Estudo sobre cloroquina no Brasil é cancelado após morte de pacientes

Publicado em: 15/04/2020 às 05:30
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Cientistas brasileiros interromperam precocemente parte de um estudo sobre o medicamento antimalárico cloroquina, apregoado como possível candidato a tratamento contra infecções pelo coronavírus Sars-Cov-2 tanto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, quanto pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido).

A pesquisa foi cancelada depois que 11 pacientes com o coronavírus que receberam uma dose elevada de cloroquina morreram até o sexto dia de tratamento, segundo o jornal The New York Times.

Parte dos 81 pacientes com Covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus, que estava sendo testada havia apresentado batimentos cardíacos irregulares, o que aumentou o risco de desenvolverem uma arritmia cardíaca fatal. Após a morte de 11 deles, a parte do estudo envolvendo altas dosagens foi cancelada antecipadamente.

Financiado, entre outros, pelo governo do estado do Amazonas, o estudo envolveu pacientes internados em Manaus e foi realizado pela Equipe CloroCovid-19, formada por cerca de 26 cientistas de diversos órgãos. A pesquisa foi postada no último sábado (11) na medRxiv, uma plataforma de artigos médicos, para depois ser encaminhada para revisão por outros pesquisadores.

Cerca de metade das pessoas a quem a cloroquina estava sendo administrada recebeu uma dose de 450 mg, duas vezes ao dia, por cinco dias. O restante dos pacientes deveria receber uma dose mais elevada do medicamento, 600 mg, por dez dias. Em três dias, os pesquisadores começaram a notar arritmia cardíaca em um quarto dos pacientes que receberam a dose mais alta.

Em e-mail enviado ao The New York Times no último domingo (12), um dos autores do estudo, Marcus Lacerda, disse que a pesquisa brasileira mostrou que uma dosagem alta que estava sendo usada na China “é muito tóxica e mata mais pacientes”. Em fevereiro, a Comissão de Saúde da província de Guangdong, na China, havia recomendado inicialmente uma dosagem de 500 mg, duas vezes ao dia, por dez dias.

Os autores disseram ainda que mais estudos sobre o uso da cloroquina em estágios iniciais da Covid-19 são "urgentemente necessários", e recomendaram que uma alta dose não seja administrada em pacientes graves da doença.

Segundo o The New York Times, infectologistas e especialistas em segurança de medicamentos dizem que a pesquisa brasileira apresenta mais provas de que tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina podem causar danos severos a alguns pacientes, especialmente aumentando o risco de uma arritmia cardíaca fatal.

Os pacientes envolvidos no estudo também receberam o antibiótico azitromicina, que apresenta o mesmo risco de arritmia. Hospitais nos Estados Unidos estão usando azitromicina para tratar pacientes de coronavírus – em muitos casos, combinando o medicamento com a hidroxicloroquina.

A cloroquina e uma droga similar e de uso mais difundido, a hidroxicloroquina, vêm sendo propagandeadas por Trump e também por Bolsonaro no tratamento da Covid-19 – apesar da eficácia desses medicamentos não ser comprovada. Nos Estados Unidos, especialistas de ponta vêm expressando preocupação com o uso do fármaco.

No mês passado, a agência de Medicamentos e Alimentação dos EUA (FDA, na sigla em inglês), aprovou emergencialmente o uso de cloroquina e hidroxicloroquina do estoque nacional por hospitais, no caso de estudos clínicos não serem possíveis. Empresas que fabricam o medicamento estão aumentando a produção.

Trump chegou a elogiar, em 21 de março, a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina pelo Twitter. Segundo o presidente norte-americano, "tomados juntos, [esses medicamentos] têm uma chance real de virar o jogo na história da medicina. A FDA [agência americana de controle de medicamentos e segurança alimentar] moveu montanhas – obrigado! Espero que os dois (...) sejam usados imediatamente".



Fonte: Espaço PB com o site DW – Redação: contato@espacopb.com.br

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