Artigo: Os esquisitos – Jorge Rezende

Publicado em: 30/01/2026 às 20:30
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Totonho não era religioso. Não professava qualquer crença. Pelo contrário, era ferrenho crítico a toda e qualquer instituição doutrinária, a práticas ou princípios apregoados por linhas religiosas ou cultos prestados a alguma divindade. Abominava devoção. Todavia, não admitia ser rotulado de agnóstico ou ateu. Ele acreditava no transcendental do modo dele, na vida fora da Terra e do corpo físico, em discos voadores, no sobrenatural, nos fenômenos e até em seres fantásticos.

Bastante humanizado e solidário, acreditava na liberdade e no livre arbítrio como patrimônios do ser humano. Não gostava das elites, do acúmulo de riquezas e da busca incessante dos poderosos por mais poder. Preferia a companhia dos rejeitados, dos fora do padrão, dos evitados pela sociedade. Se Totonho tivesse vivido há dois mil anos na Palestina, não há dúvidas de que seria um exemplar perfeito para ser seguidor de Jesus Cristo.

Talvez ele próprio nunca percebeu que seguia os primitivos preceitos apregoados e demonstrados por Cristo. Assim como Jesus, Totonho andava com a chamada ralé, pelas periferias da vida e da cidade. Escolhia a companhia dos marginalizados, dos pecadores, dos pobres, incompreendidos, excluídos pela sociedade, “amalucados”, prostitutas e doentes. Totonho não pregava nenhum evangelho, mas, do jeito dele, defendia – como Jesus – a inclusão, o respeito e o amor a todos. Desafiava as normas religiosas e sociais. Com atitudes cristãs – sem ser cristão –, Totonho admitia que todos são importantes, até mesmo aqueles que ele criticava: os soberbos que se consideravam “justos e puros”, mas que viravam o rosto para os tachados “fora-da-linha” da etiqueta social.

Pensando e vivendo dessa maneira, Totonho, que morreu em 2024 aos 65 anos, escolheu conviver com uma lista extensa de amigos esquisitos e fora do esquadro. Gostava dos fora da curva. Foram vários os rejeitados chamados de amigos por ele. Para ilustrar esse comportamento de Totonho, seis deles merecem destaque. Um era Vitinho, um trabalhador negro desprezado e evitado até mesmo pelos familiares por ser gay. Um excelente cozinheiro que trabalhava na cozinha do rancho (restaurante) do quartel do Exército na cidade. Em seus momentos de folga, era fácil ver o magro Vitinho em casa à beira do fogão, com um calção curtíssimo e “apertadinho”, sem camisa, de avental rosa e branquíssimas botas brancas de borracha, preparando um dos seus pratos especiais: pimentões recheados. Totonho arranjou brigas homéricas para defender esse seu amigo de ataques homofóbicos.

Outro amigo de longas datas foi Bira. Também negro e, ao contrário de Vitinho, era vistoso e musculoso sem fazer academia. Sem muito estudo, porém extremamente inteligente, Ubiraci (seu verdadeiro nome) era talentoso nas artes e com amplo conhecimento em várias áreas do conhecimento. Mesmo sendo trabalhador, bastante gentil e educado, era exímio trambiqueiro e seus principais “passatempos” era de vez em quando carregar para casa algo que não era seu e se envolver com mulheres casadas. Por várias ocasiões, levando cigarros, Totonho ia visitá-lo na cadeia.

Muito magro, bastante alto, branquelo quase amarelado e com uma enorme cabeleira crespa, despenteada e alaranjada, Garibaldo era outro amigo esquisito de Totonho. Tinha esse apelido porque lembrava o enorme e colorido passarinho Garibaldo do programa infantil Vila Sésamo, dos anos de 1970. Fumava maconha o tempo todo e, numa época em que ainda não eram considerados uma praga urbana, Garibaldo vivia da criação e comercialização de pombos. Das várias amigas marginalizadas de Totonho, o destaque fica para Jorgina, uma ex-prostituta que se aposentou depois de evoluir para cafetina. Totonho morou algum tempo na casa dela, quando se apaixonou por uma das três lindas filhas de Jorgina, que as criou sob rígidas regras e longe do mundo da orgia.

Por fim, mais dois amigos esquisitos de Totonho e que tiveram mortes ainda mais esquisitas: Mauro e Amauri. O primeiro era um moreno baixinho e bonito. De poucas palavras, tentava ser um hippie-roqueiro fora de época. Viciado em drogas injetáveis, Mauro ficou doente, em poucos meses ficou inexplicavelmente cadavérico e morreu jovem “de uma doença misteriosa”, por volta de 1980. Anos depois, deduziu-se que ele foi uma das primeiras vítimas da Aids, que no Brasil só foi oficialmente registrada a partir de 1982.

Amauri era aparentemente “normal”. Alto, bonito, cabelos lisos, longos e bem tratados e se vestia bem. Com voz aguda, seu perfil trazia uma semelhança ao Salsicha, do desenho Scooby-Doo. Da classe média, seu pai era fazendeiro e pertencia a uma família bem estruturada. Porém, era o típico “garoto-problema”: não gostava de trabalhar, péssimo estudante e só levava problemas para os pais. Gostava de fazer farras etílicas em companhia de Totonho. Tempos depois, fora da sua cidade natal, virou modelo fotográfico e de passarela. Quando tudo parecia um mar de rosas, Amauri adoeceu da noite para o dia. Diagnosticado com leucemia, morreu em menos de quarenta dias. Totonho, meu irmão, continuou sua caminhada rodeado por inúmeros amigos incomuns e esquisitos que colecionou em vida.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 27 de janeiro de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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