No início dos anos de 1990, eu já possuía uma certa vivência no jornalismo paraibano. Havia iniciado em 1989 como colaborador e articulista do jornal semanal O Combate, de Jório Machado, antes de ter pela primeira vez a carteira assinada como revisor no Correio da Paraíba. Numa passagem rápida, de três meses, pelo jornal O Norte (onde mais tarde trabalhei por outras duas vezes), dei meus primeiros passos como repórter. Retornei aos quadros do Correio da Paraíba e, de fato, comecei a me tornar um repórter. Ainda estudante de Comunicação na UFPB, por volta de 1992, eu era “o foca” da equipe de reportagem do Correio da Paraíba.
Para quem não é da área do jornalismo, o termo “foca” é o apelido, muitas vezes jocoso, destinado ao jornalista iniciante, recém-formado e sem experiência, que está aprendendo os macetes da profissão em redações, muitas vezes realizando as tarefas mais básicas enquanto ganha “quilometragem”. O termo “foca” vem de uma mistura de teorias. As mais conhecidas são de que é a ideia de alguém que se sente perdido, como o animal ou, mais popularmente, de fotógrafos inexperientes que demoravam para preparar o flash, atrasando os outros com o famoso “estou focando!”.
Como “foca”, me esforçava para cumprir todas as pautas a mim destinadas. Não deixava nada “boiar”. E num final de expediente, o meu eterno amigo e mestre José Carlos dos Anjos, como chefe de reportagem, me incumbiu de checar a informação chegada à redação de que uma pequena cidade do interior paraibano, no Sertão ou no Cariri – não me lembro extatamente –, a quilômetros de João Pessoa, estava em pé de guerra. Os servidores municipais em greve realizavam protesto em frente à prefeitura, houve um certo quebra-quebra, invasão e ocupação do prédio da administração e até a intervenção dos poucos policiais da cidade.
Numa época em que o celular ainda engatinhava, quase ninguém possuía um, tive que apelar para o catálogo telefônico. Depois de tentar em vão contatos com o prefeito, a polícia e até com a telefonista do posto da Telpa na cidade, identifiquei no catálogo telefônico o número de um orelhão que aparentava estar instalado nas proximidades da sede da prefeitura local. Era a minha saída para cumprir a pauta. Liguei e, após alguns segundos, uma pessoa atendeu. Me apresentei como repórter do Correio da Paraíba e perguntei se aquele orelhão ficava próximo à prefeitura. Bastante solícito, o popular informara que o orelhão estava bem em frente à porta de entrada do prédio. Com o telefone pregado ao ouvido para abafar o barulho característico de uma redação de jornal daquela época, e rabiscando freneticamente nas folhas do meu improvisado bloco de papel, o transeunte me narrava com detalhes, ao vivo, o que ele estava presenciando da confusão na prefeitura.
Depois de anotar tudo que minha fonte inesperada me relatara do ocorrido e do que ainda estava ocorrendo, perguntei se havia alguém do comando da manifestação próximo. E ele me trouxe ao telefone, nada mais nada menos, do que o presidente do sindicato dos servidores. Feita mais uma parte da entrevista, perguntei ao sindicalista se tinha alguém da prefeitura para falar, e, também de forma surpreendente, ele repassou o aparelho de telefone do orelhão para o secretário da Administração daquela cidade. Após o representante da prefeitura, ainda entrevistei via orelhão, e na mesma e única ligação, um vereador da oposição e outro da base do prefeito, o cabo-PM que comandava a guarnição local composta por ele e mais três soldados, e uma enfermeira do único posto de saúde local e que estava atendendo aos feridos da invasão do prédio da prefeitura.
Pronto! Mesmo sem fotos da manifestação, o Correio da Paraíba trouxe, de forma exclusiva na edição do dia seguinte, uma página inteira com a reportagem completa, ouvindo todos os lados e personagens acerca da greve e do quebra-quebra naquela cidade. Tudo graças a um orelhão instalado na calçada em frente a uma minúscula prefeitura do interior paraibano. Houve quem jurasse que eu estaria presente, de corpo e alma, naquele incidente no interior do estado. Na verdade, estava na mesa de uma redação ligado a um orelhão a dezenas de quilômetros.
Agora vem a notícia de que o ano de 2026 marcará o fim da era dos orelhões no Brasil. Esses famosos telefones públicos que chegaram a ser um símbolo nacional vão começar a ser retirados definitivamente das ruas de todo o país. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informa que 38 mil aparelhos ainda permanecem no território nacional. Mas eles vão embora. Uma morte inevitável de um equipamento que atualmente é considerado obsoleto. O orelhão, criado por uma arquiteta chinesa que cresceu no Brasil, já foi indispensável num passado não tão remoto assim.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 3 de fevereiro de 2026) – Foto: Jornal A União (Leonardo Ariel) – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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