Artigo: Misoginia, racismo, homofobia... – Jorge Rezende

Publicado em: 26/02/2026 às 20:59
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Poucas das mesmas passagens bíblicas da vida de Jesus Cristo são registradas por mais de um dos quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João – nos primeiros livros do Novo Testamento. Com contextos temporais diferentes, o único acontecimento que se repete nos quatro evangelhos canônicos é quando Jesus expulsa os vendilhões – cambistas e comerciantes – do templo. A ira de Cristo está lá em Mateus (21:12-13), Marcos (11:15-17), Lucas (19:45-46) e em João (2:13-22).

Quando Jesus chama os fariseus de “raça de víboras” (repreensão também utilizada por João Batista), fazendo um duro discurso de condenação à hipocrisia deles, o fato está registrado somente em Mateus, em três oportunidades: 23:33, 12:34 e 3:7. Extremamente conservadores, os fariseus eram fanáticos religiosos, elitizados, que se achavam santos e foram um influente grupo judaico que, de forma hipócrita, condenavam a tudo e a todos “em nome da pureza”. Comparados aos dias atuais, se assemelham a um bocado de líderes de igrejas cristãs de hoje ligados à extrema direita, que se tornaram populares, mesmo explorando economicamente e politicamente a vida dos incautos fiéis.

Tanto os fariseus quanto boa parte dos líderes cristãos de hoje (principalmente pastores de diversas denominações religiosas) nutriram e nutrem a hipocrisia religiosa. Repletos de maldade interna e ambição, esse povo se disfarça de piedoso. “Preocupados” com a manutenção dos valores da família tradicional, no fundo são hipócritas, gananciosos e cruéis. Aparentam santidade, mas são corruptos por dentro. São “sepulcros caiados”, pintados de branco com cal, aparentando boniteza por fora, mas escondendo ossos e podridão no interior.

Todavia, nem tudo está perdido. Há passagens nos evangelistas que trazem um alento mesmo para quem não é religioso ou muito menos cristão. O exemplo disso está na passagem bíblica de Jesus com as crianças, encontrada em três dos quatro evangelhos: Mateus 19:14, Marcos 10:13-16 e Lucas 18:15-17. É um momento fantástico da vida de Jesus, quando ele acolhe crianças que os discípulos tentavam afastar. Jesus às abençoa, afirmando que o “reino dos céus pertence aos que são como elas”. Nesse momento, Jesus valoriza a humildade e a confiança infantil.

Ninguém nasce racista, misógino, homofóbico, xenófobo ou fascista. Vivemos tempos tenebrosos, onde monstros estão emergindo do esgoto da humanidade. São tempos difíceis e precisamos consertar esse rumo. A apologia ao mal, à mentira, à violência, tem que ser estancada. Todos nós somos responsáveis pela formação da personalidade de cada criança. É na infância que tudo é moldado. Um adulto misógino ou racista não nasceu assim. Ele herdou isso da sua criação. Para um mundo melhor, precisamos fazer com que a inocência original de uma criança seja trabalhada da melhor maneira possível. O progresso humano começa pelo respeito às diferenças.

O comportamento social precisa receber “um safanão”. A violência contra a mulher se inicia quando as famílias cultivam suas crianças “com valores” machistas, patriarcais. Sem perceber, alimentamos essa situação quando criamos meninos e meninas de forma diferente. O menino tem que ser engenheiro e a menina, dona de casa – no máximo professora; o adolescente pode tudo, sentar de pernas arreganhadas, chegar em casa a hora que quiser... A menina adolescente tem que se comportar ao sentar-se, não sair de casa desacompanhada... o homem pode tudo, a mulher, não! Parecem situações “bestas”, mas o tratamento diferenciado do gênero é uma semente do mal que começa a ser cultivada lá na infância. Estamos criando futuras pessoas preconceituosas, intolerantes e carregadas de ódio.

E tudo piora quando isso fica institucionalizado. Como é o caso recente lá no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), quando dois desembargadores relativizaram e oficializaram o estupro de vulneráveis, achando natural o “casamento” de um homem de 35 anos com uma criança de 12 anos. Não por questão religiosa ou de crença, mas precisamos urgentemente resgatar os ensinamentos humanos alertados por Jesus Cristo. Nossas crianças precisam sem moldadas da melhor forma, sem alimentar a misoginia, a homofobia, a intolerância... o fascismo.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 24 de fevereiro de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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