Houve um tempo em que os jornais impressos na Paraíba circulavam sete dias da semana, inclusive às segundas-feiras. Ou seja: as redações funcionavam aos domingos, com equipes reduzidas e seguindo escala dos profissionais. As edições dos sábados e domingos eram adiantadas, com matérias chamadas de “frias”, em grande parte a partir das quintas-feiras. Aos sábados, a edição do dia seguinte já estaria quase que totalmente fechada. Apenas a primeira página (a capa) e a página de Últimas ficavam abertas com o material a ser produzido naquele dia.
Em um daqueles sábados em O Norte, eu era chefe de reportagem e avisei no dia anterior para que a equipe escalada chegasse um pouco mais cedo, pois havia uma pauta a ser coberta por recomendação da direção do jornal. O evento – que não me recordo exatamente o que era – estava marcado para ter início às 8h30. Por isso, a recomendação.
Já passavam das 8h e apenas o motorista e a repórter (e grande amiga) Célia Leal se encontravam na redação. E nada do repórter fotográfico aparecer para a missão recomendada. Numa época em que celular era coisa de ficção científica, o jeito era esperar a chegada do fotógrafo, no caso, o saudoso e competente (e bem-humorado) Ovídio Carvalho. Infelizmente, Ovídio morreu no dia 12 de maio de 2024, aos 60 anos, no Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa, após sofrer um AVC hemorrágico. Ele já vinha sofrendo com complicações decorrentes da diabetes, que afetara seu fígado e rins, obrigando-o a fazer hemodiálise.
Como profissional, Ovídio era conhecido por sua sensibilidade para lidar com as imagens do cotidiano, mesmo em fotografias de cenários difíceis, como as destinadas às páginas da Editoria Policial. Devido ao seu bom humor – muitas vezes de forma ácida –, Ovídio Carvalho conquistou muitos amigos no jornalismo (que o diga o meu compadre Agê Santana). Porém, seu jeito debochado de encarar a vida muitas vezes era confundido com irresponsabilidade. O que não é justo, pois Ovídio, mesmo um tanto anarquista, era cumpridor de suas obrigações – às vezes de forma rebelde, do jeito dele, mas com extremo profissionalismo.
Devido a essa “fama”, comecei a ficar preocupado com a demora de Ovídio e até iniciei “uma esculhambação mental”, pensando até numa possível punição ao fotógrafo. Minuto a minuto, de forma impaciente, eu saía da redação e ia em direção à primeira sala do corredor, onde funcionava o arquivo de fotografias e servia de sala dos fotógrafos. E nada! Sala trancada e nem sinal de Ovídio.
Num dos vaivéns ao corredor, enfim avistei o baixinho Ovídio, grudado à sua mochila surrada em que carregava seus equipamentos fotográficos, com seu conhecido rosto cínico e sorrindo como sempre. Com as chaves na mão, em frente à porta da primeira sala, Ovídio estaria prestes a entrar no arquivo fotográfico... Senti um alívio imediato, esqueci a tal pensada possível punição e retornei à redação, convocando a repórter e o motorista para se movimentarem, pois quem faltava acabara de chegar. E os dois partiram ao encontro de Ovídio.
Nem houve tempo de usufruir do alívio e do início do relaxamento em frente ao estresse. Célia Leal retorna para a redação e noticia que eu estava enganado. Ovídio não havia chegado. Já em pânico, solto um “não estou louco” e sigo em direção à sala dos fotógrafos. Porta fechada. Quase esmurro de tanto bater, e nada de Ovídio. Vou ao estacionamento, praticamente vazio, e também nada do Fusquinha azul de Ovídio... De fato, ele não havia chegado ao trabalho.
Um tanto perturbado, retorno à redação sem ter o que dizer ao restante da equipe. Somente repetia que eu havia avistado de forma clara a chegada de Ovídio à sala do arquivo... E percebi que Célia já me olhava diferente, de forma preocupada com a minha saúde mental.
Antes que eu tomasse alguma outra medida-saída, um dos telefones da redação toca. Atendo e no outro lado da linha, por meio de uma ligação de orelhão, ouço a voz de Ovídio: “Olha, vou demorar um pouco, mas estou chegando. Meu carro quebrou aqui na Ladeira do Rangel. Estava esperando o mecânico chegar, mas tô pegando uma carona agora para ir à redação”.
Atônito, as ideias na cabeça deram um nó... Então, o que eu vi na porta do arquivo de fotografias? Uma visagem? Pelo jeito, sim. Uma experiência perturbadora e que até hoje não encontro uma explicação. Mas que eu vi, eu vi. O importante é que, mesmo atrasado, Ovídio chegou e conseguimos fazer a cobertura do evento. Por outro lado, espero que o meu estimado amigo não me apareça de novo. Se na época, quando estava vivo, a visagem me deixou perturbado, imaginem hoje...
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 10 de março de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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