Artigo: Um grão depois do adeus – Giovanna Barroca de Moura

Publicado em: 10/06/2026 às 23:25
Foto

Neste Dia dos Namorados, me sinto um pouco pensativa.

Sabe aquelas letras de músicas que cantamos o refrão e não nos detemos no que elas têm a dizer? Assim foi a música ‘Drão’, de Gilberto Gil, durante muito tempo na minha vida. Só entendi a letra quando ela fez sentido. A letra da música nasceu quando o casal Gilberto Gil e Sandra Gadelha seguiram caminhos distintos. Daí, Gil compreendeu algo raro: o amor não morre, apenas muda de forma, como o grão que vira pão, alimenta outras vidas, especialmente a dos filhos.

“O amor da gente é como um grão”. Quando um grão deixa de ser semente: não desaparece. Ele germina. Se desperta sobre a Terra, vira planta, gera fruto e alimento. Aquilo que os olhos acreditam que parecia o fim é o início de uma nova etapa da existência.

É nisso que penso quando lembro do meu casamento. Foram quase treze anos de caminhada a dois. Por muito tempo, nossa relação foi como um bom vinho tinto encorpado, na temperatura certa: equilibrado, acolhedor e suave ao passar pelos dias. Me deleitava devagar, achando que o tempo nos conservaria.

Mas o vinho também exige zelo. Precisa de tempo, mas também de atenção. Deve ser bem armazenado, protegido do excesso e das mudanças bruscas. Alguns atravessam anos. Outros, em silêncio, quase sem que se perceba, deixam de ser vinho e se fazem vinagre.

Talvez a grande sabedoria, essa que chega um pouco tarde: reconhecer a hora de mudar a forma do amor antes que ele se perca no ressentimento.

Se nosso casamento deu errado?

Não.

Deu certo sim, que semeou e floresceu no mundo. Leonardo é o nosso grão germinado, a prova viva de que o amor pode mudar de forma sem deixar de existir.

Por isso gosto deste trecho da canção:

“Assumo meus erros. Deus conhece a minha confissão”.

Nessas despedidas não pedem juízes ou precisam erguer tribunais, pois o fim de uma história não precisa produzir culpados. Algumas só pedem compaixão.

Compadecer-se do outro. Compadecer-se de si mesmo.

Talvez seja por isso que ‘Drão’ continue me emocionando. A música nos lembra que o amor não é medido apenas pela capacidade de permanecer anos a fio na relação, mas também pela capacidade de partir sem destruir aquilo que foi construído.



Fonte: Espaço PB – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

Comentários: