Artigo: O espírito de Canaletto – Jorge Rezende

Publicado em: 18/09/2025 às 07:10
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Aquela noite estava bem atípica. Tempo abafado e intenso silêncio anormal – que chegava a incomodar – tomavam conta do início de uma madrugada escura e de desaparecimento total da Lua. Até os costumeiros pernilongos não davam o ar de suas graças. Os cães lá do quintal e da vizinhança não emitiam um grunhido sequer. Os cri-cri-cri agudos e estridentes dos grilos pareciam nunca terem existido, sem falar da mudez total dos sapos e rãs dos brejos à meia distância da casa... Que noite esquisita!

A única coisa que ecoava no ar, vindo do último quarto da residência, eram os assovios intercalados com tentativas de se fazer com a boca os sons de imaginárias baterias, guitarras e de instrumentos de sopros. Era Totonho, meu irmão, colocando pra fora quase todo o repertório de Roberto e Erasmo Carlos que conhecia até então, enquanto mergulhava ou esfregava seus pincéis em espalhados montículos de tinta a óleo de variadas cores, antes de lançá-los em aparente harmonia sobre o tecido branco da tela presa a um cavalete.

Entre um assovio e outro, uma canção e outra, uma percussão bucal e outra, uma pincelada e outra, Totonho bradava em voz alta: “Vem, Canaletto! Vem! Cadê você?”. E esse “cenário sonoro” já durava horas, o que despertou minha curiosidade. Deixei o sofá da sala onde tentava assistir a um filme da Sessão Coruja e me encaminhei até o quarto de Totonho. Aliás um aposento que beirava o caos. Uma mistura de dormitório e ateliê. Apenas três móveis: a cama de solteiro com um colchão surrado, um camiseiro com algumas gavetas quebradas e abarrotadas e um tripé em madeira (seu cavalete para suporte das telas de pintura).

Em todo canto do quarto, um festival de quadros prontos ou com obras em andamento (às vezes abandonadas), paletas com tintas endurecidas com o tempo, pincéis de todos os tipos e tamanhos, tubos de tintas a óleo usadas ou ainda intocadas, roupas e trapos marcados por tintas, copos com resquícios de café, pratos e pires com sinais de que um dia acolheram alguma espécie de refeição e cinzeiros... Muitos cinzeiros, acomodando falecidas piolas de variadas marcas de cigarro. No ar, o “casamento” da nicotina e do alcatrão com o cheiro de tinta e solventes. Um ambiente não muito convidativo. No quarto havia uma grande janela envidraçada que dava para o corredor lateral da casa, onde Totonho improvisava uma cortina com um lençol branco... Servia para esconder sua visão da escuridão da noite... Ele tinha medo do escuro.

Ao chegar à porta do quarto, perguntei do porquê do “vem, Canaletto”. E Totonho, com um panfleto na mão que registrava a vida e a obra do pintor italiano, explicou que estava chamando por Canaletto para que ele lhe inspirasse em suas pinturas. Achei engraçado e até desnecessário, porque Totonho, que não era nenhum Canaletto, tinha talento e originalidade suficientes para ser um excelente pintor. E fiz um alerta: “Olha, cuidado! Você fica chamando Canaletto e o espírito dele pode atender aos seus chamados e aparecer em seu quarto”. Neste mesmo instante, o lençol branco que fazia papel de cortina foi se erguendo lentamente e de forma ereta, chegando a ficar à altura de nossas cabeças. Detalhe: a janela estava fechada e não havia nenhuma corrente de vento. Saímos os dois em disparada em direção à sala e tentamos assistir aos filmes da Sessão Coruja, até o amanhecer.

Só para registrar: Canaletto, cujo nome verdadeiro era Giovanni Antonio Canal, nasceu em Veneza, a 17 de outubro de 1697, e morreu, aos 70 anos, na mesma cidade italiana, em 19 de abril de 1768. Foi um artista famoso pelas suas paisagens urbanas de Veneza, sob o ângulo barroco, captando a visão de suas ruas e canais, envoltos em luzes e sombras. Em 1746, mudou-se para Londres, onde se dedicou a pintar paisagens inglesas. Antes, havia se mudado para Roma (1719) onde fez numerosos desenhos de ruínas e monumentos e diversos cenários para as óperas de Alexandre Scarlatti.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 16 de setembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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