Aquela tarde do ano de 1971 parecia igual a outra qualquer, mas ficou na minha memória afetiva. A irmã mais velha, Maria José – a Meizé –, me retirou do quintal da nossa casa onde brincava com os meus soldadinhos e indinhos de plástico e ordenou zelosa para que eu fosse tomar banho. O que fiz mais do que de pressa e sem contestar, pois a promessa de Meizé era levar-me a um passeio no centro da cidade, sem dar mais detalhes. Banho tomado, cabelo penteado e embutido naquele pareio de roupa só usada para ir às missas ao domingo, partimos a pé.
Na minha alegria saltitante de um menino com cerca de 6 anos, chegamos ao centro e vislumbrei curioso a fachada do Cine São Miguel. Era minha primeira vez no cinema. Tudo era novidade: a fila pipocando de crianças, a aquisição dos ingressos, a compra de um punhado de Balas Chita e de pipoca salpicada com pedacicos de torresmo, as figuras do porteiro e do lanterninha, a enorme sala escura, as grandes cortinas, aquele monte de poltronas dobráveis (que na verdade no velho cinema eram de madeira envernizada, parecendo cadeiras escolares) e, por fim, a telona iluminada por uns raios de luz, feito magia. Na primeira matinê de minha vida, Meizé me levara para assistir ao clássico ‘Branca de Neve e os Sete Anões’, produção de Walt Disney, de 1937.
A paixão pelo cinema se intensificou na pré-adolescência, quando, com meu irmão Totonho e primos, não perdíamos uma exibição das séries italianas do gênero spaghetti western e comédia, estreladas por Terence Hill e Bud Spencer. Ainda contemplamos várias estreias e reexibições de películas com o nosso ídolo maior: Bruce Lee. Foram tantas... ‘O Dragão Chinês’, ‘A Fúria do Dragão’, ‘O Voo do Dragão’, ‘Operação Dragão’, ‘Jogo da Morte’, ‘Marlowe’, ‘O Besouro Verde’... Não era incomum, depois de assistirmos a essas fitas, sairmos mentecaptos pela rua em direção a nossas casas imitando aqueles “fantásticos” golpes de kung-fu.
Todavia, entre o encontro com a Branca de Neve e a miríade de cenas de faroeste pastelão e de dragões chineses, tive uma grande decepção ligada ao cinema e quase cheguei a desistir de prestigiar a sétima arte. E tudo isso veio à tona em minhas lembranças depois que, no último dia 25 de dezembro, o amigo, jornalista e multicultural Sílvio Osias publicou em sua coluna eletrônica do Jornal da Paraíba o texto ‘Tubarão faz 50 anos’, quando ele registra que no dia 25 de dezembro de 1975 o filme ‘Tubarão’, de Steven Spielberg, estreava nos cinemas brasileiros. Ele tinha 16 anos e dava seus primeiros passos no jornalismo paraibano e, após assistir ao filme no Cine Plaza, em João Pessoa, assinou uma capa do caderno de cultura do jornal A União, com o título ‘Antes de ir a Tambaú, veja Tubarão’. Meio século depois, Sílvio confessa achar ridículo o título que estampara a matéria de capa. “Na época, pensei que era uma ideia inteligente. Fazer o quê?”, se penitencia Sílvio Osias.
Acredito que era o início dos anos de 1976, eu com 9 anos de idade, quando mais uma vez minha irmã Meizé me pegou pela mão e me levou para ver o tão badalado ‘Tubarão’. Passei o dia ansioso e quando chegou a noite partimos. Ela me alertara que corria o risco de não me deixarem entrar, mesmo estando acompanhado, pois o limite de idade imposto pela censura (e põe censura nisso; estávamos no auge da ditadura militar no Brasil) para o filme ‘Tubarão’ era de 14 anos.
Dessa vez, o cinema era o novo (e moderníssimo para a época) Cine Rio Verde. Filas enormes e gente se acotovelando em frente àquele vistoso estabelecimento de projeções cinematográficas de Três Corações (MG). A fila andava e a ansiedade crescia. Na portaria, o responsável pela entrada até recebeu os nossos ingressos, mas, por detrás dele, surgiu um mal encarado e sarcástico juiz de menores que me barrou, decretando que minha entrada era ilegal e que eu não tinha idade para assistir ao filme. Meizé argumentou, insistiu, mas não comoveu o coração do agente do estúpido governo de então. Ela entrou – se não me engano, acompanhada de uma amiga. E eu tive que voltar para casa, revoltado e segurando o choro na rua, carregando na alma uma mistura de tristeza e um rancor tenebroso contra aquelas regras de um governo apedeuta. Somente fui assistir ‘Tubarão’ – com várias cenas cortadas – tempos depois, quando a TV Globo “rodou a fita” bem tarde da noite no seu programa ‘Primeira Exibição’.
O filme ‘Tubarão’ quase matou o meu amor pelo cinema. Quanto aos Cines São Miguel e Rio Verde... Morreram há anos. O prédio do São Miguel, de Zuzu Auad (proprietário) e Ignácio Resck (fundador do cinema), nem existe mais. Já o Rio Verde passou a abrigar um “templo” da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 13 de janeiro de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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