Artigo: Meu trem das sete – Jorge Rezende

Publicado em: 12/04/2026 às 10:05
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Sempre fui fã de Raul Seixas. Desde a tenra idade, as letras, os arranjos e as interpretações desengonçadas e muitas vezes até desafinadas do artista me atraíram. Continuo no mesmo diapasão das canções daquele que é considerado um dos pioneiros do rock brasileiro. Cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista, o baiano Raul Santos Seixas faz parte da trilha sonora de minha vida.

Para relembrar, o “pai do rock brasileiro”, quase sempre chamado de “Maluco Beleza”, teve uma trajetória considerável na música. Sua obra é composta por 17 discos lançados durante 26 anos de carreira. Com um estilo musical tradicionalmente classificado como rock-baião, Raul conseguiu unir esses dois gêneros em músicas como ‘Let me Sing, Let me Sing’.

Em 1968, ele gravou seu primeiro álbum, ‘Raulzito e os Panteras’. Porém, somente ganhou notoriedade crítica e de público com as músicas ‘Ouro de Tolo’, ‘Mosca na Sopa’ e ‘Metamorfose Ambulante’, do álbum ‘Krig-ha, Bandolo!’, em 1973. Contestador e místico, Raul defendeu ideais, como a que está registrada na canção ‘Sociedade Alternativa’ apresentada no álbum ‘Gita’, lançado em 1974, influenciado por figuras como o ocultista britânico Aleister Crowley.

Conforme registra seus biógrafos, o cético e agnóstico “Raul Seixas se interessava por filosofia (principalmente metafísica e ontologia), psicologia, história, literatura e latim. Algumas ideias dessas correntes foram muito aproveitadas em sua obra, que possuía uma recepção boa ou de curiosidade por conta disso”. Ele morreu em São Paulo, aos 44 anos, no dia 21 de agosto de 1989.

De toda sua criação artística, a minha música preferida é ‘O Trem das Sete’, lançada em 1974. A canção faz parte do álbum ‘Gita’, o terceiro álbum solo do cantor, pela Gravadora Philips. Se é uma das obras mais conhecidas e místicas do cantor, para mim, ela fala muito mais. Bem mais profundo nas minhas concepções.

Ainda de acordo com os estudiosos acerca da vida e obra do artista, em ‘O Trem da Sete’ Raul Seixas “utiliza o trem como símbolo de transição entre diferentes fases da vida, enquanto o número sete reforça a ideia de ciclos que se completam e recomeçam”. Isso seria uma influência das doutrinas esotéricas e pelo pensamento de Aleister Crowley, que traz referências ao fim de uma era e ao início de outra, como no verso “vem trazendo de longe as cinzas do velho éon”. Na prática, “essa imagem sugere renovação e transformação, temas recorrentes na obra de Raul”.

E mais: “A letra cria um clima de expectativa diante do desconhecido, destacando que a passagem para o novo não exige preparação material, como mostra o trecho ‘não precisa passagem/ nem mesmo bagagem no trem’. Isso indicaria que a mudança é inevitável e acessível a todos, bastando uma disposição interna. Perguntas como ‘quem vai chorar?/ quem vai sorrir?/ quem vai ficar?/ quem vai partir?’ reforçam a ideia de escolhas e consequências diante das transformações”.

Na letra da música, quando Raul Seixas afirma “olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu”, ele aponta, segundo seus pesquisadores, para a constante mudança da realidade. No verso “vem de braços e abraços/ com o bem num romance astral”, Raul sugeriria “a união de opostos e a coexistência de bem e mal em cada novo ciclo”... Todavia, para mim, a leitura que sempre fiz é que Raul Seixas estava enfatizando o momento da morte, do desencarne e o encontro do espírito com outra realidade.

Essa canção mística e metafórica simboliza pra mim a transição, a morte. De forma poética, Raul Seixas proporciona, na minha concepção, a ideia de uma mudança profunda na vida após a morte do corpo carnal. Esse nosso destino inevitável, “que dispensa bagagens materiais”. Essa música é o meu trem das sete, principalmente nos versos “ói, é o trem, não precisa passagem/ nem mesmo bagagem no trem/ (...) ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais/ vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar/ vê, é o sinal, é o sinal das trombetas/ dos anjos e dos guardiões/ ói, lá vem Deus/ deslizando no céu entre brumas de mil megatons”. Sendo assim, salve – e toca – Raul!



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 7 de abril de 2026) – Foto: Iryna Rodríguez (Pixabay) – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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