Artigo: O testamento – Jorge Rezende

Publicado em: 21/01/2026 às 07:50
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Ela anotava tudo. O universo do que ocorria na família ficava registrado em seus apontamentos em cadernos, blocos, folhas soltas e, principalmente, em um grande e grosso livro de capa dura e da cor preta. Se não me engano, era um daqueles livros comerciais utilizados por empresas para registro contábil e fiscal. Por poucas vezes tive acesso a esse documento de memórias da família Rezende. Lembro-me de que haviam muitos itens nele anotados, com datas, personagens e comentários; uma espécie de livro-diário. Achava esquisita aquela preocupação de escriba da família que minha avó materna nutria, mas era interessante.

Vó Dica não deixava nada para trás, nada era esquecido... Tudo tinha significância para ela; não existia irrelevância e tudo era lançado no seu diário: o início do namoro de uma filha, casamentos, separações, batizados, festas de aniversário; o primeiro emprego de um filho ou de netos; viagens, visitas; quando um bebê da família andou pela primeira vez ou começou a falar; animais de estimação; desavenças familiares; doenças, diagnósticos, internamentos, cirurgias, compra de remédios, curas... E mortes.

Nessas anotações, o que para a maioria das pessoas não há importância, para minha avó ganhava consideração: a data e a descrição da compra de um faqueiro, de um jogo de panelas ou eletrodoméstico por alguém da família; a aquisição de um terreno, de um carro ou brinquedo de criança; a mudança de casa de alguém; a leitura de um livro... Foram nessas anotações que vi a data de compra da minha única bicicleta que tive na vida: uma Monareta Kross da Monark, no dia 18 de agosto de 1975, um dia antes do meu aniversário de 9 anos, que meu pai pagou 950 cruzeiros divididos em dez cheques pré-datados, na Loja Ximenes, lá em Três Corações, no sul da minha Minas Gerais. Tudo era escrito à mão, com lápis ou caneta.

Minha avó morreu em 1986. Dias depois de sua partida para o mundo espiritual, surgiram duas extensas cartas escritas por ela e que estavam bem guardadas em uma de suas malas-baú. Lembro-me de ter acompanhado minha mãe na leitura dessas missivas. A primeira delas não era muito agradável. Causou espanto a muitos da família. Pela mistura e sequência de cores e de tonalidades da tinta no papel, ora mais claras (mais antigas) e ora mais vivas (coisas mais recentes), Vó Dica redigiu (e reescreveu) essa carta por anos... Ia acrescentando parágrafos pouco a pouco, assim que os fatos novos se desenrolavam. Ela registrou nessa carta-memória todas as mágoas com cada um dos seus quatro filhos e doze netos, além de outros parentes, como primos e tios dela. Ela perdoava a todos, mas não escondia suas mágoas, escrevendo com detalhes as “desavenças e contrariedades” em vida.

A leitura do calhamaço de folhas de caderno (frente e verso) por parte de minha mãe, entrecortada por lágrimas e sorrisos, estava preste a chegar ao fim e eu, intimamente, me sentia privilegiado e aliviado, pois não havia sido citado na carta... Ledo engano: estava eu lá, no último parágrafo, onde minha avó apontava uma decepção comigo cerca de um ano antes dela morrer. “Até o Jorge Luís...”, fixou com tinta bem nova sua mágoa por uma malcriação que eu lhe havia feito, que eu nem lembrava mais... Fiquei envergonhado e com remorso.

Já a outra carta retirada do “baú” era um testamento, em que ela deixava todas as suas coisas para cada um dos filhos e netos (menos para meu Tio Wilson que havia morrido pouco antes). Ela citava o nome da pessoa e o que lhe destinava como herança: das suas caixas de sabonetes e perfumes aos móveis de sua casa. “Desse latifúndio” me coube os quadros de santos que decoravam as paredes do seu lar. Eu vivia um período “meio ateu”, um tanto rebelde e com ideias revolucionárias... Estupidamente, nunca tomei posse do espólio a mim destinado. Não sei onde os quadros foram parar e um deles sei que deveria ser bastante antigo e raro (e poderia valer bastante): era de madeira de lei emoldurando em alto relevo a cena da última ceia, artisticamente forjada em ferro e bronze. Nunca mais vi um quadro igual. Fiquei sem a minha herança... de besta!



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 20 de janeiro de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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