Após décadas sem abrir suas portas no período noturno, um dos bares mais tradicionais de Campina Grande será o palco de lançamento de mais uma obra literária da escritora Ida Steinmüller. Editado pelo Centro Editorial do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG), o livro ‘Rememorando’ será lançado em evento nesta quarta-feira (14), a partir das 18h, no Chopp do Alemão, localizado à Rua Barão do Abiaí, 158, no Centro de Campina Grande.
Com revisão e editoração gráfica de Vanderley de Brito, presidente do IHCG, ‘Rememorando’ é prefaciado pelo jornalista Jorge Rezende, criador e ex-editor da seção Memorial do jornal A União e que atualmente coordena o Núcleo de Comunicação da Fundação Casa de José Américo (FCJA), em João Pessoa. A coletânea de textos que integram o ‘Rememorando’ foi originalmente publicada nas páginas do Memorial de A União.
A seguir, a reprodução do prefácio assinado por Jorge Rezende:
Reminiscências quase poéticas
A página Memorial estreou nas edições diárias do jornal A União em novembro de 2018. Tendo nas notas de falecimento (um obituário reduzido) seu carro-chefe, no início a seção focava sempre, obviamente, nas notícias e nos temas ligados à vida e à morte. Artigos eram esporádicos. Com o passar do tempo, a página ganhou dois colunistas fixos: aos sábados, o historiador, arqueólogo e pesquisador Vanderley de Brito, presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG); e, às sextas-feiras, o sociólogo e antropólogo Carlos Azevêdo, do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP) e do Grupo de Pesquisa em História do Brasil Holandês.
As colunas passaram a ser imprescindíveis nas páginas do Memorial. O número de colaboradores qualificados foi crescendo: Roniere Leite Soares, Rau Ferreira, Iêda Lima, Xico Nóbrega, Helga Teresa Steinmüller e Jany Santos. No período em que fui o editor do Memorial, de 2 de novembro de 2018 a 29 de fevereiro de 2024, tive o prazer em ter a colaboração de nove diferentes colunistas. E Ida Steinmüller foi a terceira dessa lista a chegar às páginas do Memorial – sendo a primeira dentre as mulheres.
Atendendo a uma sugestão de Vanderley de Brito – após ele ter estimulado e convencido Ida a começar a escrever –, ela passou a ocupar o espaço semanalmente nas edições das quintas-feiras. E que estímulo, convencimento e sugestão bem aplicados! Por cerca de um ano (de 27 de janeiro de 2022 a 2 de fevereiro de 2023), os leitores do jornal A União passaram a ter o prazer semanal em ter os escritos de Ida Steinmüller. Com os títulos sempre trazendo o verbo “rememorar”, Ida deixou registrado nas páginas da mais do que centenária A União exatos cinquenta artigos: quarenta e nove deles focando personalidades já falecidas (doze mulheres e trinta e sete homens).
Agora, merecidamente, os artigos reunidos ganham corpo e alma de livro. O ‘Rememorando’ de Ida poderia ser classificado como uma obra de memórias, permeada por uma autobiografia traçada em meio a encontros – e até desencontros. Poderia também ser apontado como um livro de perfis ou uma publicação em homenagem a homens e mulheres que contribuíram para a história de Campina Grande, da Paraíba e do Brasil.
Tenho convicção de que ‘Rememorando’ é tudo isso... E mais um tanto. É um livro para consultas, pesquisas e de referência para quem quiser se informar acerca de um período importante da história paraibana e brasileira, mais especificamente do município de Campina Grande e adjacências. Na obra, de tudo se lê um bocado: cultura, educação, política, economia, medicina, culinária, sociedade... Em cenários que vão da bucólica Fazenda Muçambê, em Massaranduba; passando por ambientes de trabalho e de convivência social; chegando a “locações” além das divisas paraibanas.
As reminiscências de Ida Steinmüller são verdadeiras aulas de história, comportamento, economia, música, administração, agropecuária, geografia, religião... Tudo quase em forma didática e metódica, beirando a linguagem rebuscada, mas de pura poesia – nuances fincadas no subjetivo e no conotativo –, sem perder o objetivo e o denotativo de um bom texto em prosa. Em suma: ler ‘Rememorando’ é extremamente agradável e informativo. O quente de uma arte textual traçado no aparente frio de um texto técnico e descritivo – será um exemplo concreto do clássico “unir o útil ao agradável”?
O certo é que os artigos de Ida (crônicas de um passado não muito distante) instigam o leitor a viajar no tempo. Vivencia-se aqueles momentos que marcaram a vida da autora. Na maioria dos relatos envolvendo as personagens rememoradas na obra, a emoção vem naturalmente. Numa simbiose, passamos a sentir as mesmas sensações que afetaram Ida nos seus “fatos históricos”: alegrias, tristezas, medos, certezas, curiosidades, espantos, surpresas, revelações... E há até episódios que aguçam nossos paladares, visões e percepções de sons.
As experiências reflexivas de Ida nos interessam e justificam os artigos que foram registrados no Memorial de A União e, agora, são motivos para este livro. A abordagem de pessoas que já morreram que justificava a presença numa página de obituário, agora se concretiza na necessidade de contar a história de Campina Grande e da Paraíba por outro viés, de uma forma mais humanista.
No livro, o leitor vai se deliciar com narrações como a do chazinho do general Reynaldo de Almeida; do quase conto de fadas de Carolina Zilli; do impecável datilógrafo Juarez Farias; dos “mandamentos” da Madre Dolores que, mesmo com uma mão que “exalava o sutil aroma de lavanda das freiras misturado ao de parafina”, gostava de torcer orelhas...
Ida registra em ‘Rememorando’, por exemplo, sua conversa de “igual para igual” com Maurílio de Almeida; dos encontros com o interessado professor e sociólogo José Arthur Rios por Campina Grande; da contribuição fundamental de Leônia Leão na criação da Associação das Secretárias da Paraíba; do Aero Willys prateado do “carnavalesco” Evaldo Cruz, que gostava de cantarolar a marcha ‘Vamos Marocas’; e dos “calafrios” e momentos difíceis de que “alguma coisa não estava certa”, quando da partida do seu companheiro, Humberto de Almeida.
O gosto musical refinado de Tarcísio Burity também está em um dos episódios contados pela autora, assim como os colóquios animados com café e pão-doce que ela tinha com Lourdes Ramalho. Mas há também a história do “reencontro” com José Pedrosa, um leitor de sua coluna em A União que, quando Ida era criança, era o dono de uma livraria, gráfica e papelaria em Campina Grande.
Entre outros tantos episódios contados no livro, Ida aponta o privilégio de ter Dominguinhos tocando uma valsa vienense só pra ela; seu encontro inusitado com a dupla Toquinho e Vinícius de Morais; o chope servido a Altemar Dutra; além dos encontros e reencontros com Manelito Dantas; da convincente Sevy Nunes que a fez comprar uma saia de lã escocesa autêntica, que terminou numa campanha beneficente; e o inusitado “rapto das groselhas” por Wilson Maux , numa única vez em que a groselheira de Ida havia frutificado em profusão.
‘Rememorando’ agora é livro e preenche o vazio deixado por Ida Steinmüller nas páginas do Memorial. Os leitores agradecem.
Fonte: Espaço PB – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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