A idade vai avançado e a tendência é ficarmos menos pacientes com certas coisas que, num passado mais recente, dávamos importância maior. O andar da carruagem da vida acaba por nutrir a ideia de que não se deve perder tempo, principalmente com besteiras. Fica-se mais seletivo. A capacidade de escolher com mais critérios passa a ser valorizada. É quase uma transformação orgânica. A quantidade não é mais prioridade e o método das coisas passa a ser a qualidade. No início, é um processo quase imperceptível. E de repente você se dá conta de que seu sistema, seu processo de avaliação, mudou. Talvez aos olhos dos outros, você se torna um chato... Quem sabe, um ranzinza a mais na face da Terra. Até a sensibilidade muda: mais emotivo para certos assuntos, ações ou fatos; e áspero e cético para outros temas.
Começamos a filtrar tudo: os relacionamentos; as amizades; as oportunidades; o que, teoricamente, agrega mais valor – ou não. Galga-se blindar mais sua energia – o que já não é tanto como outrora. Proteger seu tempo é um dos processos que criamos para a busca da chamada paz mental. Isso não quer dizer que se está a construir um quotidiano de isolamento. Acredito que seja, de fato, a maturidade fixando morada no seu ser. Ser seletivo (e exigente, até) é, na minha concepção, erigir o respeito próprio e consolidar de vez a sua consciência no que diz respeito aos valores que cultiva.
Muda tudo! Todavia, no meu caso, uma coisa não tem dado sinais de que está mudando; ao contrário, tem-se intensificado de tal maneira que começo a ficar receoso em me transformar num velho-chorão... Continuo me emocionando a fundo com frases que me tocam; com cenas de um filme que me chama a atenção; com fotografia antiga onde aparecem pessoas que convivi no passado; com um casal desconhecido de mãos dadas, se enamorando debaixo de uma parada de ônibus qualquer; com a gentileza gratuita de uma pessoa para com outra em meio ao turbilhão do dia a dia; e, principalmente, com livros e textos aleatórios que surgem à frente dos meus olhos já cansados. Mais emotivo, tenho chegado às lágrimas com facilidade. Mais do que ocorria anteriormente.
Algo assim me ocorreu com bastante intensidade na última sexta-feira, na edição do dia 13 de março de 2026 do jornal A União, quando, neste mesmo espaço da seção Memorial, tive o prazer de ler um primor de texto produzido pelo amigo sociólogo e antropólogo Carlos Azevêdo. Uma crônica que me levou às lágrimas. A maestria de Azevêdo em sintetizar as palavras e as ideias no contar de uma história, conseguindo cutucar nossos sentimentos, é extraordinária. Poucos são aqueles que conseguem dizer tudo em tão pouco espaço, com escassas letras... Eu que o diga, que vivo lutando contra a minha tendência de ser tão prolixo. Chego a invejar quem consegue ser sintético no que escreve. Quem sabe um dia chego lá!
No texto ‘Réquiem por uma prostituta’, Carlos Azevêdo “antecipou” um tema que estava programando para ser tratado nesta coluna em um futuro próximo. Planejava falar do fato de que temos a pretensão de achar que estamos num mundo em que somos o centro das atenções, no controle de tudo, de que não estamos sozinhos e que em tudo que fazemos estamos acompanhados por muitos... Ledo engano. Por mais que tenhamos familiares, amigos, colegas de trabalho, conhecidos... Na verdade, estamos sozinhos. E tudo nesta vida acontece de maneira solitária. Nos momentos cruciais estamos – e estaremos – sós, principalmente na morte. Num suposto diálogo com o poeta maior Augusto dos Anjos, Carlos Azevêdo nos lembra: “Morremos como nascemos, sozinhos”.
Em ‘Réquiem por uma prostituta’, Carlos Azevêdo nos provoca a estar dentro daquela casa com o caixão da morta, no coração do Beco do Mijo. Nos obriga a ser um dos que devem pegar numa das alças do caixão. Os lábios pintados de vermelho da quenga chegam até nos seduzir por alguns instantes libidinosos, porém caímos na real, lembrando que a “doença do mundo” matou aquela “desgraçada que não tinha ninguém por ela”. A prostituta morreu sozinha. Sem ninguém, até para levar o que restou do que antes estava vivo para ser consumido pelos vermes do Cemitério Senhor da Boa Sentença.
É isto: somos um bando de solitários pretenciosos, achando que estamos sempre acompanhados. Solitários que se juntam para viver em sociedade. Um disfarce para esconder a solidão de cada um. Tudo se faz e se sente sozinho, com o consolo de que alguém está dividindo aquilo com você. Até mesmo o gozo sexual é egoísta. Acompanhado ou não. Geralmente precisa-se de uma outra pessoa para o ato sexual. Um estimulando o outro. Porém, naqueles segundos de gozo, de êxtase, é só você. Só depende de você. O prazer é o suprassumo do egoísmo humano.
No momento da morte, então, nem se fala. É só você e ela. Morrer é um ato solitário, independente da causa que leva ao apagamento das energias do seu corpo, das suas células. A morte é a rainha do egoísmo humano.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 17 de março de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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