Artigo: Solidão do tempo – Jorge Rezende

Publicado em: 03/12/2025 às 23:50
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A poesia do fantástico pernambucano Alceu Valença na canção ‘Solidão’ sempre mexeu comigo. Causa inevitavelmente um impacto avassalador nos meus momentos de devaneios e divagações acerca da minha trajetória de vida; das coisas, fatos e amigos que vão ficando pra trás; e a sensação de que estamos fadados a viver uma solidão intensa enquanto a nossa idade avança no tempo.

A música de Alceu é tão reveladora e instigante que bastou ao poeta construir e enfatizar apenas uma estrofe que se repete o tempo todo, mas nos dando a impressão de que a canção é prolixa e que a cada entoada traz conceitos e informações novas. Mas não é. Tudo está na única estrofe insistente: “A solidão é fera, a solidão devora/ É amiga das horas, prima-irmã do tempo/ E faz nossos relógios caminharem lentos/ Causando um descompasso no meu coração.”.

Em abril deste ano, eu já havia publicado neste mesmo espaço um texto que tratava de forma similar ao tema pertinente à canção de Alceu Valença. Em ‘Solidão mata?’, publicado no dia 1º daquele mês, eu exalto o “cronista dos cronistas” Gonzaga Rodrigues, lembrando que, em suas entrevistas relacionadas aos seus 90 anos comemorados em 2023 (hoje Gonzaga está com 92), ele afirmava que teve uma infância solitária, mas externando um novo sentimento de então: a solidão ao chegar aos 90 anos. Uma solidão de ter vivenciado a perda dos amigos e familiares que passaram por sua jornada existencial. Ou seja: os amigos e conhecidos vão morrendo, a sua geração vai desaparecendo e a pessoa vai se vendo sozinha, convivendo com outras realidades de relacionamento social e familiar.

Esse tipo inevitável de solidão para todos voltou a me atacar – e olha que estou apenas com 59 anos, longe dos gloriosos 92 anos de Gonzaga. E volto a me perguntar: onde estão aquelas pessoas que um dia compunham o meu universo cotidiano? Por que eles se foram – alguns bem cedo – e eu continuo aqui? A poesia de Alceu e a filosofia de Gonzaga vieram à tona mais uma vez com a morte, ocorrida há dois dias, do querido cantor e compositor Gustavo Magno. Senti – e continuo a sentir – bastante a partida desse artista amigo... Na flor dos seus 54 anos.

Gustavo é mais um que vai ficando pelo caminho da memória, das lembranças. E começo a olhar preocupado ao derredor, com mais intensidade, e enxergar vários e imensos espaços vazios. Locais desabitados de gente com quem convivi, admirei e, na maioria das vezes, pude dividir lugares de trabalho, áreas de pensamentos, territórios de sonhos, regiões de resistências, pontos de convergências (e divergências), paragens de festas e entretenimentos...

O melhor cover de Raul Seixas, na minha indiscreta opinião, Gustavo Magno agora não está mais aqui. Mais um adeus indesejado. Vá, Gustavo, na sua caminhada em outra dimensão e quem sabe retomando a parceria épica com aqueles que muito representaram e dividiram momentos importantes de sua vida: Carlos Aranha e Belchior.

Quanto a mim, permaneço – não sei até quando – contando os amigos que já se foram: José Carlos dos Anjos, Klécio Bezerra, Agnaldo Almeida, Antônio Hilberto, Ricardo Anísio, José Cardoso Filho, Alexandre Nunes, Adelson Barbosa, Neno Rabello...



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 2 de dezembro de 2025) – Foto: Arquivo do jornal A União – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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