Iniciativas visam à recuperação do bioma genuinamente brasileiro que sofre com a degradação
“A Caatinga é da cor da esperança”. Foi assim que o pesquisador Aldrin Pérez, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), descreveu o bioma. “A beleza da Caatinga não está nos verdes permanentes, mas no ciclo dela. Branca, cinza e verde. Cada fase tem um significado. Quando está branca, indica paz e perspectiva. Quando cinza, renascimento. E, quando está verde, expressa a plenitude de uma floresta cheia de vida. É a dança da vida, que confunde a todos aqueles que só enxergam beleza nas florestas úmidas”, complementou. A preservação desse bioma tão importante é a chave para o enfrentamento da desertificação no semiárido paraibano.
Único bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga ocupa cerca de 10% do território nacional e sustenta a vida de aproximadamente 28 milhões de pessoas. Contudo, 10 milhões de hectares já enfrentam degradação severa. “As áreas afetadas pela desertificação somam cerca de 18% no país e atingem, aproximadamente, 39 milhões de pessoas. Não podemos tratar isso como um mito. Estamos falando de qualidade de vida, alimentação, água e do futuro de milhões de famílias”, afirmou o pesquisador. Esses números, além de demonstrarem a gravidade da situação, reafirmam o que os pesquisadores já constataram: atualmente, a desertificação atinge também outros biomas brasileiros, como o Pantanal.
A desertificação diz respeito ao processo de degradação da terra, segundo o professor Bartolomeu Israel de Souza, do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “As principais formas dessa deterioração estão associadas a como o homem gerencia as terras. O desmatamento excessivo e contínuo é a principal delas, pois causa a diminuição da retenção de água no solo, da fertilidade, da fauna no local, o que reduz a produção agrícola e aumenta a pobreza”, explicou. Já as mudanças climáticas entram nessa conta para intensificar os processos causados originalmente pelo homem.
Por isso, a questão não pode ser considerada apenas como um problema ambiental, é também social, político e cultural, conforme explicou Aldrin. “Ela mexe com a comida na mesa, com a água na torneira, com o trabalho do camponês e com o futuro de milhões de famílias”.
Para Aldrin Pérez, o problema da desertificação existe e precisa ser enfrentado, mas a Caatinga não pode ser vista apenas pela ótica da degradação. “Ela é uma solução ambiental de enorme importância para o Brasil”, afirmou.
Segundo ele, estudos desenvolvidos pelo Observatório Nacional da Dinâmica da Caatinga (OCA) demonstram que a vegetação desse bioma continua capturando carbono mesmo durante períodos de estiagem, contribuindo para o equilíbrio climático. Em áreas mais úmidas, chega a sequestrar até sete toneladas de CO2 por hectare por ano. Além disso, o bioma abriga milhares de espécies de plantas e animais endêmicos, isto é, exclusivos da região. “A Caatinga aprendeu a ser eficiente. Mesmo nos anos mais secos, continua retirando carbono da atmosfera e armazenando esse carbono no solo. Basta uma gota de chuva e ela renasce”, destaca.
Conforme explicou Pérez, a importância da Caatinga vai muito além do aspecto ambiental. O bioma está diretamente relacionado à produção de alimentos, à segurança hídrica e à permanência das populações no campo.
Paraíba
Na Paraíba, onde a desertificação ameaça grande parte do território, o desafio se torna ainda mais urgente. De acordo com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), o estado possui, aproximadamente, 54 mil km2 de áreas suscetíveis à desertificação (ASDs), dados que representam 95% do território estadual. As regiões mais críticas concentram-se no Cariri, no Seridó e em partes do Sertão paraibano.
Contudo, dados do MapBiomas, indicam que, em 2024, a Paraíba registrou redução de 44% nos alertas de desmatamento, preservando cerca de 5.500 hectares de vegetação nativa, conforme explicou o chefe da Divisão de Implantação de Programas Ambientais e Projetos da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), Itallo Harlan. “O resultado reflete o fortalecimento das ações de fiscalização e conservação realizadas por órgãos ambientais e instituições parceiras, contribuindo para a proteção dos ecossistemas e para o enfrentamento dos processos de degradação ambiental”, pontuou.
Nesse contexto, o estado atualizou o Plano de Ação Estadual para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária do Estado da Paraíba (PAE-PB). O documento busca alinhar as ações estaduais às diretrizes do novo Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil), priorizando a recuperação de áreas degradadas, a restauração da vegetação nativa da Caatinga, a conservação dos recursos hídricos, o fortalecimento da agricultura sustentável e a adaptação às mudanças climáticas. “O objetivo é reduzir a vulnerabilidade ambiental e socioeconômica das regiões mais afetadas pela desertificação no estado”, explicou a gerente operacional de Recomposição Vegetal da Semas, Ana Carolina Flores.
