Você já conviveu com alguém invejoso? Claro que sim. Todo mundo conhece uma pessoa dessas. Pode ser o vizinho, o colega de trabalho, um parente distante ou aquele amigo de WhatsApp que parece incapaz de celebrar a felicidade alheia.
O curioso é que a inveja talvez seja o único pecado que ninguém admite possuir. Nunca ouvi alguém dizer, com a mesma naturalidade de quem confessa gostar de comer demais ou de procrastinar: “Sou invejoso”. Não! A inveja é sempre dos outros.
De todos os sete pecados capitais, ela tem uma característica peculiar: todo mundo já se sentiu alvo dela, mas quase ninguém se reconhece como autor. O “olho gordo” mora sempre na casa ao lado. Nunca na nossa.
Talvez seja justamente isso que a torne tão fascinante.
A gula aparece sem cerimônia no terceiro pedaço de bolo. A preguiça se entrega quando apertamos o botão do despertador pela quarta vez. A soberba costuma fazer questão de ser vista. A inveja, não! Ela prefere os bastidores. Trabalha em silêncio.
Lembrei da série ‘Os Outros’. Existe uma ironia brilhante escondida nesse título. Porque os outros também somos nós. O vizinho explosivo, a mãe competitiva, o colega ressentido, a família que vive se comparando, todos parecem personagens fáceis de julgar quando estão do lado de fora. O problema começa quando percebemos que carregamos dentro de nós as mesmas fragilidades que enxergamos neles.
Talvez você tenha chegado até aqui pensando: “Eu não sinto inveja de ninguém”. Será?
A inveja não escolhe sexo, idade, profissão ou classe social. Ela circula livremente. Frequenta escritórios, universidades, igrejas, academias e grupos de família. Às vezes veste a roupa da crítica. Outras vezes aparece fantasiada de desdém. Em certas ocasiões surge como uma piada aparentemente inocente.
“Nem achei essa promoção toda essa coisa”.
“A viagem estava bonita, mas eu não iria para lá”.
“O carro é bom, mas pelo preço...”.
A inveja raramente chega anunciando seu nome.
E talvez nenhum lugar seja tão favorável para ela quanto as redes sociais. Basta alguns minutos rolando o feed para surgir aquela sensação desconfortável de que todo mundo está vivendo melhor. Os outros viajam mais, amam mais, produzem mais, ganham mais, sorriem.
Enquanto isso, você está parado no trânsito da BR-230, ouvindo áudios acelerados no WhatsApp e tentando descobrir como vai pagar o boleto que vence amanhã.
A comparação é o combustível da inveja. E as redes sociais funcionam como um posto aberto vinte e quatro horas por dia.
Mas talvez exista uma diferença importante entre sentir inveja e ser consumido por ela. Quando fingimos que ela não existe, ela cresce escondida. Quando a reconhecemos, perde parte do seu poder. Afinal, a inveja quase nunca fala apenas sobre aquilo que o outro possui. Ela revela algo sobre aquilo que desejamos, sobre nossas faltas e sobre as insatisfações que preferimos não encarar.
Talvez amadurecer seja justamente isso: parar de procurar a inveja nos outros e admitir que, de vez em quando, ela também passa pela nossa porta.
Afinal, como diz a canção, “os outros são os outros e só”. Mas nós, muitas vezes, somos muito parecidos com eles.
Fonte: Espaço PB – Giovanna Barroca (giovannabarroca@gmail.com) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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