Artigo: Túmulo perdido – Jorge Rezende

Publicado em: 05/05/2026 às 22:10
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Sob um sol escaldante, já caminhávamos há quase uma hora pelas alamedas labirínticas do Cemitério Municipal São João Batista. Próximo ao meio-dia, o piso de pedras São Tomé, um quartzito natural e resistente que tem fama de ser atérmico (não retém calor), tornava-se abrasante, pois, de certa forma, ele refletia os raios solares que pareciam penetrar feito flexas fumegantes na pele branquela da gente. A sede era grande. Um tanto desidratados, a primeira ex-esposa, Joana D’arc, e os dois filhos – Jorginho e Geovani, então, respectivamente, com seis e três anos de idade –, já não aguentavam mais aquela situação que os havia colocado. Já amotinados, ensaiavam me abandonar na busca pelo túmulo “perdido” de minha mãe.

Seis anos antes, já morando em João Pessoa, dona Elza havia morrido e eu não estava presente. Distante a mais de dois mil quilômetros de Três Corações, no Sul de Minas Gerais, não estivera presente ao seu velório e enterro. Sabia que ela tinha sido sepultada no mesmo túmulo onde jaziam minha vó Dica e meu tio Wilson. Não me recordava do local exato do sepulcro. Me lembrava apenas da região do cemitério onde ele se localizaria. Não havia um ponto de referência, já que nem árvores haviam naquele campo santo de minha cidade. Aliás, a inexistência de sombras, deixava o tempo da nossa andança de procura muito mais ardente, fervente.

Cansado, também sedento, suando em bicas e irritado com as “justas e compreensivas” reclamações e lamentos da mulher e filhos, estava prestes a desistir daquela busca da última morada dos restos mortais da minha mãe. Todavia, a vontade de encontrar o jazigo da família era tão grande que, teimosamente, adiava abdicar da busca. Por instantes, passei até a ignorar os sofrimentos de Joana, Jorginho e Geovani. Estava me sentindo um carrasco e pedia perdão mentalmente por provocar aquele sofrimento a eles.

Sempre tive problemas de visão, desde criança. Naquela época, meu astigmatismo e miopia estavam bem avançados. De maneira irresponsável e inconsequente, sempre me recusava a usar óculos. Acreditava que incomodariam demais. E naquele dia no cemitério, com o intenso calor e a luminosidade excessiva, me convenci do quanto os óculos me faziam falta. Não conseguia visualizar nada com nitidez além dos dois ou três metros à frente. Tudo estava ruim – e piorando. Calor insuportável, “cegueira” construída por mim mesmo e a ignorância de onde se localizava o túmulo de minha mãe.

Numa última tentativa desesperada, parei por um instante, fechei os olhos e mentalmente iniciei uma prece, implorando “um milagre”, solicitando uma ajuda à minha mãe para que ela me mostrasse onde estaria a sua sepultura. Após alguns segundos, abri os olhos e uma força esquisita “girou” meu corpo de maneira bem natural para uma certa direção e enxerguei nitidamente uma lápide onde estavam afixadas três fotografias em porcelana e com os nomes em alumínio da minha avó, do meu tio e da minha mãe Elza. O detalhe é que esse túmulo estava a mais de cem metros de onde estávamos.

Então, dei a “ordem de comando” aos filhos e a Joana: “Me sigam, vamos em linha reta! O túmulo da minha mãe está ali...”. Os três, incrédulos e ainda reclamando, me seguiram. Chegamos ao local e, aliviados, ficaram felizes por eu ter encontrado o túmulo.

Fisicamente, não sei como enxerguei a sepultura àquela distância de onde estávamos. Sei que visualizei. Acredito que a visão foi por meio dos olhos espirituais de minha mãe Elza. Lembro-me disso com mais intensidade toda vez que chegamos ao Dia das Mães. E podem ter a certeza de que continuo – e continuarei – a enxergar dona Elza. Se não pelos olhos físicos, mas com a alma e o coração. Desejo um eterno feliz Dia das Mães a toda gente deste plano terrestre. Aproveitem enquanto às têm por perto, às suas vistas.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 5 de maio de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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