Recuperação ambiental
Assim, projetos de recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes e incentivos a práticas sustentáveis desenvolvidos no estado reforçam a conservação da biodiversidade, a segurança hídrica e alimentar, além da adaptação às mudanças climáticas na região.
Uma das iniciativas de destaque é o Programa Paraíba Mais Verde, concebido no início do ano passado pela Semas. A iniciativa, que abrange os 223 municípios paraibanos, visa promover ações de recuperação ambiental, desenvolvimento sustentável e adaptação climática.
De acordo com Jancerlan Rocha, gerente-executivo de Mudanças Climáticas da pasta, o programa é composto por seis projetos, que atuam em sinergia para combater a desertificação e recuperar ecossistemas degradados. “É uma grande iniciativa do Governo do Estado voltada ao desenvolvimento sustentável, regularização ambiental e adaptação climática”. Cada um dos projetos atua de modo a ampliar a proteção dos recursos ambientais e fortalecer a conservação dos biomas do estado. Conheça um pouco sobre cada um deles a seguir:
Viveiros Parahyba
A ação tem como objetivo implementar uma rede de viveiros para a produção de mudas nativas e exóticas, visando atender pequenos produtores e promover renda, conservação e recuperação ambiental de áreas degradadas ou alteradas nos biomas da Caatinga e Mata Atlântica.
Projeto Corredor das Águas
Com investimento de R$ 3 milhões, o projeto busca proteger recursos hídricos, conservar a biodiversidade e recuperar áreas degradadas por meio da criação de corredores ecológicos. Realizado em parceria com a Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa), a iniciativa busca aliar desenvolvimento social à consciência ambiental da comunidade.
Projeto Regulariza-PB
Promove a segurança jurídica dos agricultores e das atividades produtivas, bem como o acesso às políticas públicas e sociais do campo por meio da regularização ambiental de propriedades rurais. Com um investimento de R$ 1,3 milhão, a ação realiza o cadastramento e a retificação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) em propriedades rurais. Segundo dados da Semas, mais de oito mil trabalhadores rurais já foram beneficiados, bem como cerca de 2.500 propriedades atendidas.
Projeto Cidade+Verde
A arborização urbana é o destaque dessa iniciativa, que promove qualidade de vida e cidadania, focando na melhoria da habitabilidade, no conforto térmico e na neutralização do carbono em escala local, além do enriquecimento ambiental de áreas públicas.
Projeto Sertão Vivo
É uma ação do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) para apoiar iniciativas que promovam a resiliência climática da população rural do semiárido do Nordeste brasileiro, por meio de três pilares: acesso à água, práticas sustentáveis e inclusão social e produtiva.
Na Paraíba, a ação vai atender 38 mil famílias em 157 municípios, totalizando mais de 150 mil beneficiários, com um investimento de R$ 150 milhões.
Projeto Lixão Legal
Promove a remediação e a recuperação ambiental de áreas degradadas pela disposição inadequada de resíduos sólidos urbanos, por meio da elaboração e execução de Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (Prad), em regime de parceria com os municípios.
Uma outra iniciativa estatal é o Projeto Nascente Viva, coordenado pela Sudema, com foco inicial na recuperação e proteção de nascentes localizadas na bacia hidrográfica do Rio Paraíba. Com a ampliação das ações, o projeto passou a atuar também na recuperação de áreas de preservação permanente (APPs).
Segundo Itallo Harlan, desde sua criação, em 2022, a iniciativa já promoveu a recuperação ambiental de aproximadamente 120 hectares de APPs do Rio Paraíba. Outros 85 hectares já possuem autorização para receber ações de recomposição florestal em ainda neste ano. “No semiárido paraibano, também foram recuperados 15 hectares em uma comunidade quilombola de Santa Luzia, com foco específico no combate à desertificação. Além disso, cerca de 35 hectares localizados na área de preservação do Açude de Santa Luzia estão em processo de recuperação”.
Assim, o Projeto Nascente Viva contribui para a mitigação desse processo por meio da recuperação da cobertura vegetal, da proteção de nascentes e da restauração de áreas degradadas. Essas ações ajudam a reduzir a erosão, aumentar a infiltração e retenção de água no solo, melhorar a fertilidade e favorecer o equilíbrio climático local, interrompendo ciclos de degradação ambiental.
Fonte: Espaço PB – A União - por Camila Monteiro* - Foto: Bartolomeu Israel/ Arquivo pessoal: contato@espacopb.com.br
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