A madrugada já estava posta. O silêncio do mundo era quebrado apenas com os meus passos acelerados de quem voltava pra casa um tanto frustrado por não ter vivido uma noite de boemia satisfatória. Nem tudo sai do jeito que a gente planeja. Os encontros não foram os esperados; os goles de cerveja não desceram prazerosos como em outras noitadas; e até as três partidas de bilhar no Bar Pinguim foram desastrosas. O jeito foi abortar a esbórnia pretendida e pegar o rumo de casa.
Fora a quietude daquela escuridão de um céu de estrelas apagadas e ávido pelo amanhecer, o barulho dos passos era apenas acompanhado pelo vento gelado que me faziam lembrar das orelhas e do nariz: duas partes do corpo que funcionam como termômetros e nos fazem querer chegar logo em casa, na busca pelo abrigo dos cobertores. E como estava frio!... Mas faltava pouco. Mais uma esquina à esquerda, mais uma pequena caminhada e lá estaria o lar, doce lar.
Ao chegar nessa esquina, levanto a cabeça e vejo que, a uns cinquenta metros, em sentido contrário vindo em minha direção, o meu irmão também caminha célere de volta pra casa. Logo deduzo que a boemia dele também não foi muito boa pras bandas de onde ele estaria vindo. Apenas levanto a mão em cumprimento, ele retribui o gesto, abaixo a cabeça e continuo a minha peregrinação em busca do conforto da cama quentinha.
Chegando à porta de casa, percebo que esqueci de levar minha chave. Não me lamentei muito, pois Totonho, meu irmão, estaria chegando, já que eu o avistara a poucos metros de mim. Pegaria carona nas chaves dele. Todavia, os segundos foram se acumulando e, quando se tornaram minutos, me desesperei, imaginando que Totonho havia desistido de chegar em casa e emendar sua farra notívaga para outros cantos. Não teve jeito. Comecei a bater na porta para chamar a coitada de minha mãe. Logo a porta se abre e quem aparece para me socorrer?... Meu irmão Totonho, com uma cara amarrotada de sono, irritado, inquirindo-me do porquê não estava com minhas chaves.
Atônito e sem entender aquela situação, ainda cheguei a perguntar por onde ele teria entrado em casa, já que estaria atrás de mim. Seria uma brincadeira comigo? Queria me deixar perturbado? Totonho se limitou a dizer que eu estava louco, explicando que passara o dia e a noite em casa. Não teria saído para canto algum. Então a ficha caiu e percebi que naquela rua deserta o que eu avistara foi qualquer coisa, menos o meu irmão. Foi uma visagem. A criatura que apareceu pra mim se travestiu de meu irmão... Eu vi seu rosto claramente, seus trejeitos ao caminhar e suas roupas conhecidas, inclusive com aquela jaqueta de couro preta com botões que aparentavam prata verdadeira. É, foi uma visagem! Uma pegadinha de algum ser desencarnado, de quem já não estava mais materialmente neste mundo. De uma coisa tenho certeza: que eu vi o fenômeno com toda clareza... E não estava bêbado.
Acredito que muitas pessoas já passaram por experiências semelhantes. Aparições sobrenaturais, de fantasmas ou vultos são mais comuns do que a gente imagina. Em outras oportunidades, vou relatar mais episódios envolvendo essas aparições sem muitas explicações. E só pra dar um ar de assunto rebuscado, o termo visagem tem origem no Latim: visio (ação de ver); e no francês antigo: visage.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 3 de março de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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