisas em que acredito, disse Araújo.
Com a voz embargada, o chanceler disse ter "feito todo o possível a ajudar o país na pandemia, assim como o presidente Bolsonaro". Estou dando toda a minha vida por isso, porque é nisso que eu acredito. Contarei aos meus netos que participei de um projeto bem-sucedido, que livrou o Brasil da corrupção, do atraso e da falta de condições. Tenho amor profundo pelo povo brasileiro.
Em relação a declarações de ex-ministros e comentários de jornalistas, só queria citar, acho que li em algum lugar, que "o opróbrio dos ímpios enaltece o homem tanto quanto o louvor dos justos". Quando quero ser bem informado, não leio o que diz a imprensa, afirmou, em referência às notícias de que crescem as pressões para que o presidente Jair Bolsonaro troque o comando do Itamaraty.
Ernesto Araújo está na mira do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e do da Câmara, Arthur Lira, que realizaram reuniões com o embaixador da China e outros representantes do governo chinês, tentando encontrar maneiras de comprar mais doses e agilizar o envio dos insumos para a produção da vacina da Fiocruz, que também veio da China, segundo a colunista do GLOBO Malu Gaspar. Pacheco e Lira ouviram dos chineses que, com Araújo no Itamaraty, não tem conversa.
Gestos Obscenos
A sessão do Senado, no entanto, foi mais tumultuada. Além dos pedidos para que Araújo deixe o cargo, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) pediu a expulsão de Filipe Martins do plenário, após o assessor internacional da Presidência fazer um gesto com a mão – juntando os dedos polegar e indicador em um círculo e deixando os outros três dedos esticados –, que é tido como obsceno.
Martins fez o gesto, que em muitos países também é interpretado como o símbolo de "White Power", termo usado por supremacistas brancos, enquanto o presidente do Senado cobrava mais transparência do governo no enfrentamento à pandemia.
Eu não sei qual o sentido do gesto do senhor Filipe, era bom que ele explicasse, mas isso é inaceitável, em uma sessão do Senado Federal, durante a fala do presidente do Senado, um senhor está procedendo de gestos obscenos, está ironizando o pronunciamento do presidente da nossa Casa. Não, isso é inaceitável e intolerável, afirmou Randolfe. Não aceitamos que um capacho do presidente da República venha ao Senado, durante a fala do presidente do Senado, nos desrespeitar.
Martins negou que tenha feito gestos obscenos a quem quer que seja, mesmo porque, segundo ele, não ganharia nada com isso.
Araújo afirmou que as relações do Brasil com a China jamais foram abaladas pelos atritos que teve com o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming. Para o ministro, o diplomata asiático teve uma reação desproporcional, ao rebater declarações feitas pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em relação a Pequim.
Fonte: EspaçoPB com OGlobo - contato@espacopb.com.br
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