Tínhamos uma sintonia perto da perfeição. No coração, amor pelo mesmo time de futebol: o Vasco da Gama; com paladares semelhantes, traçávamos as mesmas comidas “leves”: dobradinha (bucho) com feijão branco, mocotó, torresmos, rabada, pernil, uma boa linguiça caseira apimentada...; apreciávamos o cinza, o preto e o verde; gostávamos de acampar, ficar olhando as estrelas, de pescar em rios e andar pelos matos (principalmente na roça); e, de vez em quando, “detonávamos” um garrafão de cinco litros de vinho tinto oriundo das serras gaúchas, acompanhado por nacos de queijo da Serra da Canastra.
Curtíamos e ouvíamos os mesmos cantores, cantoras e bandas: Rita Lee, Raul Seixas, Zé Ramalho, Roberta Miranda, Legião Urbana, Mílton Nascimento, Lô Borges, 14 Bis, Roupa Nova e uma plêiade de duplas caipiras, como Tião Carreiro & Pardinho, Milionário & José Rico, Pena Branca & Xavantinho... Podem achar piegas, mas éramos almas gêmeas; as metades da mesma laranja; a corda e a caçamba; um era tampa, o outro a panela.
Eu e Joana Darc, minha primeira ex-esposa, éramos tagarelas por natureza. Falávamos e falávamos... E falávamos muito. Conversa não faltava. Todo e qualquer assunto, sem limites. De tudo um pouco estava no nosso repertório. Se um dia o casamento acabou, sem sombra de dúvidas não foi por falta de diálogo. Foram intensos quatorze anos de convivência: um de namoro, um de noivado e doze de casamento.
Nas nossas veias, o mesmo sangue mineiro. Eu por parte de mãe (meu pai era paraibano) e ela por parte de pai (a mãe natural de Goiás). Não bastassem tantas consonâncias e combinações de gostos, tínhamos também uma afinidade de crenças, de religiosidade, de espiritualidade e até de coisas transcendentais. Acreditávamos em disco-voador e em seres da natureza: mãe-d’água, caipora, curupira... Joana, educada em família católica – devota da santa que lhe empresta o nome, de São Benedito e de Nossa Senhora Aparecida –, findou em abraçar também a minha religião. Sou espírita kardecista, com coração ecumênico. E o que mais me impressionava era a sensibilidade dela ao mundo espiritual. Fui testemunha de pressentimentos, premonições e sonhos ligados ao mundo dos espíritos vivenciados por Joana Darc. Estamos há quase 25 anos separados e distantes por cerca de 2,5 mil quilômetros um do outro, mas na semana passada, por telefone, ela me fez reviver os mistérios do mundo espiritual.
Ela conta que, há um bom tempo, fez amizade com uma mulher conhecida como Maria do Sorvete, uma senhora solitária, já aposentada, residindo sem parentes e em companhia de cinco cães numa modesta casa situada, praticamente, no mesmo bairro de Joana. Para passar o tempo e não “ficar parada”, comprava sorvete de uma pequena fábrica para revender a iguaria de porta em porta. Ela aproveitava a andança e recolhia dos fregueses material reciclável (garrafas e plásticos) e óleo de cozinha usado para fazer sabão. Joana e Maria do Sorvete ficaram amigas. Uma vez por semana, quase sempre às quartas-feiras, Maria estava à porta de Joana. Há alguns meses, Maria presenteou a amiga com uma blusa rosa.
Na quarta-feira da semana passada, Maria do Sorvete não apareceu como de costume. E nesse mesmo dia Joana despertou após um sonho em que Maria lhe aparecia sorrindo e reclamando que a minha ex-mulher nunca tinha usado a blusa rosa com que foi presenteada. Joana disse que acordou angustiada e falou sobre o sonho com o atual marido dela, afirmando que Maria do Sorvete havia morrido. Claro que ele não deu crédito à revelação. E naquele dia Maria não apareceu para entregar seus sorvetes... Nem no dia seguinte... Nem no outro... Nunca mais.
Depois de três dias do sumiço, com o mau cheiro vindo da casa fechada onde residia Maria do Sorvete, os vizinhos chamaram o Corpo de Bombeiros. Ela foi encontrada caída na sala da casa, parcialmente devorada pelos cinco cães que, sem a tutora para atendê-los, estavam famintos. “Ela veio no meu sonho para avisar que havia morrido”, me garantiu Joana Darc. E eu acredito.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 2 de setembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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