Artigo: Caixão não tem gavetas – Jorge Rezende

Publicado em: 27/05/2026 às 10:30
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Houve um tempo que dar e receber de presente uma caixa de sabonetes era o máximo, considerado muito chique. Hoje, esse costume perdura, mas parece ser corriqueiro, talvez sem nenhum glamour. Nos anos de 1970, por exemplo, uma caixa de sabonetes, além de não ser um mimo dos mais baratos, significava que uma pessoa nutria muita estima pela outra. Cheguei a presenciar alguns parentes, em especial as mulheres da família, chegarem às lágrimas ao receber uma caixa de sabonetes.

Uma dessas pessoas era a minha tia Alice. Ela ficava feliz da vida. O detalhe era que ela não chegava a usar os sabonetes. Os guardava como se fossem joias. Seu quarto era repleto dessas caixas, ainda lacradas, bem fechadas. Estavam por toda parte: sobre a penteadeira, no criado-mudo, dentro e em cima do guarda-roupas e principalmente nas gavetas. “É pra deixar cheiroso”, explicava tia Alice. Minha mãe reclamava e se irritava com a atitude da irmã. “Alice, pare com isso! Use esses sabonetes. Eles servem para serem usados e não pra enfeitar gavetas”, apontava minha mãe. Tia Alice ignorava e guardou por anos seus sabonetes, inclusive os papeis de presentes que os embrulhava, preservando-os bem dobradinhos debaixo do colchão. “É pra quando eu precisar de um papel de presentes”, justificava ela.

“Pra que ficar guardando? A pessoa morre e tudo fica aí... Caixão não tem gavetas. Ninguém leva nada material desta vida depois que morre”, sempre apregoou minha mãe. Na verdade, as críticas dela não se resumiam aos sabonetes. Ainda hoje, tem gente que deixa de utilizar os talheres daquele faqueiro que ganhou de casamento para usá-los somente em momentos especiais, que às vezes nem vêm acontecer. Há os que preservam louças chiques para essas situações extraordinárias. Deixa de usar uma roupa nova para não estragar, guardando-a para o instante que a pessoa achar adequado. E dinheiro, então? Não é raro existir aqueles que só pensam em acumular, alegando serem econômicos, precavidos e preparados para um futuro imprevisível... Mas se a morte vier sem avisar? O que guardou ou não usou? Ficará pra quem?

Outro comportamento materialista, além de não usufruir do que tem somente “pra guardar”, é o de não se desfazer daquilo que não usa mais. Teve uma época que eu mesmo tinha dificuldades de desfazer de roupas usadas, seminovas ou até novas, que gostava muito e ficava guardando-as, apesar de não me servirem mais. Mudei o comportamento quando minha primeira ex-esposa, Joana Darc, me chamou a atenção: “Não sei do porquê você ficar guardando essas roupas que não te servem mais. Doa para quem tá precisando! Ou vai usá-las no seu caixão no lugar das flores?”.

Mesmo tendo essa consciência apregoada por minha mãe para não sermos apegados a coisas materiais e usar e utilizar do que a vida nos proporciona, recentemente fui infectado pela “síndrome da tia Alice”. No meu aniversário de agosto do ano passado, ganhei da amiga Giovanna Barroca uma “chique” garrafa de vinho... E dos melhores, pois Giovanna é entendida no assunto, além de ter bom gosto. E ela ainda me alertou: “Vinho bom é na taça!”. Não segui seu conselho. Guardei a garrafa na geladeira planejando abri-la numa situação especial. No mês passado, procurei a garrafa e não a encontrei. Meu filho degustou o meu vinho “chique”, alegando: “Ué, achei que não ia beber e eu bebi”. A vontade de “enforcá-lo” foi grande, mas logo passou quando reconheci que a culpa era minha. Deixei de usufruir daquilo que decidi deixar pra depois. Acho que aprendi...

Na semana passada, quando aguardava ser atendido numa conveniência na esquina de onde moro, acompanhei o diálogo entre duas funcionárias da loja. Uma delas estava contando que a avó, num passado não muito distante, era revendedora de confecções produzidas no interior de Pernambuco, nas cidades de Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. Quando resolveu parar de trabalhar, não se desfez do estoque de roupas que tinha. As preservava num enorme guarda-roupa em seu quarto, negando-se a se desfazer das peças. “O guarda-roupa estava abarrotado de roupa”, enfatizava uma das moças, contando que, na semana passada, a avó morreu e seu velório foi feito em casa. “O caixão ficou na sala. Os parentes em fila passavam por um lado, olhavam minha avó no caixão, entravam no quarto e saíam pelo outro lado de onde estava a urna funerária carregando o que podiam das roupas estocadas...”. É, isso é a prova cabal de que gavetas em caixão não têm utilidade alguma. Então, vamos usar a vida. Ela um dia passa.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 26 de maio de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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