Além de muitos leitores que alguns bons jornalistas sempre conseguem ter, o que ele tinha mesmo – na imprensa, na política e na própria ditadura militar, que à época mandava e desmandava no país –, era uma verdadeira legião de fãs e viciados em sua coluna que, entre os anos de 1960 e 1990, foi o espaço mais visitado do prestigiado Jornal do Brasil.
Carlos Castello Branco, o Castellinho, cujo centenário de nascimento se comemora este mês, não foi apenas mais um entre os grandes jornalistas brasileiros. Nascido em Teresina, no Piauí, ele passou por Minas Gerais, onde se formou em Direito e ganhou dotes de escritor na turma dos amigos Fernando Sabino e Otto Lara Resende, e, para azar da ditadura militar, terminou na conexão Rio-Brasília, se especializando em dizer tudo o que, num jornal, todo mundo e a própria censura achavam que não se podia dizer.
Com uma capacidade e um jeito sutil de soltar “bombas” que normalmente superavam as manchetes dos jornais, e com uma credibilidade que afastava qualquer queixa de eventuais atingidos pela sua pena, Castellinho, como ficou conhecido no Brasil e mundo afora, era de um desapego ideológico que lhe permitia flutuar por todas as áreas, dos meios oposicionistas e comunistas mais radicais à medula carrancuda da ditadura militar. Também trabalhou na revista Veja, no governo de Jânio Quadros por pouco tempo e, antes do jornalismo, escreveu vários livros de contos e crônicas, entre eles, ‘Arco de Triunfo’.
Antes de tudo, quase nada a ver, nenhum parentesco próximo com o outro Castelo que se escreve com apenas um “L” e que foi o primeiro presidente da República no regime militar pós 1964. “Estamos nos aproximando agora”, disse, certa vez, o próprio Castellinho, se referindo “ao primo de terceiro ou quarto grau”, o general cearense Humberto de Alencar Castelo Branco.
Mas neste momento de homenagens, muito mais importante dizer é que, aqui na Paraíba, Castellinho também não tinha somente leitores. Teve foi três discípulos mesmo e dois deles já morreram. O primeiro foi Soares Madruga que, antes dos mandatos de deputado, assinou uma coluna política no Correio da Paraíba, e o segundo foi o polêmico Biu Ramos que, fazendo o mesmo, marcou época no mesmo jornal.
Logo depois deles e ainda hoje, aparece o cajazeirense Nonato Guedes que, depois de passar pelos principais e tradicionais veículos de comunicação do estado, ainda hoje estilhaça sinais do estilo Castelinho n’Os Guedes, blog que mantém com os irmãos e também jornalistas Lenilson e Linaldo Guedes. Castellinho nasceu em 25 de junho de 1920 e morreu a 1º de junho de 1993, aos 72 anos.
Mestre das entrelinhas
“Castellinho era de um estilo tão marcante e pessoal que deixou discípulos, claro, mas não deixou herdeiro”, afirma Nonato Guedes, procurado para traçar momentos e memórias que marcaram a importância de Carlos Castello Branco no jornalismo brasileiro.
Mas Nonato justifica que não diz isso por pura impressão particular. Diz porque, juntamente com o jornalista Biu Ramos, certo dia teve a oportunidade e o privilégio de conversar com Castellinho, em João Pessoa. Foi na casa do ex-conselheiro do Tribunal de Contas Luiz Nunes, e Castello tinha vindo à Paraíba em companhia da mulher, Élvia, que era ministra do TCU e que aqui participaria de um encontro de TCEs.
Nonato conta que, à época, o jornalista Ricardo Noblat já começava a ocupar a coluna política do JB e que, provocado por ele e por Biu Ramos, Castellinho confessou que admirava o novo colunista, mas que não chegaria a tê-lo como herdeiro, por que ele (Noblat) se diferenciava um pouco no aspecto de “se engajar”.
“Noblat, por aqueles anos, já tinha ido inclusive participar de um movimento político de esquerda em Angola, e isso realmente lhe diferenciava de Castello que se considerava um liberal, mas que jamais se engajou a movimento político nenhum”, afirma Nonato Guedes, ao frisar que, juntamente com as fontes que eram muitas e muito privilegiadas, deve ter sido esse comportamento que certamente gerou credibilidade, respeito e livre trânsito que Castello conquistou e mantinha junto a todos os setores da política, indo da extrema esquerda à linha dura do regime militar.
Para Nonato Guedes, como se tudo isso não bastasse, a habilidade de escrever nas entrelinhas, e de se expressar de uma forma que a cesura não achava como vetar, fazia de Castellinho um jornalista realmente diferenciado. Um jornalista que, no dia a dia, desvendava com maestria o jogo do poder no período da ditadura. “É como sempre digo: ele ensinou o Brasil a ler nas entrelinhas. E, juntamente com Ulisses Guimarães, foi quem mais conseguiu dar voz à oposição em pleno regime militar”.
