Impulsionado por algoritmos, o fenômeno do autodiagnóstico online transforma sintomas psicológicos isolados em rótulos e molda a identidade das novas gerações. Entenda como
Vídeos sobre saúde mental com frases como “5 sinais de que você tem TDAH” ou “Levante o dedo se você tem esses sintomas” costumam fazer sucesso no TikTok e no Instagram. A proposta é convidar quem assiste a encontrar “pontos de atenção” na própria personalidade ou rotina — o que pode ser um prato cheio para fabricar ideias distorcidas sobre si mesmo.
Criados para entreter a audiência, vídeos virais muitas vezes servem como fontes de informação sobre depressão, bipolaridade, TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) mais confiáveis do que deveriam ser. O fenômeno tem gerado preocupações em especialistas, já que a enxurrada de conteúdos rasos e não qualificados está provocando uma onda de autodiagnósticos, especialmente entre jovens.
Além de “ensinar” as gerações Z e Alpha sobre saúde mental, as redes sociais influenciam na forma como eles desenvolvem a própria personalidade. E podem maquiar a necessidade de buscar tratamento, quando necessário, com explicações simples demais.
O efeito imediato é transformar quadros clínicos em “caixinhas sociais”. Por efeito dessa influência, frases como “Sou desta maneira porque tenho depressão” ou “Não consegui fazer tal coisa por conta do meu TDAH” acabam incorporadas ao vocabulário de muita gente — mesmo sem qualquer laudo médico. Mas por que isso acontece?
O perigo dos vídeos curtos
Estudos comprovam que a preocupação despertada pelo autodiagnóstico online é real. Um levantamento publicado na revista The Canadian Journal of Psychiatry, em 2022, analisou os 100 vídeos mais populares sobre TDAH no TikTok — que somavam mais de 283 milhões de visualizações. O resultado revelou um padrão de comportamento claro: mais da metade dos conteúdos (52%) trazia informações enganosas, e a maioria deles foi publicada por criadores sem qualquer formação na área. O estudo apontou que o público é muito mais atraído por vídeos de experiências pessoais e explicações simplistas de influenciadores do que por conteúdos de profissionais de saúde.
A pesquisa acendeu um alerta sobre a “romantização” dos sintomas e como a própria rotina da pandemia, como isolamento e longas horas diante das telas, fez com que muitas pessoas passassem a adotar o rótulo de um transtorno para justificar o cansaço e a dificuldade em manter a atenção em tarefas comuns.
Por trás do algoritmo e das visualizações, existe também um comportamento social. Para a psicóloga Ana Lara Vilar, especialista em saúde emocional e qualidade de vida, a resposta está na necessidade histórica que humanos têm de fazer parte de um grupo.
“A gente precisa partir do princípio de que o ser humano sempre tentou se adaptar. Quem não pertence, quem não é similar, não é igual, não tem identificação, é excluído”, explica Vilar, em entrevista à GALILEU. Segundo ela, em uma época de crise global de saúde mental, o diagnóstico virou a nova moeda de troca para o pertencimento. “O problema é que caímos no ‘feirão do CID [Classificação Internacional de Doenças] próprio’. É como se fosse assim: R$ 2 ou um CID misterioso, pegue aqui o seu. Muitas das vezes, a gente tem sim um processo de adoecimento, mas não necessariamente é aquele CID que nos classifica.”
Para a psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento e superdotação, essa pressa em se rotular esbarra em algo fundamental: a individualidade. Signorelli explica que características como timidez, distração ou ansiedade, por exemplo, fazem parte do temperamento e da história de cada um, e não necessariamente um transtorno. O problema é quando essa busca natural por autoconhecimento encontra a lógica dos algoritmos das redes sociais.
