Motivos da “queda” de Sérgio Moro preocupam governador, que defende mudança na política de segurança do governo federal

Publicado em: 25/04/2020 às 12:21
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O governador da Paraíba, João Azevêdo (Cidadania), disse estar preocupado com os motivos que levaram o ex-juiz Sérgio Moro a deixar o Ministério da Justiça e Segurança Pública e, mesmo assim, avaliou que a situação já era esperada. Em entrevista ao Jornal A União, o gestor paraibano avaliou que o momento pode permitir uma mudança na política de segurança pública do Brasil.

“Essa era uma questão que já estava sendo posta há algum tempo e cujo desfecho não se poderia esperar outro. É muito preocupante os motivos que levaram Sérgio Moro a deixar o Ministério”, avaliou, referindo-se às acusações feitas pelo ex-ministro durante coletiva à imprensa.

Moro afirmou que sua demissão foi motivada pela decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, indicado para o cargo pelo ex-ministro. Além disso, acusou o presidente de exigir informações sobre investigações em andamento, inclusive com acesso a relatórios de inteligência. O que seriam interferências políticas.

Por conta da saída do ex-ministro, o governador paraibano destacou a necessidade de manutenção das ações de combate ao coronavírus (covid-19) no país e ponderou que as instituições precisam ficar atentas para manter o enfrentamento à pandemia, além de tratarem das questões envolvendo as relações institucionais. “Muito nos preocupa a saída do ministro Moro neste momento de uma pandemia em que nós temos que ter um foco muito grande com relação à saúde e a vida dos brasileiros. Eu tenho certeza que o país precisa caminhar”, destacou Azevêdo.

Com relação à segurança pública, o gestor destacou que as próximas ações vão depender do perfil do novo ministro. “Nós entendemos claramente que é preciso fazer mudanças na política de segurança do Brasil. É preciso ter um plano nacional de segurança. É preciso que os estados tenham apoio cada vez mais do governo federal”, frisou.

João Azevêdo cobrou que o governo federal cumpra com a obrigação prevista na Constituição: cuidar das fronteiras e do tráfico de drogas, para que os estados possam direcionar todas as forças policiais locais para suas áreas de responsabilidade. “Eu espero, realmente, que o próximo ministro possa manter um diálogo aberto e franco com os estados, e que seja capaz de receber sugestões, considerando que existem vários fóruns (governadores, secretários de segurança) que podem subsidiar qualquer cidadão que assuma o ministério”, finalizou o governdor.

Crise e impeachment

A atuação do ex-ministro Sérgio Moro sempre dividiu opiniões na classe política e na Paraíba não é diferente. Para o coordenador da bancada federal paraibana, Efraim Filho (DEM), Moro deu exemplo de coragem na entrevista que concedeu nessa sexta-feira (24). O democrata apontou que o ex-ministro renunciou ao cargo de juiz federal “para servir ao país” e sua saída significa “decepção no sonho de milhões de brasileiros”.

“A fala de Sérgio Moro foi de extrema contundência. Deixa o registro de caráter e integridade”, avaliou Efraim sobre as explicações do ex-juiz para deixar o cargo. O deputado federal ainda avaliou que a saída de Moro é uma notícia péssima para o governo e pior ainda para o Brasil. “Porque, se já tínhamos uma crise de saúde e uma crise econômica instalada, se consolida, de uma vez por todas, essa crise política”, lamentou.

Mas nem todos os parlamentares paraibanos concordam com a postura do ex-ministro. Para o deputado federal Frei Anastácio (PT), Sérgio Moro “deu uma tapa na própria cara”, ao reconhecer publicamente a liberdade que o Ministério Público e a Polícia Federal tinham em governos anteriores. “Como juiz, Moro foi uma vergonha. E como ministro, não foi diferente. Ele sabia que o governo de Bolsonaro seria assim, ditatorial”, disse.

Mesmo assim, o petista considera que sua demissão expõe mais motivos para o impeachment do presidente. Segundo o parlamentar, diante da pandemia da covid-19, o governo não teria mais condições de se sustentar. “Bolsonaro só tem duas saídas: renunciar ao cargo ou passar pelo impeachment”, afirmou. Anastácio ainda analisou que o pedido de demissão de Sérgio Moro mostra “uma total desorganização do governo e a falta de compromisso com o Brasil”.

Entidades recomendam investigação

Após a entrevista coletiva concedida por Sérgio Moro, o procurador federal paraibano Fábio George Cruz da Nóbrega, que preside a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), defendeu uma investigação acerca das denúncias apontadas pelo ex-ministro e avaliou que elas “sinalizam a ocorrência de crime de falsidade ideológica de responsabilidade do presidente da República”.

“Muito graves as declarações apresentadas pelo agora ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. Na assinatura de ato inexistente de exoneração a pedido do diretor-geral da PF, bem como de crime de responsabilidade, na tentativa de interferência na regularidade de investigações. Ambas as ocorrências precisam ser devidamente apuradas”, afirmou Nóbrega, em nota.

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, com quem Bolsonaro tem histórico de embate público, informou que a entidade irá analisar os indícios de crimes, apontados por Moro. “Mas preciso registrar meu lamento e minha indignação com as crises que o presidente nos impõe, por motivos extremamente suspeitos, em meio a uma crise pandêmica que, de tão grave, deveria ao menos ser a única”, disse.

O coordenador do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Paraíba (MPPB), Octávio Paulo Neto, foi enfático ao avaliar que a mudança de comando no Ministério da Justiça não afeta os trabalhos. “O combate à corrupção não depende de um homem, mas sim de um sentimento que deve permear aqueles que ostentam princípios. Deste modo, com Moro ou não, quem tem esse sentimento deve dar espaço a resiliência e tornar a luta mais intensa”.



Fonte: Espaço PB com Jornal A União (Thaís Cirino) – Redação: contato@espacopb.com.br

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