Voto na Fenaj
Além de Nonato Guedes, quem também tem uma forma precisa de bem definir Carlos Castello Branco é o jornalista Agnaldo Almeida. “Uma das coisas que mais nos impressionava é que, num momento em que tudo era proibido, ele conseguia dizer tudo o que queria”, afirma, sorrindo, Agnaldo Almeida.
Ele lembra que, por aqui pela Paraíba, algo parecido só se conseguiu ver mesmo em Soares Madruga e, depois, em Nonato Guedes e que, por duas vezes, também teve a oportunidade e o privilégio de se encontrar com Carlos Castello Branco.
A primeira, conta Agnaldo, foi em Curitiba, no Paraná, num encontro de jornalistas de todo país que articulavam um movimento no sentido de tomar o comando da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Representando o Sindicato dos Jornalistas da Paraíba, que era presidido por Cecílio Batista (apoiador do grupo que mandava na Fenaj), Agnaldo disse que, em Curitiba, acabou diante de Castellinho lhe pedindo voto e que, até mesmo pelo respeito e pela credibilidade do “cabo eleitoral”, votou com o grupo da oposição.
“Tímido, mas simpático e, às vezes, até bem humorado, Castellinho conquistava qualquer pessoa”, resume Agnaldo, ao relatar que isso se deu entre 1975 e 1978 e que o segundo encontro já foi em João Pessoa mesmo, na casa do jornalista Josélio Gondim, nos anos de 1990 e nos tempos da revista A Carta. “Dessa vez, lembra, até mesmo por conta de Josélio, já foi uma ocasião de bate papo mais descontraído, e quando ele nos falou sobre sua coluna e sobre as idas e vindas do jornalismo nacional”, lembra.
Talento literário
Parece que pelo próprio fato de não ser do colunismo político, mas mais da crônica e da literatura propriamente dita, o jornalista Gonzaga Rodrigues tem outros caminhos para lembrar e homenagear Carlos Castello Branco. “Ele teve a maestria de fazer a crítica sem levar a ditadura a puxar o revólver”, afirma Gonzaga, ao salientar que essa maestria e um grande poder de concisão é que certamente fizeram de Carlos Castello Branco um jornalista realmente exemplar.
“Acho que isso só pode ter sido fruto da soma de um talento realmente privilegiado com o começo que teve pelo conto, pela crônica e pela literatura de um modo geral”, estima Gonzaga Rodrigues, ao fazer questão de lembrar o ‘Arco do Triunfo’ como um dos melhores livros que Castellinho escreveu, e que é anterior à fase de jornalista, quando convivia com Otto Lara Resende e Fernando Sabino nas Minas Gerais.
Gonzaga lembra que Castellinho ainda não estava na imprensa no período da grande revolução do jornalismo brasileiro com Pompeu de Sousa nos anos de 1950, mas que, a partir da década seguinte, pelos Diário Carioca e JB, foi ele mesmo a grande inovação de um colunismo político diferenciado, muito revelador de bastidores e que driblava com maestria a censura do regime militar.
Para Gonzaga Rodrigues, talvez tenha sido justamente essa soma de talentos para o jornalismo e para a literatura que tenha levado Carlos Castello Branco a ser autor do melhor depoimento que se pode ter do golpe de 64 e do regime militar. “Era um mestre. Um modelo britânico de coluna política”, conclui Gonzaga.
Nota retirada da coluna
Colunista de A União, o jornalista Martinho Moreira Franco chegou substituir o colunista político João Manoel de Carvalho no antigo O Norte, mas admite que nunca foi do ramo. E que, na época, fazia copidesque e atuava como correspondente de Veja e, em seguida, de O Globo.
Mas como todo leitor diário da ‘Coluna do Castello’, no JB, Martinho confessa que também foi seu fã e que, inclusive, tinha uma historinha sobre a humildade de Castellinho que, ao invés de contar por telefone, preferia escrever. E escreveu: “Eu trabalhava na redação da Secretaria da Comunicação Social, na década de 1970, e pude testemunhar que Carlos Castello Branco não era um sujeito inabordável como aparentava em seus textos de feição sempre sisuda. Era até capaz de gestos de humildade”.
“Tanto que, certa vez, atendendo a um apelo do secretário Carlos Roberto de Oliveira, com quem mantinha bom relacionamento pessoal, retirou da coluna do JB, já publicada em alguns jornais do país com os quais era nacionalmente distribuída, uma nota envolvendo o governador Tarcísio Burity e o chamado Grupo da Várzea”.
“A nota se baseava em informação do próprio Carlos Roberto, mas o secretário, admitindo que se precipitara, falou com Castello pelo telefone e dele obteve a retirada na edição do Jornal do Brasil prestes a ser fechada. Pena que Carlinho não esteja mais entre nós para oferecer detalhes sobre o caso. Mas eu estava ao lado dele quando, por volta das 21h de um dia de semana, pude constatar que a aparente sisudez do maior colunista político do país abria espaço para atitudes como aquela”.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (Ademilson José) – Foto: Os Guedes – Redação: contato@espacopb.com.br
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