Meu melhor e mais marcante amigo de infância foi Gilson Coelho. Eu tinha apenas 5 e ele 8 anos quando nos conhecemos. Essa amizade atravessou o tempo. Uma cumplicidade e estima que perduraram na nossa criancice, adolescência e chegou à idade adulta. Ele foi o padrinho do meu primeiro casamento. Ficamos um tanto distantes depois que passei a viver em João Pessoa. O ciclo do nosso companheirismo findou-se em 2006, quando Gilson, prematuramente, morreu aos 43 anos de idade.
Coelho era uma figura ímpar. Pronto pra qualquer parada ou aventura. Temos muitas histórias juntos. Pena que ele não está mais aqui e muitos capítulos de nossas vidas não tiveram a chance de serem escritos. Porém, nos cerca de 35 anos de convivência, nossas histórias preencheriam vários volumes de uma coleção de livros. Temas para todos os gostos: desde planejar “colheita” de frutas em hortas alheias a longas caminhadas e exploração às margens do Rio Verde; passando pelas nossas tentativas de sermos hippies fora de época ou guerrilheiros no enfrentamento da ditadura militar; até a fase de nossas farras homéricas de adolescentes ou já adultos.
De todos os aspectos, uma característica marcante em Gilson era os “empregos” que ele conseguia. Sempre trabalhos não muito ortodoxos; como se diz hoje em dia: eram pontos fora da curva. E o interessante é que, quase sempre, ele me convidava a participar dessas labutas esquisitas. E eu aceitava. Na prática, o “emprego” era dele e eu entrava como “ajudante”. Era uma terceirização. Claro que ele ficava com a maior parte do “salário” e eu levava uma porcentagem. Mas não era o dinheiro que tanto importava. A aventura e o fato de atuarmos juntos eram os melhores pagamentos.
Para ilustrar alguns desses “trampos” fora do normal, houve uma vez que fomos contratados (na verdade foi ele; eu ia como combo) para sermos “resgatadores de clientes apavorados” do trem fantasma de um parque de diversões que montou acampamento no nosso bairro. Com medo das horrendas aparições no escuro percurso do trem fantasma, algumas moçoilas – e até homens – saltavam do veículo no meio do caminho e ficavam vagando pelo interior da atração. Era aí que entrávamos em ação. Percorríamos os trilhos até encontrar as ou os “cagões”. Era divertido, apesar de algumas vezes quase apanharmos por sermos confundidos com alma-penada.
Outro emprego fora do normal conquistado por Gilson Coelho foi o de ser recrutado para compor a equipe dos quinze “cabeçudos” que acompanhavam, dançando e assustando as crianças, a boneca gigante Brigite. Eu explico: Brigite era uma boneca de longos cabelos loiros e de maquiagem estravagante – no estilo bonecos de Olinda – que servia como “garota propaganda” de uma loja de tecidos da minha cidade, a Loja Maracanã. Dançando ao ritmo das músicas do alto-falante de um carro de som propagandista, Brigite, carregada pelas entranhas por um forte sujeito, ficava rodeada por quinze meninos que ostentavam enormes, coloridas e estranhas cabeças das mais variadas criaturas: bruxas, ogros, caveiras, lobos... A personagem de Gilson era o “Nego Beiçudo”. Meu trabalho era ir ao lado acompanhando. Quando o calor ficava insuportável, eu substituía Gilson por alguns instantes, “vestindo” aquela pesada cabeçona confeccionada em resina.
De todos os trabalhos inusitados de Gilson, um que me marcou bastante foi o do ônibus dos horrores, que ficou por um longo tempo estacionado na praça principal de minha cidade. Era um antigo ônibus adaptado para funcionar como museu. No seu interior, uma exposição de bizarrices. As pessoas pagavam um cruzeiro para entrar e ver animais empalhados ou embalsamados de cobras, bezerros e porcos que nasceram com duas cabeças; fotografias de pessoas siamesas; fetos que o proprietário do “museu” jurava ser de humanoides (seres de outros planetas) conservados em formol em enormes vidros; fotografias onde apareciam espíritos desavisados, flagrados no clicar das máquinas; e até o fóssil de uma sereia. A fila para conferir as atrações era imensa. Gilson atuava como guia dos grupos de visitantes, passando informações. E eu ficava na porta dianteira do ônibus, controlando a entrada e recolhendo os ensebados e amarelados ingressos reutilizáveis. Claro que o dono ficava no guichê improvisado na calçada, recebendo os valores.
Foi muito bom e divertido. Mas a raiva veio no final. Da noite pro dia, o ônibus desapareceu da praça. O dono da geringonça fugiu da cidade sem pagar o “salário” de Gilson, e por tabela a minha porcentagem no negócio.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 12 de maio de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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