“Com as mídias sociais, a gente joga uma palavra como ‘tristeza’, ‘desatenção’ ou ‘dificuldade social’ e o algoritmo acaba direcionando para determinados transtornos que têm essas questões como características, como sintomas. Muitas vezes a busca da pessoa, em um primeiro momento, é autoconhecimento, é a compreensão daquele padrão de comportamento e não necessariamente a busca de um diagnóstico. Mas a repetição de vídeos baseados em recortes faz com que ela acabe se identificando com aquela fala”, explica a psiquiatra, em entrevista à GALILEU.
Um sintoma isolado pode significar alguma coisa?
Essa onda de identificação com os vídeos de saúde mental não é uma exclusividade brasileira. Uma reportagem publicada pela CNN em 2023 detalhou o caso de uma adolescente americana de 14 anos que, após consumir com frequência conteúdos de diagnósticos de saúde mental nas redes, acabou se convencendo de que acumulava diversas condições. A lista incluía TDAH, autismo, depressão, misofobia (medo de germes) e agorafobia (medo de lugares públicos). A cada semana, segundo relata a mãe da jovem, a menina encontrava um traço de si mesma em um criador de conteúdo diferente e adotava um novo rótulo médico. Ao passar por uma avaliação clínica formal com especialistas, descobriu-se que a jovem não tinha nenhuma daquelas doenças sugeridas pelo algoritmo, mas sim um quadro de ansiedade severa.
Essa confusão acontece porque um único sintoma isolado pode fazer parte de vários quadros diferentes na psiquiatria. Signorelli esclarece que o erro dos recortes rápidos das redes sociais é ignorar esse contexto clínico. “[Por exemplo,] a pessoa fala: ‘Eu tenho dificuldade de interação social’. Só que a dificuldade de interação social dentro da psiquiatria pode ser explicada por uma série de transtornos: transtorno de personalidade esquizóide, transtorno de ansiedade social, ou mesmo uma pessoa deprimida pode ter menos motivação para interação social”, afirma a especialista.
A psiquiatra também ressalta que a área de saúde mental e distúrbios psiquiátricos exige um olhar muito mais profundo do que o conteúdo que normalmente circula na internet: “Na psiquiatria a gente não tem um marcador biológico, tem-se a subjetividade de cada pessoa. […] É por isso que a gente não pode pegar pequenos recortes e fechar um diagnóstico.”
Diagnóstico como muleta
É justamente nessa tentativa de encaixar sintomas soltos em diagnósticos que o comportamento digital se transforma em um fenômeno social. Para Vilar, essa urgência em abraçar um rótulo ou diagnóstico também revela um comportamento geracional: a necessidade de criar um distanciamento afetivo dos próprios problemas. Em vez de enfrentar o desconforto de uma angústia ou de uma briga, por exemplo, se torna mais confortável colocar a culpa em um transtorno.
“A atual geração [Millennial], e principalmente as que vieram depois [Z e Alpha], são gerações que gostam de se distanciar emocionalmente de alguns padrões que sempre foram normais, como por exemplo, ter que lidar com a traição, com o término, com a demissão. Quando você se distancia afetivamente daquilo, fica mais fácil lidar”, diz a psicóloga.
Segundo ela, o rótulo médico, muitas vezes, passa a ser usado como uma espécie de muleta social (principalmente por jovens), servindo para justificar falhas de comportamento ou traços incômodos de personalidade e eximindo o indivíduo da responsabilidade. “Em vez de reconhecer: ‘Nossa, eu realmente pisei na bola com você, esqueci seu aniversário, desculpa, fui um péssimo amigo’, [a justificativa imediata é:] ‘Ah, amiga, você sabe que eu tenho TDAH, desculpa’.”
Essa “proteção” diagnóstica também mudou a forma como as pessoas apontam o dedo para as falhas alheias. Com a popularização de termos da psicologia clínica nas trends das redes sociais, até mesmo defeitos cotidianos e términos dolorosos ganharam uma nova aparência de transtornos graves.
