O ano era 1982 e a famigerada ditadura militar no Brasil caminhava para os seus últimos espasmos (durou 21 anos, de 1964 a 1985). Esse período tenebroso na vida dos brasileiros havia começado com o golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart, e terminou com a posse de José Sarney como presidente em 1985, o que iria marcar o processo de transição para a redemocratização.
Já com 16 anos, eu estava convicto dos meus sentimentos comunistas forjados desde as minhas primeiras percepções de que o regime militar era – e estava sendo – nefasto para o país e para a vida das pessoas. E no final daquele ano de 1982 eu ia ter que participar da primeira formatura de minha vida. Encerrava, com diploma e tudo, os estudos relacionados ao então chamado primeiro grau. Estava concluindo a oitava série no Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH). E até poderia ter tentado ir para uma das três escolas preparatórias das Forças Armadas: Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Espcex), em Campinas, São Paulo; Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), em Barbacena, Minas Gerais; ou Colégio Naval, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Mas optei por continuar no CMBH, para o então chamado segundo grau (1º, 2º e 3º anos científicos).
Apesar de me identificar com a vida na caserna, não queria ser militar e tinha a consciência de que o ambiente não era propício a mim. Sofria “perseguições” e corria risco na vida de milico. Meus pensamentos e posições incomodavam e já haviam identificado em mim um “filhote” de comunista, amante da Juventude Brizolista e um “estragado” pelos subversivos.
Deixei um colégio civil em Três Corações, Minas Gerais, e fui para o colégio militar, onde fiquei de agosto de 1981 a agosto de 1984, por certa insistência do meu pai. E também queria agradá-lo. O sonho dele era ter um filho oficial das Forças Armadas, de preferência da Marinha ou do Exército. Ele, já um subtenente de Infantaria indo para a reserva com a patente e proventos de segundo-tenente, sempre me dizia orgulhoso: “Este é o cadete do pai... Você vai começar de onde estou parando”. Aquilo me incomodava, mas não queria magoá-lo, pois ele já havia sofrido uma primeira decepção com meu irmão, que também esteve no Colégio Militar de Belo Horizonte nos anos de 1973 e 1974. Também sofreu perseguições, não se adaptava àquele mundo e optou pela vida artística – Totonho (Marcos Rezende) era pintor (detestava ser chamado de artista plástico).
Então chegou o final do mês de novembro de 1982. A programação para os formandos da Turma General Orlando Geisel (irmão de Ernesto Geisel – aquele mesmo que ocupou um dos cargos de ditador no Brasil) estava extensa: missa, baile festivo, passeios, almoços e jantares com familiares e autoridades e, é claro, a pomposa solenidade de entrega dos diplomas. Procurei logo me informar e, de todos os eventos, o único obrigatório era o da festa de entrega dos diplomas. Então, me precavi, pedi dispensa de quase tudo. E, para o dia da formatura, não convidei amigo ou conhecido nenhum e pedi para que ninguém da minha família comparecesse. E foi o que aconteceu.
Rebuscadamente ornamentado, o ginásio do Colégio Militar estava lotado. A nata da alta sociedade belo-horizontina se espremia em luxo com boa parte da elite política e militar mineira e do Brasil. As arquibancadas compactas de gente com nariz empinado circundavam os cerca de cem formandos, todos trajados em gala militar e dispostos no meio da quadra. Para onde se olhava viam-se ministros, oficiais de alta patente das forças de segurança, banqueiros e industriais do nascente neoliberalismo, cônsules, embaixadores, deputados, prefeitos e até governadores. Moças e senhoras da aristocracia de um “país que vai pra frente” tropeçavam em seus chiques vestidos longos, arranhando suas pedrarias e joias umas nas outras...
De acordo com o cerimonial do evento, cada formando, um a um, teria seu nome completo anunciado pelo sistema de som, seguido do anúncio de seu padrinho ou madrinha para a entrega do diploma. Eu não havia escolhido ninguém para essa missão. Fui cobrado pelo comando da minha companhia a indicar uma pessoa. Essa foi a senha para eu me vingar e ajudar a “matar” a ditadura brasileira. Perguntei se poderia convidar quem eu quisesse. Falaram que sim. Olhei de lado e chamei um soldado raso que estava de serviço. Surpreso e assustado, e após ter a permissão do sargento que o comandava, ele aceitou orgulhoso. Coincidentemente, o nome desse soldado era Jorge. Nunca o tinha visto e foi a minha redenção. Enquanto meus colegas recebiam seus canudos das mãos do ministro tal, do general fulano, do almirante beltrano, do deputado sicrano, eu recebia o certificado das mãos de um “zé-ninguém”. No momento do meu nome e o do xará Jorge, fez-se um silêncio ensurdecedor (e de raiva) no ginásio. Ali percebi que a ditadura poderia ser “matada”, pelo menos na unha...
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 12 de agosto de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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