O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) admitiu hoje estar ciente do risco de remar contra as autoridades sanitárias em todo o planeta e defender com veemência a flexibilização do isolamento social, medida necessária ao enfrentamento da pandemia do coronavírus. O assunto foi pivô da queda do agora ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), defensor da quarentena.
Desde que a crise provocada pela pandemia do coronavírus se instalou no Planalto, Bolsonaro ainda não havia considerado publicamente possíveis danos em razão de sua postura.
"A história lá na frente vai nos julgar [ele e Mandetta]. Eu peço a Deus para que nós estejamos certos lá na frente. Então, essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro, porque, se agravar, vem para o meu colo", afirmou o presidente durante a solenidade de posse do novo ministro da Saúde, Nelson Teich.
Bolsonaro protagonizou uma guerra fria com Mandetta em função das opiniões divergentes quanto à necessidade da quarentena. Na visão do presidente, mandar fechar o comércio e interromper a rotina nas cidades traz prejuízos à economia do país e pode provocar desemprego em massa. Portanto, voltar à normalidade seria, de acordo com o seu entendimento, "uma atitude arriscada, mas necessária para manter o emprego".
Por outro lado, o mandatário observou que, se ocorrer o agravamento da crise de saúde e um aumento exponencial do número de mortes, a responsabilidade pode parar no "seu colo". Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil ainda não atingiu o pico de casos de contaminações pela covid-19. Isso deve ocorrer entre o fim de abril e meados de maio, conforme mostram projeções divulgadas até o momento. Ou seja, a tendência é que haja, de fato, um agravamento desse cenário.
Além disso, autoridades de saúde alertam para o problema da subnotificação. Como há poucos testes sendo realizados, há casos de óbitos por covid-19 que ainda não foram investigados e, dessa forma, ficaram fora das estatísticas. Os especialistas também afirmam que a flexibilização do isolamento social poderia acarretar, entre outros efeitos negativos, a aceleração da tese de agravamento e, consequentemente, o colapso do sistema de saúde, que já não teria mais capacidade para atender o número de possíveis infectados.
Suposta pesquisa
Bolsonaro também também mencionou, sem citar a qual pesquisa se referia ou dar o instituto responsável pelo levantamento, uma notícia de que metade dos prefeitos do país está dividida em relação à retomada do varejo.
"Eu acredito que muita gente já está tendo consciência de que tem que abrir. Hoje mesmo, acreditando na imprensa brasileira, vi uma matéria que [diz que] 50% dos prefeitos estão divididos no tocante à abertura [do comércio]. Até pouco tempo era 100% contra ou 99%. Eu tenho certeza de que eles sabem dessa necessidade", afirmou.
Saída de Mandetta
Em seu discurso, Bolsonaro voltou a dizer que optou por substituir Mandetta por causa da diferença de visão entre os dois. Enquanto o ex-ministro estava preocupado com os impactos na saúde pública, o presidente por diversas vezes defendeu que a economia não deveria ser sacrificada para combater a pandemia.
"A minha visão tem que ser mais ampla. Os riscos maiores, logicamente, são sobre minha responsabilidade. (...) A minha [visão] vai além das da vida, entra na economia, entra no emprego. O efeito colateral do combate ao vírus não pode ser, no meu ponto de vista, mais danoso que o próprio remédio", afirmou.
Bolsonaro também agradeceu Mandetta pelo trabalho à frente do Ministério da Saúde e disse que não há vitoriosos ou derrotados na troca de comando na pasta.
"Eu tenho certeza de que Mandetta até fez o melhor, deu o melhor de si para atingir seu objetivo, e eu agradeço do fundo do coração. Aqui não tem vitoriosos nem derrotados", declarou.
Fonte: Espaço PB com Uol – Redação: contato@espacopb.com.br
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