Da janela do quarto, que dá para a rua da frente da casa, observo Dona Elza caminhando sozinha pela calçada, gesticulando como quem conversasse com alguém... Acho estranho e até mesmo preocupante... Não havia mais ninguém próximo. Será que ela está perdendo o juízo? De vez em quando falar “rapidamente” consigo mesmo, dependendo da situação, é até “normal”, aceitável. Mas se portar como estivesse papeando com o invisível? Aí já se torna incomum, até um tanto bizarro.
Preocupado, sigo para a sala à procura de alcançar a porta da rua. Saio e fico à espera de minha mãe chegar mais perto. “A senhora está perdendo a razão? Que alucinação é esta?”, indago assim que ela chega até a mim, olhando ao derredor um tanto envergonhado à procura de possíveis observadores próximos. Junto com a preocupação, também fiquei inquieto e receoso por alguém achar que ela estava mesmo perdendo o juízo.
Dona Elza, quase às gargalhadas, nem responde aos meus apontamentos. Com palavras desconexas e entrecortadas por uma gaitada ou outra, ela tenta me explicar, não escondendo a vontade de me introduzir também naquele clima de bom humor. “Meu filho, não estou ficando louca!”, tenta me acalmar. “Você não viu... Ninguém estava vendo, mas eu me encontrava conversando mesmo com uma pessoa”. Fiquei ainda mais assustado.
E minha mãe explica: “Ao entrar na rua aqui de casa, tinha muita gente na esquina e uma pessoa estava obstruindo minha passagem. Pedi licença e percebi que era o seu Geraldo Pescador. Fiquei feliz em vê-lo e começamos a caminhar e conversar... Aliás, só depois percebi que só eu falava e ele continuava com aquele sorriso marcante no rosto quase amarelo, balançando a cabeça em sinal de concordâncias aos meus argumentos. Somente a poucos metros daqui de casa me lembrei que Seu Geraldo não estava mais vivo... E ele foi embora”.
De fato, seu Geraldo Pescador havia morrido há pouco mais de um mês. Ele morava na mesma rua de nossa casa. Como seu próprio codinome indicava, era apaixonado por uma pescaria. Aposentado – se não me engano da Rede Ferroviária Federal –, e a caminho dos 80 anos de idade, Seu Geraldo vivia pelas barrancas do Rio Verde, onde consumia dias inteiros na captura de lambaris, piabas, dourados e mandis. Demasiadamente alto e magro, cabelos grisalhos, olhos azuis e de pele tão branca que chegava a amarelar, Geraldo Pescador era viúvo, morava sozinho e teria “morrido dormindo”.
Claro, acreditei na história de minha mãe! E não era a primeira vez que aquele tipo de fenômeno havia ocorrido com ela. Dona Elza era médium espírita, com habilidades na vidência e na escuta espiritual – apesar de ter um avançado problema auditivo, ela mesmo explicava: “Não escuto com o corpo físico, mas com o perispírito”. Então, ver pessoas mortas para ela era normal. Tão normal que muitas vezes não distinguia, pelos lugares onde estava, quem estava vivo ou morto. Era estranho, mas pra gente lá de casa também passou a ser uma coisa normal – apesar de que não víamos nada do que Dona Elza enxergava com os olhos espirituais.
Conforme a Doutrina Kardecista, a faculdade da mediunidade não se revela em todos da mesma maneira. “Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, peneumatágrafos (escrita direta), escreventes ou psicógrafos”.
Na prática, os médiuns videntes são dotados da faculdade de ver os espíritos. “Há os que gozam dessa faculdade em estado normal, perfeitamente acordados, guardando lembrança precisa do que viram. Outros só a possuem em estado sonambúlico ou aproximado do sonambulismo”. Bom, só sei que minha mãe era dotada dessa “segunda vista” e, durante sua vida (ela morreu em 1989, aos 55 anos), sem nenhuma pretensão, ajudou muita gente, encarnada ou desencarnada.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 24 de março de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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