No entendimento e nos estudos da doutrina espírita, os animais possuem alma e, após a morte, eles seriam recolhidos por espíritos benfeitores para uma colônia espiritual, onde se recuperam de dores e sofrimentos, voltando à vitalidade de sua juventude para aprender e evoluir, podendo reencarnar em outra espécie ou na mesma. E o melhor: reencontros com seus tutores são possíveis através do amor, sendo a morte apenas uma transição para o aprendizado contínuo.
Minha mãe, dona Elza, além de ser espírita e desenvolver uma mediunidade considerável, possuía uma sensibilidade fora do normal com os animais. Melhor dizendo, a relação dela com qualquer ser vivente era impressionante. Em vida, exalava uma energia positiva e cativante que envolvia a quem estivesse próximo a ela, inclusive os animais irracionais. E quando falo animais, não estou me referindo somente a cães e gatos ou outros bichinhos domesticados, como cavalos, bois, galinhas, pombos, carneiros... O fenômeno em torno de minha mãe abrangia animais silvestres e – acreditem – até mesmo insetos, répteis e anfíbios... Animais que, na grande maioria das pessoas, causam asco e medo, como sapos, serpentes, aranhas...
Costumava brincar chamando-a de “São Francisco de saias”. Era impressionante como ela atraía os animais. Não podia passar por um pasto, por exemplo, que logo chamava a atenção de equinos e bovinos... E só ficavam satisfeitos depois de serem acariciados. Pelo quintal de nossa casa, que era bastante extenso, a caminhada de dona Elza era cercada por toda espécie de aves: galinhas, pombos, passarinhos, gaviões e até urubus começavam a baixar seus voos... Borboletas, besouros e joaninhas, então, realizavam uma espécie de dança em torno de dona Elza, fazendo lembrar aquela famosa cena do desenho de Branca de Neve na floresta, cantando e dançando com passarinhos, esquilos, lebres e veadinhos saltitantes...
Não estou exagerando. A atração dos animais por minha mãe era muito forte. Um magnetismo inexplicável. Era tão intenso que muitas vezes dava medo ficar perto dela quando andávamos pela rua, na zona rural ou em matas. Meu medo era a aproximação de cobras, escorpiões e mamíferos selvagens. Sei que muita gente pode não acreditar neste meu relato ou, pelo menos, pensar que estou ampliando os fatos. Mas eu vivenciei isso. Certa vez, em passeio ao Jardim Zoológico de Belo Horizonte, em 1981, presenciei a inquietação dos gorilas e outros primatas quando da aproximação de minha mãe ao cárcere daqueles infelizes animais condenados à prisão sem nunca terem cometido nenhum crime.
Imaginem, então, quando se tratava de animais mais comuns à vida de todos, como cães e gatos. Nossa casa sempre teve muitos cachorros e bichanos. Todos recolhidos das ruas e adotados. Gatos de todas as cores e tamanhos. Cães, em sua maioria, eram vira-latas (os famosos caramelos). Mas tivemos perdigueiros, pastores-alemães e mestiços de buldogues, dálmatas, dobermans... Tinha de tudo. O que havia em comum entre eles era o “agarramento” com minha mãe. Alguns deles, principalmente os cachorros, entraram para a história. Como foi o caso de Panther, um vira-lata de pelagem baixa, fios crespos e nas cores branca e preta, que acompanhava colado à minha mãe, vinte e quatro horas por dia. Ele era o único animal autorizado a entrar na agência do Banco do Brasil lá de minha cidade, a mineira Três Corações. Panther acompanhava e “fazia a segurança” de minha mãe em dia de pagamento na boca do caixa.
Um desses cachorros marcantes foi Jhulie, um lindo vira-latas de pequeno porte, também com manchas brancas e pretas, porém com pelos finos, longos e brilhantes... Parecendo “cachorro de rico”. Grudado à minha mãe, deve ter vivido por cerca de quatorze ou quinze anos. Morreu de velhice, no início da década de 1980. Aliás, na noite de sua morte, eu e meu pai improvisamos um leito de morte num canto da cozinha. Quando Jhulie ficava prestes a dar o último suspiro, minha mãe se aproximava chorando. E ele passava a se recusar a desencarnar, ao ouvir a voz e o choro de dona Elza. Jhulie só “desistiu” da vida depois que tivemos que, literalmente, trancar minha mãe em um dos quartos da casa.
Assim, Jhulie partiu e, quem sabe, já no mundo espiritual, se recusou a reencarnar e ficar à espera da sua tutora que tanto amava. Minha mãe morreu em outubro de 1989.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 16 de dezembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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