Neste Dia dos Namorados, me sinto um pouco pensativa.
Sabe aquelas letras de músicas que cantamos o refrão e não nos detemos no que elas têm a dizer? Assim foi a música ‘Drão’, de Gilberto Gil, durante muito tempo na minha vida. Só entendi a letra quando ela fez sentido. A letra da música nasceu quando o casal Gilberto Gil e Sandra Gadelha seguiram caminhos distintos. Daí, Gil compreendeu algo raro: o amor não morre, apenas muda de forma, como o grão que vira pão, alimenta outras vidas, especialmente a dos filhos.
“O amor da gente é como um grão”. Quando um grão deixa de ser semente: não desaparece. Ele germina. Se desperta sobre a Terra, vira planta, gera fruto e alimento. Aquilo que os olhos acreditam que parecia o fim é o início de uma nova etapa da existência.
É nisso que penso quando lembro do meu casamento. Foram quase treze anos de caminhada a dois. Por muito tempo, nossa relação foi como um bom vinho tinto encorpado, na temperatura certa: equilibrado, acolhedor e suave ao passar pelos dias. Me deleitava devagar, achando que o tempo nos conservaria.
Mas o vinho também exige zelo. Precisa de tempo, mas também de atenção. Deve ser bem armazenado, protegido do excesso e das mudanças bruscas. Alguns atravessam anos. Outros, em silêncio, quase sem que se perceba, deixam de ser vinho e se fazem vinagre.
Talvez a grande sabedoria, essa que chega um pouco tarde: reconhecer a hora de mudar a forma do amor antes que ele se perca no ressentimento.
Se nosso casamento deu errado?
Não.
Deu certo sim, que semeou e floresceu no mundo. Leonardo é o nosso grão germinado, a prova viva de que o amor pode mudar de forma sem deixar de existir.
Por isso gosto deste trecho da canção:
“Assumo meus erros. Deus conhece a minha confissão”.
Nessas despedidas não pedem juízes ou precisam erguer tribunais, pois o fim de uma história não precisa produzir culpados. Algumas só pedem compaixão.
Compadecer-se do outro. Compadecer-se de si mesmo.
Talvez seja por isso que ‘Drão’ continue me emocionando. A música nos lembra que o amor não é medido apenas pela capacidade de permanecer anos a fio na relação, mas também pela capacidade de partir sem destruir aquilo que foi construído.
Fonte: Espaço PB – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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