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Artigo: Quando “matei” a ditadura (primeira parte) – Jorge Rezende

Artigo: Quando “matei” a ditadura (primeira parte) – Jorge Rezende

Publicado em: 25/07/2025 às 09:50
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Enfrentei a ditadura militar no Brasil à minha maneira. Comecei a perceber que havia algo de errado e de muito ruim acontecendo no país em 1973, ano em que eu comemorava os meus sete anos de idade. Claro que estava longe de ter algum discernimento político e não sabia dar “nomes aos bois”, mas sentia, escutava e via episódios e fatos que me mostravam sinais de que os generais no poder usurpado do povo não estavam ali para alimentar a democracia e muito menos a liberdade.

Morando em uma cidade militarizada, ouvia que os subversivos eram os inimigos do país; que os comunistas brasileiros, alimentados pela União Soviética, Cuba e China, queriam derrubar o “maravilhoso” governo militar e implantar uma ditadura esquerdista no país. Em Três Corações, onde está instalada uma das maiores unidades do Exército brasileiro, a Escola de Sargentos das Armas (ESA), quem não era militar, era parente de militar. E eu estava dentro dessa “regra”: meu pai, à época, era primeiro-sargento de Infantaria. Militar por vocação e amor às Forças Armadas, fizeram com que ele acreditasse na “revolução” e que “os homens de bem” estavam a defender as famílias da ferocidade dos comunas, os “comedores de criancinhas”.

Meu pai, o sargento Carmo, paraibano de Alagoa Grande, era um homem sensato, muito correto, honrado, honestíssimo. Um católico com fortes comportamentos éticos, era um homem bom, justo e extremamente solidário; humanista sem perceber que o era. Esse perfil do meu pai não combinava com o que lhe “estavam ensinando”. Esse foi o primeiro sinal que me levou, mais tarde, a abraçar a ideia do comunismo. Mesmo menino, vi pessoas do meu convívio desaparecendo nas mãos do governo militar; gente bacana sendo presa sem nenhuma explicação racional; a censura na escola, nas ruas e principalmente na televisão; parentes e vizinhos falando baixinho – quase cochichando – quando fossem “falar mal” do governo... Aquilo tudo não combinava com meu pai... Tinha algo de errado, o que demonstrava que poderíamos estar do lado errado daquele país “que ia pra frente” nas mãos dos golpistas militares.

Passei a consumir o que tinha ao meu alcance, começando pela pequena coleção de livros do meu pai, todos praticamente editados pela Biblioteca do Exército. Claro que eram publicações enaltecendo a ditadura militar, ensinando a identificar e caçar os comunistas. Um desses livros, ‘Os Subversivos’, era explicitamente de combate aos terroristas que queriam destruir a pátria. Instruía como identificar um comunista e como eliminá-lo. Até croquis e manuais para fabricação de bombas o livro trazia. Aquilo tudo me dava mais certeza de que meu pai estava sendo enganado e eu tinha que fazer alguma coisa para que ele mudasse de lado (e foi o que aconteceu muito mais tarde, mas isso já é outra história).

O tempo foi passando e fui ampliando “os meus conhecimentos”, tentando devorar publicações proibidas que me davam noções sobre o Marxismo, Karl Marx, Leonel Brizola, Dom Helder Câmara e principalmente do meu eterno ídolo: Ernesto Che Guevara. Ao mesmo tempo, ia vivenciando acontecimentos que me davam a certeza de que a ditadura militar no Brasil era maléfica. Até coisas pitorescas e engraçadas me davam essa noção. A exemplo de Luís, um negro miudinho considerado o melhor eletricista de automóveis do Sul de Minas Gerais...

Luís, um homem trabalhador, dedicava-se ao seu ofício de segunda-feira ao meio-dia de todo santo sábado. Durante a semana, chegava a trabalhar dezesseis, dezoitos horas, por dia. Todavia, quando deixava a sua oficina às 12h do sábado, se entregava à esbórnia. Visitava quase todos os botecos da cidade, enchendo a cara de pinga. Já bêbado, saía pelas ruas esbravejando contra o governo ditador, gritando a todo vapor: “Eu sou comunista... Eu sou comunista... Abaixo a ditadura!”. Claro que, em pouco tempo, uma viatura da ESA, com um bocado de brutamontes da Polícia do Exército (PE), comandados geralmente por um sargento, abordava Luís e o arrastava preso para a cadeia do quartel.

Depois de passar um dia e uma noite na cela da unidade militar, nas primeiras horas da manhã da segunda-feira, Luís, curado do efeito do álcool, era levado para fazer “uma visita” ao comandante da ESA, que já com um sorriso debochado na cara (Luís, de dotes profissionais muito reconhecidos e elogiados, era admirado e bastante popular na cidade), indagava ao prisioneiro: “Mas Luís, de novo?... Que história é essa de sair gritando pelas ruas dizendo que é comunista? E você é comunista?”. Com cara de vítima, Luís explicava: “Eu, comandante? Nunca disse isso. Vocês entenderam errado. O que eu estava gritando é que era eletricista e vocês entenderam comunista”. Luís era solto, mas sua prisão no sábado seguinte estava garantida.

(Continua na próxima semana)



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 22 de julho de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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