Já contei em outros textos que passei parte da infância e pré-adolescência brincando, correndo, saltitando, inventando histórias de aventura e sonhando com um mundo perfeito em meio a um terreiro de Umbanda, criado e dirigido por uma prima de minha mãe. Era o Terreiro de Mamãe Tatá: meu “reino encantado” dessa fase de minha vida de menino. Meu parceiro de aventuras naquele pedacinho de terra, que nos transportava ao mundo de Aruanda, era o meu primo André Rezende – não era meu primo direto; éramos filhos de duas primas, dona Elza, minha mãe, e dona Sílvia, mãe de André.
Dona Sílvia, a quem eu chamava de tia e pedia a bênção, era médium e incorporava várias entidades espirituais, mas tinha como guia a preta-velha Mamãe Tatá, que dava nome ao seu terreiro. André tinha um irmão e duas irmãs. Nadja, a mais velha, era lindíssima e muito cobiçada pelos moçoilos da época. Ela também era médium e recebia a Cabocla Jurema. Eu ficava extasiado e com os hormônios saltitantes vendo Nadja em transe. Parecia que estava vendo de verdade o espírito da índia que se denominava Jurema se materializando em frente aos meus olhos “pidão” de menino nos primórdios da sexualidade.
Mais tarde, percebi – e entendi – que aquela atração que sentia por Nadja não era apenas um deslumbramento, um fascínio. Era uma paixão “recolhida” na visão e no sentimento de um menino ainda bastante ingênuo e desprovido de malícias sexuais. Era um amor platônico, um afeto idealizado por mim e inatingível. Descobri, já adulto, que sentia uma forte conexão emocional, transcendendo o físico. Um amor só da minha parte, não correspondido. Uma paixão impossível, que ia além da apreciação física. Parti da contemplação à Cabocla Jurema para um amor “em si”. Nadja jamais percebeu o quanto me seduzia sem saber. Nutri, solitariamente, sensações de deslumbramento, encanto, fascínio, magnetismo, tentação, afeição, amor, empatia...
Branca amorenada, olhos que lembravam jaboticabas, roseados lábios carnudos, coxas e “mocotós” torneados, além de longos cabelos negros e brilhantes que insistiam encobrir aquela cintura fina que parecia querer “torar” a minha deusa ao meio. Nadja era uma mistura de princesas da Disney: sonhadora, gentil e recatada como Branca de Neve, Cinderela e Aurora; questionadora, inteligente, corajosa, forte e destemida como Ariel, Bela, Mulan e Pocahontas; e dona de si mesma, curiosa, independente, focada no trabalho duro, guerreira, aventureira e responsável como Tiana, Rapunzel, Merida, Elsa e Moana.
O tempo passou e minha musa se casou. O felizardo tinha sido amigo de infância dos meus irmãos. O nome dele era Gilmar e minha irmã mais velha, Maria José, me relembrou que ele era um “cara esquisito”. Diziam que a família inteira de Gilmar era problemática, com “problemas de cabeça”. O pai dele era fazendeiro. Recentemente, Maria José me contou: “A gente brincava na rua de várias coisas, mas o Gilmar, de repente, saia da brincadeira sem falar nada e ia embora”.
Casados, Gilmar e Nadja foram morar em um sítio, onde ela dava duro para ajudar o marido na produção de mudas de pé de café. No último dia 7 de novembro, completaram-se 41 anos da morte de Nadja. Aos 25 anos de idade, com o filho (Rodrigo) de um ano no colo, Nadja, naquela manhã de novembro de 1984, foi morta com um tiro de espingarda na cabeça disparado por Gilmar. O autor do feminicídio nunca foi preso. Alegavam que ele tinha “problemas de cabeça”.
Dona Sílvia não quis mais ficar em Três Corações, lá em Minas Gerais, porque Gilmar nunca foi preso. Ela fechou o terreiro, deixou sua casa para trás e criou o neto em Ilhéus, na Bahia. Nunca mais tivemos notícias deles. Cinco anos após ter assassinado Nadja, em 1989, o feminicida Gilmar suicidou-se com um tiro na cabeça.
Em tempo: dedico este texto à minha amiga Taty Valéria, responsável pelo Site Paraíba Feminina e uma jornalista destemida e dedicada ao enfrentamento às barbáries perpetradas contra as mulheres.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 11 de novembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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