Artigo: A santa e a rapadura – Jorge Rezende

Publicado em: 09/10/2025 às 08:05
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A confusão estava grande. Muita discussão, frases ríspidas, arremedos de palavrões, acusações ressuscitadas do passado, ameaças de separação... E os parentes, vizinhos e amigos do entorno tentando apaziguar o clima ruim que, até então, era inédito naquele lar simples, aconchegante e bastante religioso. Maria e João nunca haviam discutido naquele nível. O casal, considerado modelo de harmonia, estava em pé de guerra. Os dois se conheceram e casaram-se bem jovens. A união alicerçada em amor e respeito mútuo já ultrapassava a casa dos quarenta anos de matrimônio. Entretanto, parecia que tudo estava indo pras cucuias.

Os cônjuges eram unidos em tudo. Inclusive na religiosidade. Católicos, não perdiam uma missa sequer. Autênticos papa-missas, papa-hóstias e, mais ainda, papa-santos. Mãos dadas, iam e voltavam da igreja. Na humilde casa localizada no Distrito de Cajá, às margens da BR-230, do lado esquerdo no sentido de Campina Grande a João Pessoa, a devoção e a fé nos santos estavam por toda parte. Paredes e estantes abarrotadas de imagens divinas: quadros, calendários, folhetos, cartazes, chaveiros, bandeirinhas, flâmulas, estatuetas de todos os tamanhos em barro, gesso, louça, plástico, metal... Santas e santos para todos os gostos. Tanto João quanto Maria cultuavam a todos, mas Maria uma devota de Nossa Senhora da Conceição; e João admirava e se dizia seguidor de Padre Cícero.

Sem filhos e sobrevivendo dos parcos recursos advindos das aposentadorias de ambos, complementavam a renda com a venda de balas, doces, chicletes e pipocas em um modesto fiteiro improvisado no alpendre da casinha azul. Além de promover esporádicas novenas em datas especiais, o casal economizava o ano todo para esbanjar nos únicos “luxos” e “extravagâncias” que mantinham: as excursões religiosas a Juazeiro do Norte, no Ceará, para a romaria ao santuário de Padim Ciço; a Guarabira, na Região do Brejo paraibano, para visitar o Memorial Frei Damião; e a São José dos Ramos, bem próximo a Caldas Brandão, município sede do Distrito de Cajá, para a Festa do Padroeiro São José.

E a confusão no lar do casal à beira da BR-230 teve início logo após retornarem de uma excursão a Juazeiro do Norte. Aliás, de todas as “romarias” feitas em ônibus fretados que faziam anualmente, a de Juazeiro era a mais planejada e dispendiosa. Essa viagem organizada para um grupo de pessoas de Cajá era um pacote completo, não só destinado a uma peregrinação religiosa, mas com variáveis de missão recreativa, cultural, educacional e, claro, de lazer. Tudo sempre bem organizado: roteiro pré-definido; transporte confortável e seguro; hospedagem; alimentação e atividades turísticas. Uma experiência repetida a cada ano, porém sempre com a impressão e a satisfação de que aquela aventura religiosa estava acontecendo pela primeira vez.

Naquele ano da confusão pós-viagem, a grande novidade foi a realização de um sonho de consumo nutrido há anos por Maria. Pela primeira vez, os contados tostões do casal renderam, e a sobra foi o suficiente para que Maria comprasse (num preço bastante caro) uma nova imagem de Nossa Senhora da Conceição que há tanto almejava. Com pouco mais de vinte centímetros, a imagem de metal era uma obra de arte, toda pintada a mão, com cores vibrantes e o que mais impressionava: o rosto da santa era tão realístico que parecia querer piscar os olhinhos e soltar alguma frase de louvor aos céus. Até os cinco anjinhos que adornavam os pés da santa pareciam estar vivos e que, a qualquer momento, iriam bater suas celestiais asinhas, voarem e bailarem ao canto de Hosana nas Alturas, acompanhado por sanfona, triângulo e zabumba.

Que alegria para Maria! Na viagem da volta, a todo momento ela ordenava a João para olhar no bagageiro, acima das cabeças dos passageiros, se estava tudo bem com a santa, acomodada com todo o cuidado dentro de uma caixa retangular, embalada cuidadosamente num papel simples, rústico e de cor cinza, parecendo aqueles utilizados antigamente em quitandas para embrulhar peixes ou carnes. Para Maria, o uso de uma embalagem “pobrezinha” era para não chamar a atenção acerca do “tesouro” que ela carregava.

Ao chegar em Cajá, desembarcaram quase em frente ao lar-doce-lar do casal. Pegaram seus troços, despediram dos demais peregrinos, agradeceram ao motorista e entraram apressadamente na casinha azul – Maria, apesar da idade um tanto avançada e as dores nas juntas causadas pela gota (doença inflamatória causada pela alta concentração de ácido úrico no sangue), praticamente correu como menina, colocou o pacote cinza em cima do sofá e começou a desembrulhá-lo... E foi aí que a confusão começou: na pressa, houve uma troca de pacotes e o pacote recolhido por João no bagageiro, também cinza, era uma rapadura... Maria, apesar das ameaças – e aquela terrível briga de casal –, continua casada com João, mas nunca o perdoou pelo engano. Até hoje não se sabe quem levou uma imagem de metal caríssima de Nossa Senhora da Conceição ao preço de uma rapadura.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 7 de outubro de 2025) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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