Dia desses, nas redes sociais, mais especificamente no Instagram, pude assistir a um vídeo de uma bela moça pernambucana, deitada em uma rede, iniciando assim a sua boa, inteligente, irônica e agradável fala: “Deve ser difícil a pessoa nascer e não ser nordestino...”. E ela prossegue o texto enaltecendo o Nordeste, com destaque para a cultura, a gastronomia, aos comportamentos, aos linguajares e às belezas e prazeres do patrimônio natural dessa terra. Ao mesmo tempo, fui tomado por dois sentimentos distintos: orgulho, por ter sido abraçado e bem acolhido pelo povo paraibano; e frustração por não ter a benesse de ter nascido na Paraíba.
A frustração logo evaporou-se... Porque veio as lembranças do privilégio de ser filho de um paraibano de Alagoa Grande, que migrou para o Sul de Minas Gerais, mas que carregou na alma costumes e atitudes da sua grande pequenina Paraíba. Quando menino, sentia-me com vantagem em relação aos meus amigos do bairro. Não havia uma outra casa da minha rua ou das redondezas que tinha uma fogueira de São João para chamar de sua. Achavam estranho, mas apareciam pra ver aquele costume importado de terras nordestinas pelo meu pai, que também expunha lanternas coloridas dos santos juninos e soltava um ou dois balões.... Tudo confeccionado por ele.
Isso sem falar no Natal, quando a única residência com lapinha era a nossa. E mais: ninguém comia – e nem sabia o que era – um cuscuz... Na minha casa, pelo menos uma vez por mês, o meu pai cumpria o ritual: ralava o milho, preparava a massa colocada em um prato de louça emborcado, embalado por um pano de prato... E ficávamos ali, em torno do fogão, esperando aquele cuscuz cozido ao vapor de uma caçarola... Nessa época, não se via uma cuscuzeira no comércio de Três Corações, minha terra natal. Por essas e outras regalias de que só um filho de paraibano poderia ter, eu me sentia “superior” aos meus colegas de infância, que não tiveram a sorte de um lar com ares de Paraíba, encravado em pleno território mineiro.
Nasci e cresci cercado pelas montanhas de Minas, mas embalado ao som dos inúmeros LPs e compactos de Luiz Gonzaga, de Jackson do Pandeiro, da sanfona de Geraldo Correia, dos oito baixos de Zé Calixto, dos inúmeros repentistas e emboladores de cocos escolhidos a dedo por meu pai. O toca-discos dele, aos sábados e domingos, ficava vedado aos discos de Roberto Carlos, Odair José e de Tim Maia do meu irmão, e aos compactos de Jerry Adriani, Wanderley Cardoso e Ronnie Von das minhas irmãs. O som nordestino era a palavra de ordem.
Só vim conhecer a Paraíba em 1977, quando já tinha 11 anos de idade. Naquelas férias, descobri uma Paraíba que eu já conhecia de berço mineiro. Pude comprovar tudo aquilo que meu pai ilustrava sobre sua terra natal. E quando fixei residência definitiva por aqui, em dezembro de 1988, já me sentia em casa. Melhor ainda: das minhas três ex-mulheres, duas são paraibanas – uma de Sapé e a outra de Itabaiana. Meus seis filhos (três homens e três mulheres) são paraibanos: quatro de João Pessoa e dois de Santa Rita. E pra fechar o firo, além de cinco netos paraibanos (sendo uma menina), no início dos anos de 2010 fui honrosamente agraciado com o Título de Cidadão Pessoense, gentilmente me outorgado pelo vereador Durval Ferreira (hoje no PL). O que eu quero mais? Não abandonei Minas Gerais. Continuo orgulhoso por ser mineiro de Três Corações. Minas não morreu em mim. Todavia, hoje a Paraíba é meu amor, a minha vida.
Tem uma frase que diz assim: “A gente sai de Minas, mas Minas não sai da gente”. E agora eu forjo outra: “Oh, Paraíba, quem te conhece não a deixa jamais!”.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 14 de outubro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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