Páscoa 2022: profissionais do ramo da confeitaria na Paraíba se reinventam para driblar a crise e atrair clientes

Publicado em: 19/03/2022 às 20:45
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Em doze meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), que mede a inflação no país, acumulou alta de 10,54%. O resultado foi divulgado na última semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e demonstra as dificuldades que o brasileiro passa hoje para adquirir produtos de todos os gêneros. Essa realidade tem afetado a todos, sem exceção, e vem exigindo que o produtor se reinvente a cada dia. É o que tem acontecido, atualmente, na Paraíba, com profissionais do ramo da confeitaria.

Se o ditado diz que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval, para confeiteiras e marcas voltadas à confecção de doces de chocolate o ano só começa no período de Páscoa. A temporada pascal, no entanto, se inicia muito antes das estratégias de vendas e do lançamento de cardápios. É com o fim das festas de fim de ano que a pesquisa de tendências e o levantamento de preços começam.

Segundo a designer de bolos Gislayne Borges, é imprescindível observar os preços praticados na matéria-prima dos ovos, o chocolate. Entretanto, também é necessário prestar atenção no valor de embalagens, recheios, complementos e tudo o que compõe o resultado final da produção, porque, conforme a Páscoa se aproxima, os valores mudam muito e, com as constantes altas nos preços, este ano estão variando ainda mais.

Isso acontece porque, em fevereiro, a inflação atingiu o maior índice para o mês dos últimos seis anos. Esse resultado significa que, se comparados os percentuais de todos os meses de fevereiro, de 2016 a 2021, o índice deste ano será o maior de todos. A alta registrada pela inflação no mês passado foi de 1,01% e, segundo o IBGE, está relacionada ao custo de dois elementos fundamentais para a sociedade: alimentos e educação. Agora, com o mega-aumento de combustíveis, a expectativa é que os preços continuem subindo e, com eles, a inflação também. Ou seja, Gislayne está correta em acompanhar os preços dos ingredientes de ovos de páscoa com antecedência, principalmente porque a inflação, hoje, é impulsionada pela disparada no preço dos alimentos.

Focadas em reinventar o cardápio para atrair os clientes que, eventualmente, se assustam com os preços de alimentos industrializados, as sócias Vanessa e Daniela Leopoldina (donas de uma confeitaria especializada em bolos de rolo) personalizam os pedidos de cada cliente. E, quando o assunto é ovo caseiro ou industrializado, Vanessa garante que a experiência conta muito mais que o preço. “A gente faz exatamente o que o cliente quer para a Páscoa dele. Imagine ter um bolo de acordo com o seu desejo”.

Gislayne Borges concorda com Vanessa. Para ela, a experiência é o que mais conta em momentos como este e, por isso mesmo, “só não ganha dinheiro quem não souber vender seu produto, porque o valor simbólico que este trabalho tem não se compara”.

Todos precisam se adaptar

Em João Pessoa, o preço de ovos industrializados varia de R$ 15,99 a R$ 129,90, uma mudança de mais de 712% a depender da marca e da casca do ovo. Frente a preços tão altos, a tradição de troca de ovos de chocolate se tornou insustentável para muitos paraibanos.

Com três crianças em casa, Poliana Hussain precisou encaixar a data comemorativa no bolso e ajustar as expectativas dos filhos para que ninguém saia da Páscoa de 2022 frustrado.

Como a filha mais velha já tem 21 anos, não ganha mais chocolates. Os mais novos, no entanto, ainda recebem e foi com eles que Poliana precisou conversar nos últimos dias. “Este ano fizemos um acordo e vamos confeccionar nossos próprios chocolates. Já temos algumas formas legais que eles escolheram e vamos colocar a mão na massa, literalmente”, enfatiza Poliana ao comentar que, diante da proposta, todos da casa estão empolgados.

Para as crianças mais velhas, Poliana prometeu que haverá uma oficina caseira de ovos. Já para a mais nova, de um ano e meio, a mãe esconderá ovinhos menores e fará a tradicional caça que, além de ser lúdica, contribui para que a pequena se sinta incluída na brincadeira e seja incorporada na tradição.