“As pessoas tiram o diagnóstico não só para si, mas para os outros, todo mundo agora é narcisista. A gente precisa entender que gente ruim vai existir em todos os lugares”, analisa Vilar. “A gente acaba aliviando muito o peso do mau-caratismo e acaba também desvalorizando quem de fato sofre dessas condições. ‘Ah, meu ex me traía e mentia, era um mitomaníaco’. Não, ele era só mau-caráter, não te respeitava e não gostava de você. [Mas] justificar um CID para o outro, ou para si, exime do peso.”
Menos palavras, mais siglas
Essa facilidade em reduzir sentimentos complexos a siglas médicas aponta para um efeito colateral da era dos diagnósticos digitais: a falta de vocabulário para expressar o que se sente. Para Vilar, a pressa em adotar um rótulo clínico esconde problemas na capacidade humana de comunicação.
Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, em 2024, ajuda a entender esse impacto: ao analisar 300 milhões de textos em inglês em plataformas digitais, os pesquisadores comprovaram que o idioma escrito na internet está passando por um processo global de simplificação. Segundo eles, a dinâmica das redes e seus algoritmos, que priorizam conteúdos rápidos e de fácil consumo, provocam uma diminuição drástica no vocabulário. A pesquisa alerta que essa perda linguística reduz diretamente a complexidade das ideias e dos argumentos usados em sociedade.
É nesse cenário que a população atual se vê empobrecida de palavras, um reflexo que Vilar atribui também ao baixo consumo literário, espaço onde se constrói o repertório para a comunicação cotidiana. Para ela, a substituição de sentimentos reais por termos técnicos funciona como um sintoma desse empobrecimento cognitivo geral.
Sem palavras para dar nome aos sentimentos cotidianos, o público jovem consome respostas prontas dos algoritmos e corre o risco de desenvolver uma vivência superficial e distante afetivamente. Vilar alerta que o reflexo disso a longo prazo é o risco de sucumbirmos como sociedade, já que a vulgarização de diagnósticos sérios deslegitima quem realmente sofre com as doenças e, ao mesmo tempo, “tira a responsabilidade de quem tem que ser responsabilizado pelas coisas que realmente faz”.
Embora a busca por justificativas rápidas tente simplificar as complexidades da vida, as especialistas apontam que esse fenômeno digital não surge do nada. Ele começa com um incômodo real e legítimo.
Para Signorelli, se um jovem ou adulto busca informações sobre saúde mental na internet, é porque algo em sua vida está gerando algum nível de sofrimento real. O perigo, segundo ela, não está em pesquisar, mas em aceitar respostas sem critério.
“Minha principal mensagem hoje é questionar quem é essa pessoa que está falando e qual a qualidade dessa informação”, afirma. Para ela, esse filtro é essencial “até para pensar quem você vai procurar para de fato trazer uma resposta que seja fiel às dificuldades e ao sofrimento que você apresenta.”
Vilar argumenta que, quando existe uma dúvida clínica real, o caminho correto é buscar avaliações profissionais e capacitadas. Fora isso, o processo exige a coragem de assumir quem se é, sem usar transtornos como blindagem para os erros da vida.
Durante a entrevista, cercada por estantes repletas de livros, Vilar usa a literatura para ilustrar esse desafio. Ela cita “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, lembrando que o poeta castiga de forma cruel os invejosos no Purgatório: eles têm os olhos costurados com fios de ferro, sendo obrigados a passar a eternidade olhando apenas para si mesmos.
Para a psicóloga, a analogia mostra que olhar para dentro é tão difícil que foi usado como uma punição literária. Mas esse enfrentamento é necessário para não virar refém das telas. De acordo com Vilar, quem não tem propriedade da sua própria narrativa acaba vulnerável, já que qualquer tendência, grupo ou diagnóstico de internet pode passar a definir sua personalidade. O caminho, portanto, exige a coragem de olhar para si antes de aceitar de imediato a resposta selecionada e entregue pelos algoritmos das redes sociais.
Fonte: Espaço PB – Galileu - Por Sarah Macedo - Foto: Ron Lach/Pexels: contato@espacopb.com.br
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