Artigo: Saudades do que não vivi – Jorge Rezende

Publicado em: 29/04/2026 às 23:50
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Temos a tendência de justificar situações em nossas vidas como resultado do acaso. O destino, quase sempre, é o “culpado” pelos fatos que vão moldando nossa caminhada terrestre. Fatos bons e principalmente os ruins passam a ser entendidos como resultados de uma força superior e invisível, com algum tipo de propósito.

É claro que existem situações que independem da gente. Acredito nessas exceções aleatórias. Todavia, estou convicto de que, em grande parte, o destino é escrito por nós. Traçamos as coordenadas de nossas vidas e, quando os resultados não são agradáveis, procuramos colocar a culpa no destino, na sucessão de acontecimentos inevitáveis que moldam a nossa vida. A sorte – ou a falta dela – passa a ser a responsável pelo que somos ou possuímos.

Caminhando para completar meus sessenta anos, começo a prestar mais atenção em fatos remotos de minha vida que poderiam ter me dado outros destinos. Estou naquela fase do “se”: ah se eu tivesse feito isso ou aquilo; ah se eu tivesse falado sim – ou não –; ah se eu... Ou seja, durante a vida, vamos criando situações com nossas escolhas e decisões e que, no futuro, passamos a conviver com fantasmas criados por nós mesmos. Ficamos a nos indagar – sem obter respostas – dos porquês da vida; por que escolhemos tal situação dentre aquelas que nos “foram oferecidas”?

Hoje, aceito a ideia de que grande parte do meu destino foi construída, sim, por mim mesmo. Porém, ao mesmo tempo, afloram as dúvidas. O “se” chega com força e passo a lembrar de situações e divagar sobre o que teria acontecido caso tivesse escolhido outro caminho. Como teria sido minha vida se tivesse tomado outra decisão? Não são arrependimentos, mas uma certa incômoda curiosidade do que teria acontecido se tivesse feito diferente. Será que minha sorte teria sido melhor ou pior? É estranho, mas, na prática, estou percebendo que tenho alimentado saudades... Saudades, principalmente, do que não vivi. Dentre essas situações, lembro-me de algumas inusitadas, parecendo coisas saídas de um livro de fantasias infanto-juvenis.

Na pré-adolescência, um acampamento cigano surgiu próximo à minha casa. Eu e meu irmão começamos a frequentar o local e nos encantamos com aquele estilo de vida. Ficamos íntimos daquele povo nômade, com a cultura religiosa deles, com os rituais de família, as cores das roupas berrantes e brilhosas, o reluzir dos tachos de cobre que produziam, as tendas harmoniosas e aconchegantes, os anéis e colares semipreciosos – e de ouro e prata também –, as leituras de mãos e o jogo de cartas de destinos... Tudo era quase perfeito às nossas cabeças.

E mais ainda: nos apaixonamos por duas irmãs. Meu irmão “foi enfeitiçado” pela mais velha, a Samantha – que deveria ter uns dezesseis ou dezessete anos. E eu caí nos encantos da mais nova, Soraya, que possuía a minha idade, doze anos. Quando não estávamos na escola ou em outros afazeres, passávamos quase o dia todo no acampamento. Só íamos embora à noite, por pressão do meu pai e de minha mãe. Aliás, minha mãe chegou a dizer que eu e meu irmão estávamos “enfeitiçados” pelos ciganos.

Se foi uma espécie de “bruxaria de amor”, até sei quando esse “encantamento” cigano aconteceu comigo. Soraya era linda. Alongados cabelos negros com consistência de veludo; pele amorenada; cintura fina por vezes mostrando o umbigo mais lindo que vi na vida; olhos profundamente escuros; dentes perfeitos num sorriso quase permanente que ressaltavam aquelas bochechas únicas... Mas, na minha ingenuidade sexual, a magia que me amarrou ocorreu nas vezes em que ela, sentada à minha frente – e longe dos olhos dos seus pais –, Soraya, com aquele rosto sedutor, recolhia sua longa saia colorida até as coxas e me deixava paralisado, hipnotizado, ao ver “o paraíso” à minha frente, sem poder tocá-lo. Ela não usava calcinhas. E eu nunca tinha visto uma coisa daquela... A magia estava ali. A paixão crescia. E como crescia! Acho que essa, talvez, fosse a mandinga alertada por minha mãe.

Os meses se passaram e um dia aquele grupo de cigano decidiu ir embora, pegar a estrada para outras regiões, novos acampamentos. Eu e meu irmão ficamos desesperados. A convite dos pais de Samantha e Soraya, aceitamos partir com eles. Queríamos virar ciganos à força... Na força do amor. Claro que meus pais foram contrários à nossa decisão. Nos dias que antecederam a partida dos ciganos, fomos impedidos de ir ao acampamento, quase trancafiados dentro de casa. E Soraya partiu e nunca mais a vi ou soube notícias dela. Chegamos a maquinar uma fuga e ir à procura dos ciganos, mas não tivemos coragem. Hoje imagino: e seu eu tivesse ido atrás de Soraya? Qual teria sido o meu destino? Nunca saberei e só tento exorcizar esses fantasmas do passado e nutrir saudades pelo que não vivi.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 28 de abril de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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