“De início, a mais velha das crianças se opôs. Mas foi tranquilo quando expliquei que ela mesma faria o ovo. Expliquei que estava muitíssimo caro e que os brinquedos nem são mais tão atraentes como antigamente. Como a mais nova ainda não escolhe, somos nós que vamos fazer a Páscoa animada dela escondendo os ovinhos”, explica Hussain.

Marcas também buscam inovar

Brasileira, a marca de chocolates Lacta foi fundada em 1912 e hoje integra a divisão de guloseimas da multinacional alimentícia, Mondelez. Diante da instabilidade política que afeta constantemente a economia nacional, a marca precisou repensar as estratégias de vendas para manter a clientela no momento em que completa 110 anos. Isso porque nem mesmo esta que é uma das mais tradicionais produtoras de chocolates do país escapou de ter que se reinventar para garantir as vendas da temporada de páscoa. E assim vale apostar em novidades para todos os gostos.

Dentre as inovações do atual plano de vendas da Lacta, está a integração ao metaverso (uma versão de mundo que busca replicar, digitalmente, a realidade) por meio de uma loja 3D, onde os clientes podem circular pelo ambiente virtual como se estivessem presentes em um espaço físico.

Essa mudança surge num momento em que as atenções do público estão voltadas para a revolução que o metaverso propõe, mas também está relacionada ao fato de que, no ano passado, o site de vendas da Mondelez cresceu mais de 100% com a venda de alimentos rápidos, os chamados snacks. “Os canais online são uma grande prioridade na companhia, por isso incrementamos o investimento em 130% em comparação com 2020”, destaca a empresa, em comunicado.

Expectativas para este ano

Apesar dos maus resultados que o IPCA tem demonstrado para a inflação, 2021 se consagrou como o ano da melhor Páscoa dos últimos dez anos para a Lacta. De acordo com a empresa, praticamente toda a produção para a data foi vendida e, mais uma vez, os canais digitais têm grande participação nisso. Em relação a 2020, houve crescimento, em 2021, de 91% nas vendas de e-commerce da marca.

Ainda segundo a Lacta, em 2019 o mercado digital foi responsável por 3% do total de vendas do período pascal. Em 2021, esse resultado quadruplicou e é isso que faz com que a empresa, hoje, espere uma boa temporada de Páscoa. “Este ano não será diferente. Temos um portfólio completo, com opções democráticas e para todos os momentos, desde o consumo individual, até para presentear e compartilhar”.

Com projeção de crescimento de 10% em 2022, a Lacta preferiu se antecipar e, após a flexibilização das medidas de restrição e prevenção à covid-19, contratou quinhentos funcionários para trabalho temporário, voltado à produção de Páscoa. A maioria dessas pessoas é de mulheres que, após os seis meses de contrato temporário, terão a oportunidade de serem efetivadas no emprego.

Um ovo que cabe no bolso

Além disso, a Lacta procurou ampliar o cardápio para se adequar a diferentes perfis de clientes e caber no bolso de todo mundo. Neste contexto, um dos principais produtos criados para a Páscoa 2022 é o ovinho recheado. Com tripla camada, o produto foi lançado em parceria com outras assinaturas, como a referência internacional em biscoitos recheados, Oreo, e um dos mais tradicionais chocolates do Brasil, Diamante Negro. A ideia é que todos os clientes possam ter uma experiência semelhante, mas que se encaixe em sua capacidade financeira. Por isso, os ovos têm 54 gramas e custam cerca de R$ 10,00.

No Brasil de 2022, os ovinhos da Lacta são uma ótima estratégia de marketing, já que alimentam a esperança de que é possível comprar ovos de páscoa, mesmo com o preço do quilo do chocolate superando os R$ 50,00 em alguns estabelecimentos. É uma forma de fazer (ou, pelo menos, tentar fazer) os brasileiros sonharem com ovos de Páscoa novamente.



Fonte: Espaço PB – Carol Cassoli (carol.cassoli@gmail.com) – Foto: Divulgação – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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