Avesso à autopromoção, a bajulações e aos elogios fáceis, o meu amigo jornalista Ademilson José preza por se manter discreto e distante de qualquer estrelismo pessoal. Não é nenhuma falsa modéstia. É da sua natureza querer sempre passar e estar despercebido. Dos que conheço, ele é um dos raros intelectuais paraibanos que fogem dos merecidos confetes que teimam a ser arremessados. Ademilson prefere ser somente mais um em meio ao todo. Não é timidez; é conceito de vida.
Ele é consciente do seu potencial e da qualidade em tudo o que faz e já fez pelo mundo das letras, do pensamento e da cultura. Talvez, por isso mesmo, Ademilson não sente a necessidade de ficar fazendo propaganda de si mesmo. Não faz questão de reconhecimentos. Tanto que já me repreendeu – e se irritou do jeito dele, quase calado – quando resolvi listar suas qualificações, o que não são poucas. “Sou tudo isso?”, ironizou certa vez e, com sua peculiar educação, me repreendeu: “Faça isso, não! Vão acreditar nisso”.
Mais uma vez vou me arriscar a receber outro puxão de orelhas do autor do hino de ‘As Raparigas de Chico’, um dos blocos mais populares – e em crescimento anual – do Carnaval de João Pessoa. Lá vai: Ademilson José não é somente um jornalista, editor, radialista, apresentador e entrevistador de programas de tevê; somam-se às suas habilidades e formações a de músico, compositor, filósofo, administrador, escritor, pesquisador e historiador.
No campo da literatura, em breve uma nova obra de Ademilson José estará à disposição do público leitor. O romance ‘Sanhauá – Histórias e estórias da origem da Paraíba’, cujos originais tive o privilégio de ser um dos primeiros a passar os olhos, será, sem dúvidas, mais um item marcante na literatura paraibana. Na obra, o autor consegue inserir de forma cronológica os amores e relações ficcionais nos fatos reais ocorridos na formação do que hoje conhecemos como Paraíba. Um romance fantástico e intrigante. Num futuro próximo, os leitores constatarão que não estou exagerando.
No ainda inédito livro – e longe de propagar algum spoiler –, um pequeno trecho de um dos capítulos do ‘Sanhauá’ chamou-me especial atenção. Trata-se de um tema recorrente na minha coluna semanal neste espaço da seção Memorial do jornal A União. Mistérios, fenômenos, finitude, saudades, medos, passado, futuro, o inusitado, o transcendental, entre outras coisas da vida e do oculto, são a matéria prima dos meus relatos semanais.
Nesse trecho aludido do livro de Ademilson, ele trata da Fortaleza de Cabedelo, por volta do ano de 1635, quando da ocupação holandesa na Paraíba. Por essa época, a Fortaleza de Cabedelo ficou sendo uma espécie de refúgio para portugueses que resistiam em aderir ao domínio holandês. A construção também concentrava portugueses porque “Cabedelo era o local de maior movimento de caravelas e de oportunidades de fuga”. Ademilson relata que havia períodos em que os portugueses até se trancavam na Fortaleza. Mesmo os holandeses, que eram Calvinistas, não proibindo o Catolicismo dos portugueses, os lusitanos “preferiam desenvolver seus cultos e suas pregações religiosas de forma isolada e mais à vontade”.
Todavia, nas noites de lua cheia, “conforme relatos da época, não se trancavam somente na Fortaleza, mas também nos cubículos internos em que viviam”. E, segundo Ademilson registra, não era somente para se isolarem dos inimigos holandeses. “No período da noite, se isolavam também com medo de lobisomem e de outras aparições misteriosas que, durante o dia, eram relatadas por moradores mais antigos da fortificação”.
Aí vem o trecho que mais gostei: “Além de lobisomem, falava-se também da alma penada, uma mulher de branco que, nas noites escuras, costumava ser vista cruzando o pátio da Fortaleza sem ter os pés no chão. Essa mulher seria Genoveva, uma portuguesa morena e muito bela que, anos antes, em plena flor da idade, havia sido abusada, torturada e morta no pátio da Fortaleza por desafetos do marido dela”.
Os prolongados isolamentos dos portugueses nos cubículos da fortificação, conforme registra Ademilson, também eram resultado do medo aos grupos de indígenas potiguaras, aliados dos holandeses, que estavam sempre rondando a área. Aí vem o mais impressionante: “Às vezes, demoravam tanto a sair desses cubículos que alguns chegavam a morrer de sede (...) Tinham comida, mas não tinham água”.
Isso é só uma “pitada” do novo romance de Ademilson José. Aguardemos o lançamento do livro!
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 19 de maio de 2026) – Foto: Reprodução – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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