— Eram vacinas complexas do ponto de vista logístico, tínhamos que trazer muitas, em condições complicadas. Por terem sido produzidas muito rápido, não tinham conservantes e teriam que ser acondicionadas a 70 graus abaixo de zero— recorda-se.
Passado o desafio inicial — debelado pela alta demanda pelas vacinas e mais caixas transportadoras que protegeram as doses na temperatura certa — Marta agora se permite observar a realidade sob uma análise mais positiva. — Não estamos mais em 2020 — diz, referindo-se ao ano em que a pandemia correu sem vacinas, medicamentos nem boas estratégias terapêuticas. Acredita, inclusive, que o período pandêmico acabou, resta uma doença circulante. Em entrevista ao GLOBO, falou sobre a produção brasileira da vacina da Pfizer, reforço para bebês, do impacto dos grupos antivacina e que 2023 será um ano de “transição”, para as doses de reforço. Confira trechos da entrevista.
O Brasil adquiriu 150 milhões de doses de vacina em 2022. Por volta de 43% desse total será de imunizantes bivalentes (adaptadas para cepa ômicron). Quando será suficiente para o país entrar em uma situação confortável?
É difícil definir o que é um momento mais confortável, né? A pandemia acabou, mas a doença (Covid-19) não. E não sabemos se vai acabar, essa é a realidade. Tudo aponta que a doença vai ficar de forma endêmica para muitos países. Se vai ser uma vacinação anual também não sabemos. Quanto aos contratos de compra de vacina e ao aditivo assinado em 30 de dezembro (de 50 milhões de doses bivalentes, a serem entregues até junho), acho que o Brasil está confortável para este ano sem nenhuma dúvida. O país tem as doses que precisa para este ano. Para 2024 ainda é cedo para falar.
A Pfizer planeja descontinuar a vacina com a cepa original?
Temos que considerar que a vacina bivalente tem aprovação somente como dose de reforço. As doses iniciais, no momento, têm que ser oferecidas com a vacina original. Alguns países utilizam essa, o Brasil também. A vacina monovalente ainda tem seu espaço. A tendência é ir mudando e permaneça a vacina bivalente, mas neste momento há pessoas sem vacinação que têm que usar a vacina monovalente.
Quando a Pfizer pedirá o pedido de autorização de uso de vacina bivalente para crianças com menos de 12 anos? E para os bebês a partir de 6 meses, haverá reforço?
Temos aprovação de vacina bivalente a partir de 12 anos. Já submetemos à Anvisa o pedido para uso da vacina bivalente de 5 a 11 anos, como reforço. O reforço da “baby”, ainda estamos preparando os dados, não temos a data que faremos esse pedido.
Qual é a análise que é possível fazer do atual momento em relação à da disseminação de Covid-19 do volumes de mortes?
A pandemia acabou e não estamos mais em 2020, isso está muito claro. Estamos num ano em que há uma doença que temos que aprender a conviver, a coisa boa é que temos vacinas e temos antivirais. Temos ferramentas para combater a pandemia e a doença por si só. Não devemos inclusive nos acomodar no fato de que há um antiviral, a vacina segue como ferramenta número um. A prevenção é o principal, mas ainda há pessoas que ficam muito doentes. Para as pessoas que ficam doentes com algum agravamento, a exemplo de quem é idoso ou imunossuprimido, há um antiviral para elas. Temos ferramentas para evitar as mortes. A situação nos passa mais segurança.
Por falar em grupos de risco, ainda se oferece doses de reforço para pessoas jovens e saudáveis. Chegando à quarta aplicação. Caminhamos para um futuro de revacinação de todos?
Cada país vai tomar sua decisão, os programas de vacinação são de responsabilidade de cada governo. O que eu tenho ouvido é que deve-se encaminhar para uma vacinação para grupos de risco, como ocorre em outras doenças, caso da influenza. Defender o que são grupos de risco caberá aos governos. É uma decisão que envolve custo de vacinar e risco de não vacinar toda a população. Provavelmente 2023 será um ano de transição, quando o governo decidirá quem recebe as doses e quem não recebe. Inclusive até o Ministério da Saúde está mudando, neste momento.
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