Quem nunca sonhou ter o poder de voar? Acho que nós todos um dia já tivemos essa imaginação e vontade. Principalmente na infância e adolescência – melhores tempos para fantasias. Olhar para o céu e querer imitar os pássaros, estar próximo às nuvens e, quem sabe, chegar ao espaço sideral, à luz das estrelas, tudo isso parece ser inerente ao ser humano, desde que iniciou a povoação do planeta Terra.
A canção ‘Sonho de Ícaro’, dos compositores Cláudio Rabello e Piska, e que se tornou eterna na gravação do cantor Biafra, no álbum ‘Existe Uma Ideia’, em 1984, é baseada em Ícaro, personagem da mitologia grega. Filho de Dédalo, um grande inventor e artesão de Atenas, Ícaro tentou fugir de uma prisão usando asas de cera e penas, mas morreu após voar “perto demais” do Sol.
Meu irmão Totonho – como já disse em outro texto, alimentava sonhos um tanto impossíveis – tinha tudo a ver com Ícaro. Quando menino imaginava ser piloto de avião, saltar de paraquedas, andar de balão, ser astronauta, sofrer abdução e embarcar em um disco voador, chegar a outros planetas... Passou a vida inteira com essas ideias e na sua adolescência, com os pés presos ao chão, mirabolou um bocado de coisas para tentar concretizar seus sonhos de menino-passarinho. Eu, como irmão mais novo, não só fui testemunha desses experimentos, mas sua “cobaia”.
Certa vez, utilizando materiais extraídos de sombrinhas e guarda-chuvas descartados, arames e varas de bambu, construiu um protótipo de asas e instalou no meu velocípede que, por uma corda de uns três metros, foi atado ao bagageiro de sua bicicleta Monark. Comigo no guidom de meu brinquedo, partiu em alta velocidade, prevendo que, a qualquer momento, eu e o velocípede iríamos alçar voo. Obviamente o que não ocorreu. Na primeira curva, saí pela tangente, resultando em terríveis arranhões na barriga e no tórax, escapando de fraturas de costelas. O invento foi destruído pelo meu pai e Totonho recebeu uma “bela” surra.
Diferente da maioria dos outros adolescentes, Totonho não gostava de soltar pipas, que podiam ser manobradas e desenhar acrobacias pelo ar. Ele se especializou e tornou-se um exímio fabricante de enormes papagaios, que só tinham capacidade de subir muito alto. Como na canção de Biafra, Totonho só queria que seu papagaio fosse às alturas, o mais longe possível. Depois de “voar, voar, subir, subir”, seus papagaios sumiam de vista e a linha (às vezes de número dez, para costura; ou de nylon, utilizada em pesca) ficava “pesada”. Então, ele cortava a linha, divagando: “Agora, ele vai embora e sair da atmosfera”. Consciente do meu peso, ainda bem que ele não especulou em me utiliza como passageiro desses papagaios.
Em outra oportunidade, ele fabricou, com varetas de bambu afinadas e papel marrom que um dia embrulharam pão, uma miniatura em escala perfeita do 14 Bis, do mineiro Santos Dumont. Medindo cerca de dois metros de comprimento, o objeto ficou uma “obra de arte”. Porém, confeccionado com material grosseiro, assim como o avião de Dumont, era mais pesado do que o ar. A diferença é que o verdadeiro 14 Bis voou. A miniatura do meu irmão não saiu do chão.
De tudo que imaginou e criou, o grande empreendimento de Totonho ocorreu por volta de 1975, quando o uso de asas-deltas no Brasil começara, em 12 de setembro de 1974, com o primeiro voo realizado no Rio de Janeiro por um piloto francês. Totonho ficou fascinado ao ver o objeto na televisão e resolveu ele mesmo fabricar a sua asa-delta. Após traçar o projeto numa folha de caderno para desenhos, colocou a mão na massa. Em poucos dias fabricou no quintal da nossa casa a sua asa-delta, utilizando uma foto de revista como modelo, bambus verdes de grossura média, lençóis brancos surrupiados do guarda-roupas de minha mãe, arames e cordas finas de nylon utilizadas para varal de roupas. Pronto! Só faltava o piloto de testes. E adivinhem quem foi o “premiado”? Claro, eu!
Equipado com o capacete do Exército pego “emprestado” do meu pai e muito sem noção da tragédia, fui acoplado à asa e estava pronto para ser arremessado de uma altura de sete metros da ponte sobre o rio que passava próximo à nossa casa. Poucos instantes do meu voo histórico, fomos interrompidos pelo meu pai, repetindo a história: asa destruída e outra surra em meu irmão. Na época, fiquei decepcionado com o meu pai. Hoje, agradeço demais pela intervenção.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 1º de setembro de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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