Política & Adjacências: Neófitos que já querem sentar na janela se dão mal – Jorge Rezende

Publicado em: 28/08/2025 às 20:40
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Em qualquer época, o jovem sempre demonstrou ter pressa. É uma característica natural aos mais novos. A paciência se adquire com o tempo. Porém, estamos vivendo um momento em que essa necessidade de celeridade em tudo está exacerbada. Ninguém quer ser soldado. O sujeito ou a sujeita já quer ser general sem passar pelas etapas de crescimento, aprendizagem e acúmulo de experiências. Tudo na vida do jovem passa a ser pra ontem. Acham que estão prontos e não podem perder tempo esperando acumular sapiência e prática.

Acredito que esse comportamento é estimulado pela velocidade com que as coisas têm acontecido, principalmente no campo da comunicação e da tecnologia. Se no passado as novidades e os avanços tecnológicos eram bastante espaçados entre uma boa nova e outra, hoje há sempre algo de última geração chegando ao mercado e à vida das pessoas. Ninguém quer ficar pra trás, desatualizado. Obviamente que tudo isso influencia no comportamento, principalmente dos mais jovens.

É um fenômeno moderno que atinge todos os campos da caminhada humana. E na política não será – e não é – diferente. Basta observar os noviços na vida política. Os parlamentos em todos os níveis e os cargos nos Poderes Executivos em várias esferas, pelo menos nesta última década, estão cheios de aventureiros, em sua maioria jovens, ocupando espaços de gestores e mandatos importantes de forma aloprada. Muitos têm trocado os pés pelas mãos em busca do topo o mais rápido possível. Todavia, estar em cima da carne seca não significa ter preparo necessário, experiência adquirida e equilibrada, para cumprir bem o seu papel. Entre as suas dezenas de possíveis definições, a política é, sim, a arte da paciência.

Como aponta aquele ditado popular, “o apressado como cru”. Muitos jovens políticos têm demonstrado pressa e agem sem nenhum cuidado ou paciência. Isso tem findado em resultados negativos ou incompletos. Na maioria das vezes, ao contrário de concluírem uma tarefa, uma missão, um mandato eficaz ou alcançar um objetivo de maneira satisfatória, o neófito apressado (em idade ou caminhada política ou as duas coisas ao mesmo tempo) têm cometido erros, causando problemas ou simplesmente não alcançando o resultado esperado. Dessa maneira, como o alimento político não está sendo cozido de forma satisfatória, o novato em ascensão será comido cru.

Na atualidade, a política da Paraíba tem se tornado um campo fértil para a proliferação desses neófitos recém-chegados (uns mais e outros menos) que já querem – e têm conseguido em alguns casos – sentar logo na janela. Não têm demonstrado paciência o suficiente em suas trajetórias políticas. Passam a galgar os degraus políticos em passos largos, queimando etapas e pisando em quem estiver pela frente e empurrando com a arrogância até conceitos básicos da boa política. O poder é perigoso. Pode cegar e também emburrecer.

A prática de chegar e logo quere sentar-se à janela não considera regras ou o tempo de permanência. Acabam se embaraçando na busca de vantagens ou privilégios de imediato. Na realidade, cultuam uma forma de se impor ou aproveitar o que não lhes pertence de direito, mas que eles se apossam por achar que estão prontos para aquele cargo ou mandato. Repito: o poder pode ser perigoso e levar esse agente ao fracasso.

Lugar de jovem também é na política. Há muitos capacitados atuando por aí e devem, sim, fazer política. Idade não é problema pra se entrar na seara político-partidária, mas experiência deveria ter mais crédito (ou peso). Como diz um jargão militar, “antiguidade é posto”. Por outro lado, acredito que cada leitor pode fazer, neste momento, uma razoável lista de neófitos aloprados que hoje habitam a política paraibana. Nomes é que não faltam, independente de formação intelectual, ideologia ou cor partidária. Eles estão por aí... Eu mesmo poderia fazer uma lista consistente e citá-los, mas a intenção aqui não é detonar ninguém e sim fazer um alerta aos eleitores, para que prestem mais atenção em quem pretendem votar daqui pra frente. O alerta maior é para os próprios neófitos da política: cuidado com a pressa, a queda pode ser grande.

Boas ou ruins, carismáticas ou não, competentes ou não, há na história da política paraibana dezenas de nomes de personagens que alcançaram o poder e se tornaram lideranças de forma adequada, acumulando experiência, respeitando o fluxo normal do processo político... Um degrau de cada vez.

Para ficar em um exemplo apenas, basta observar a figura do escritor e político José Américo de Almeida. Amado por muitos e odiado por outros tantos, o autor de ‘A Bagaceira’ e de ‘A Paraíba e Seus Problemas’ percorreu o caminho político de forma natural. Acumulou tanta experiência que, nos últimos anos de sua vida, transformou-se num oráculo, num consultor de uma plêiade de personagens da política regional e nacional.

Como bem sequenciou em um texto o arqueólogo Vanderley de Brito, presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG), que considera José Américo o paraibano do século XX, o chamado “Solitário de Tambaú” formou-se em Direito, em 1908, pela Faculdade de Recife; foi promotor, procurador-geral do estado, secretário-geral da prefeitura de João Pessoa, militante ativo da Revolução de 1930, governador-geral do Norte, ministro de Viação e Obras Públicas, senador da República, candidato à Presidência da República, ministro do Tribunal de Contas, presidente nacional da UDN e governador da Paraíba. Uma experiência política forjada no passo a passo, na paciência.



Fonte: Espaço PB – Jorge Rezende – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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