Fazer as coisas em vez de só pensar nelas. Na prática, isso é considerado um dos componentes das vivências de uma vida, o que duas pessoas essenciais na minha existência tinham de sobra: meu tio Wilson e meu irmão Totonho. Ambos eram inventivos, resolutivos, criadores, pensadores, aventureiros e sonhadores. Inteligentes, pesquisadores, experimentadores, com múltiplas habilidades, passaram a vida em busca do sucesso de suas empreitadas, mas quase tudo terminava em frustração e rendia boas risadas. Voluntariosos e “inventores”, eram engraçados sem fazer força, mesmo atuando seriamente em suas obsessões por “se darem bem”. Heróis às avessas. Tachados de malucos, eram Macunaímas míticos, mas com muito caráter e sem contradições.
Carteiro profissional, tio Wílson sempre estava preocupado em economizar e arranjar uma forma de ganhar um dinheiro a mais e, quem sabe, ficar rico. Com espírito empreendedor, certa vez inventou de abrir uma “fábrica” de pregadores de roupas artesanais no quintal de casa. Com um canivete que até então utilizava apenas para picar seu fumo-de-rolo para o cigarro de palha, passou a esculpir os pregadores em pedaços de madeiras que recolhia nas redondezas. Após um certo tempo, desistiu da sua “fábrica”, com as mãos massacradas por ferimentos e calos dolorosos. Nem vou contar da sua “fábrica” de facas esculpidas no esmeril em pedaços de linhas de trem abandonas...
Fazendo horas-extras como apontador do jogo de bicho e cobrador oficial de mensalidades atrasadas de caloteiros dos dois clubes sociais da cidade (a Praça de Esportes, dos pobres, e do Clube Três Corações, da elite), tio Wilson também tinha lampejos de “investidor”. Sabendo que meu pai havia adquirido um torno inglês (ferramenta de bancada para segurar objetos com firmeza, cuja numeração geralmente vai de duas a dez polegadas), tio Wílson resolveu ajudar meu pai a obter lucro. Vendeu a ferramenta do meu pai a um interessado ao preço de um torno de número cinco, sendo que o torno do meu pai era de número três. Negociou sem meu pai saber e, na noite daquele dia, foi fazer a surpresa entregando o dinheiro do lucro da transação. “Tá vendo, você fez um grande negócio”, disse contente, entregando o dinheiro apurado. “Mas quem disse que eu queria vender o meu torno, Wilson?”, respondeu incrédulo o meu pai, que demorou alguns meses para perdoar o cunhado.
Mesmo sem muito estudo, tio Wilson se achava um economista. Sempre tirava das mangas uma fórmula perfeita para baixar custos e obter “estratosféricos” dividendos. Quando um dos seus filhos – meu primo Luís Cláudio – resolveu virar atleta, pediu ao pai que lhe providenciasse umas vitaminas e material esportivo (tênis, calção e camisetas) para treinar nas ruas em preparo a uma minimaratona. Visando um melhor custo-benefício, tio Wílson afastou as cadeiras da grande mesa oval que ficava na copa da casa e instruiu Luís a treinar descalço, correndo em torno daquela mesa. Quanto às vitaminas, consultando que os produtos estavam muito caros nas farmácias, chegou de noite em casa carregando nos ombros uma grande saca com laranjas que ganhou de um amigo. “Olha aí sua vitamina! Além de ser um alimento, laranja tem bastante vitamina. É só descascar e chupar”, receitou.
Ainda na linha do economista, aproveitou suas andanças como carteiro pelas ruas da cidade e, entre a entrega de uma carta e outra, ia catando pelo caminho pedras (principalmente paralelepípedos perdidos) e acomodando-as na sua bolsa de carteiro. Enquanto a bolsa se esvaziava de papel das correspondências entregues, se enchia das pedras e pedregulhos que ele ia juntando no quintal para serem utilizados na base de uma casa que ele planejava construir em outro bairro. Chegava do trabalho exausto, mas feliz pela economia por não ter que comprar as britas. Demorou, mas um dia ele “construiu a nova casa”, que ficou somente na base.
Ansioso contundente e sempre agitado, se estressava com facilidade. E essa química às vezes o deixava confuso, distraído e até mesmo imune às dores. Certa vez, para economizar nos gastos, resolveu ele mesmo instalar uma cerca de arame farpado. Na pressa, tensão e estafa, utilizando um alicate, prendeu um dos próprios dedos no mourão da cerca. E só sentiu a dor na hora de afastar: “Putaquipariu! Vou ter que tirar e fazer de novo. Vou perder um grampo...”, lamentou-se pelo prejuízo do material.
Num outro episódio, estávamos todos reunidos na casa de minha vó para um almoço da família. Tio Wílson chegou atrasado, ainda vestindo o uniforme de carteiro, mancando e alisando a perna direita, informando que havia sido mordido por um cachorro. Todos ficaram comovidos com a dor que ele estaria sentindo e pedimos que mostrasse a mordida. Gemendo de dor, foi levantando a perna direita da calça e não vimos nada. E ele se corrigiu: “Ah, não. Não foi nessa perna”. A mordida tinha sido na perna esquerda, mas ele estava sentindo dores na direita... No próximo texto, contarei as peripécias do meu irmão Totonho.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 18 de agosto de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
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