Em conversas eventuais, tenho escutado de muitos amigos o desejo de serem cremados. Os motivos são variados, mas orbitam a ideia de que, depois de mortos, “não serviriam pra nada” e só ocupariam espaço “precioso” nos cemitérios, perpetuando o “mercantilismo” relacionado à morte. Até entendo as teses dos amigos, mas também detecto um fio de modismo nessa vontade, mesclado com a intenção de colocar rapidamente um ponto final no diálogo, que incomoda a todos. Afirmando que quer ser cremado, o sujeito evita, assim, estender a conversa sobre caixão, velório, féretro e, por fim, o sepultamento. Para a maioria deles, a declaração de querer ser cremado é, inconscientemente, uma maneira educada de pedir pelo encerramento do papo sobre o tema morte.
Na prática, há milênios, os rituais funerários – com cremação ou não – têm mais importância para consolar os vivos do que para beneficiar quem já partiu para outro mundo ou dimensão – ou para o nada, como alguns tantos concebem. Eu, particularmente, não quero ser cremado. E espero que ninguém da minha família ou amigos resolvam fazer isso assim que eu “bater a caçoleta”. Como sou convicto de que a morte faz parte do ciclo da vida, tenho me preparado pra isso. Já há alguns anos pago meu plano funerário (com direito a “beneficiar” outras nove pessoas, familiares ou não – inclusive, além de mim, incluí oito nomes e ainda “tem uma vaga” e coloco à disposição dos amigos e amigas). Esse plano inclui tudo: caixão, preparação do corpo, flores (quero flores artificiais, pois os lírios, crisântemos, rosas, gérberas, copos-de-leite, antúrios, orquídeas, lisiantos e os cravos de defunto não têm culpa e não merecem perecer ao lado de um corpo morto), decoração, traslado, velório etc. Atualmente, tenho planejado adquirir um terreninho em algum cemitério de João Pessoa. Mas tá complicado, pois os preços estão pela hora da morte. Espero que dê tempo de compra-lo...
Meu desejo de ter pelo menos um simples e pobrezinho “filhotinho de mausoléu” não é movido por nenhuma vaidade, materialismo ou crença religiosa. É só uma questão de memória, de história e da única coisa que deixamos para trás... Aliás, deixamos mais do que um túmulo, já que caixão não tem gavetas e nem HD (disco rígido) e tudo fica por aí: dinheiro, bens, dívidas, saudades, desavenças, amores, desenganos, risadas, decepções, promessas, chinelos, cuecas esgarçadas e aquela coleção da revista Playboy, que dizíamos que comprávamos porque traziam as melhores entrevistas pingue-pongues (perguntas e respostas) da imprensa brasileira...
Muita gente que me conhece sabe que sou espírita kardecista. Na visão do Espiritismo, a cremação não é vista como pecado. A propósito, na doutrina espírita – que não condena nada, pois temos o livre arbítrio do certo e do errado –, a cremação é reconhecida como um processo legítimo e uma forma higiênica de devolver o corpo à natureza. Todavia, mesmo aceitável, o Espiritismo faz a ressalva de se aguardar o período de pelo menos 72 horas após o óbito antes de realizar o processo de cremação. Essa orientação se baseia na crença de que o espírito pode precisar de até três dias para se desligar completamente do corpo físico. E mais: a cremação não causa nenhum prejuízo ao espírito, pois o corpo é apenas um invólucro temporário.
A explicação é de que, mesmo após a morte, pode haver uma ligação energética entre o espírito e o corpo, o chamado “cordão fluídico”, que precisa se romper gradualmente. “A cremação imediata poderia causar sofrimento ao espírito, como se ele estivesse sendo queimado junto com o corpo”. Mas não é por isso que não quero ser cremado. Repito: acredito na importância dos túmulos (sepulcro, catacumba, jazigo, mausoléu, sepultura, tumba...) como marco histórico de um indivíduo – famoso ou não – que passou por esta Terra.
Faço parte do time do professor Vanderley de Brito, historiador, arqueólogo, pesquisador e presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG). No seu artigo publicado neste mesmo espaço, na edição do último 1º de novembro, sob o título ‘Cinzas dispersas’, ele frisou: “Como arqueólogo, restos mortais para mim representam documentos e, portanto, rejeito a ideia de cremação de cadáveres (queima de documentos), seja de quem for”.
Em Gênesis 3:19, está lá: “Com o suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás. Já em Eclesiastes 3:20: “Todos vão para o mesmo lugar; todos vieram do pó e ao pó todos retornarão”. Gosto das duas citações. Mas não gosto da ideia de virar pó pelo calor de 1,2 mil graus centígrados.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 18 de novembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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