Em meados da primeira metade dos anos de 1970, cheguei a surpreender meus pais ao aparentar que não era tão imaturo assim. Não sabia o que significava quando ouvi deles – principalmente do meu pai – que eu era uma criança prodígio. Mais especificamente, ele achava que eu era um precoce comerciante e que, na vida adulta, iria exercer profissionalmente nessa área, me dando muito bem. Cresci, me entendi como gente e hoje, próximo aos 60 anos, não sei vender um palito de fósforo. Se fosse depender da vida de comerciante, acredito que já teria morrido de fome.
Aquela visão de que eu era um comerciante temporão se deve ao fato de que, com apenas oito anos de idade, já ganhava uns trocadinhos fazendo negócio. Numa época em que minha cidade registrava poucos vendedores ambulantes e prestadores de serviço de porta em porta – e muito menos os chamados camelôs –, recolhi uns caixotes de madeira, cadeiras mais surradas da cozinha de minha mãe, uma porta velha utilizada como mesa e montei em frente à nossa casa uma banca para venda de produtos variados. Acredito que, assim, fui o primeiro camelô do meu bairro e, quem sabe, da minha terra natal, a mineira Três Corações.
Vendia de tudo: parte dos meus brinquedos conservados que não mais queria, limpando-os, restaurando-os e embalando-os para que ficassem com aparência de novos; laranjas e mexericas recém-colhidas do pé e que existiam em abundância no nosso quintal; ovos excedentes da boa produção da criação de galinhas caipiras (aqui na Paraíba, denominadas de capoeira) mantida pelo meu pai; chuchu e abobrinha verde que nasciam feito mato ao redor da casa; e até peças de roupas seminovas sem mais uso da família. Tinha de tudo na minha banca. Uma miscelânia. Aparente bagunça, mas não confusa. Uma mistura organizada e atraente aos olhos dos possíveis clientes – e vendia bastante, quase tudo em poucas horas.
Não éramos pobres. Só não tínhamos dinheiro excedente. Vivíamos de forma pacata, mas nunca faltou comida na nossa mesa, roupa pra vestir ou “momentos de luxo”, como ir ao cinema ou a um circo, fazer “uma viagem” de 18 quilômetros ao Parque das Águas Minerais na vizinha cidade de Cambuquira, gastar numa quermesse ou comer esporadicamente um sanduíche de mortadela no Bar do Quinca. Ou seja: não havia necessidade de eu trabalhar. O salário do meu pai, de segundo-sargento do Exército, dava para atender à casa, à minha mãe e aos quatro filhos.
Ganhei gosto em ter meu próprio dinheiro “por culpa” do Tio Wílson, irmão mais velho da minha mãe. Ele me dava missões que não eram comuns a uma criança: cobrar mensalidades atrasadas dos sócios “maus pagadores” da antiga praça de esportes (piscinas) da cidade; e recolher o dinheiro em pontos do jogo do bicho (Tio Wilson era apontador desse jogo contraventor lá em Minas Gerais). Cumpria todas as tarefas e era recompensado com uma percentagem do “dinheiro que entrava” no bolso do meu tio.
Certa vez, ganhei de presente do mesmo tio uma caixa de engraxar sapatos diferenciada. Era de metal, de cor preta brilhosa, estilosa e modernosa para a época, com um designer que me diferenciava dos demais engraxates da cidade. Fui para a porta do quartel (Escola de Sargento das Armas, a ESA), o que não me faltou coturnos para engraxar. Mas tive que interromper esse serviço depois que meu pai, na saída do expediente do quartel, me pôs pra correr pra casa, me ameaçando dar uma surra. Acho que ele ficou um tanto envergonhado pelo fato de os colegas de farda verem o filho do Sargento Carmo trabalhando numa atividade considerada menor, de menino pobre.
Sei que ganhei gosto por ganhar meu dinheiro. Nunca deixei de estudar e tive uma infância muito boa, brinquei bastante. Era muito feliz, mas sempre achava um jeitinho “pra trabalhar”. Comecei, então, a ampliar e diversificar “meus negócios”: catava alumínio e garrafas velhas para revender; recolhia esterco (bosta de vaca) para vender a quem cultivava hortas em casa; e, juntamente com André Rezende, um primo (na verdade, as nossas mães é que eram primas), fizemos uma sociedade para limpar quintais e cortar a grama de quem tinha jardim.
Porém, o que eu mais gostava era aproveitar as datas especiais. No Carnaval, vendia saquinhos de confetes e serpentinas de porta em porta. Na Semana Santa, também de casa em casa, vendia velas de todos os tamanhos e preços a quem se programava para ir às procissões que ocorriam à noite. Um detalhe, nesse caso, com parte do apurado, diariamente também adquiria a minha vela, comprava um cachorro-quente e seguia na procissão. Todavia, houve um dia que preferi brincar ao invés de vender minhas velas. Sem dinheiro para ir à procissão, arrependido e, ao passar pela Igreja Matriz Sagrada Família, “recolhi emprestado” os trocados deixados pelos fiéis aos pés de São José, num altar lateral daquela igreja estilo gótico, prometendo ao santo devolver “com juros” o “emprestado”. No dia seguinte, trabalhei dobrado e retornei à igreja para pagar o que foi “disposto” pelo santo. Fiquei com a consciência limpa.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 31 de março de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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