Artigo: Pecar exige conhecimento – Giovanna Barroca de Moura

Publicado em: 21/08/2026 às 20:40
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O tema dos sete pecados capitais sempre me puxou pela manga, como esses assuntos que, quando a gente pensa que ficaram para trás, voltam a bater à porta. Talvez porque, apesar de antigos, eles continuem circulando por aí, esbarrando em nós, disfarçados de hábitos, impulsos e pequenas distrações do cotidiano.

Nestas crônicas, não quero falar do pecado como ofensa a Deus ou simples quebra de mandamentos – Deus me livre desse pecado. O que me interessa é outra coisa: aquilo que fazemos quando ninguém está olhando. Como diz a canção, “o que você faz quando ninguém te vê fazendo”. É justamente nesse instante que a gente escorrega em si mesmo.

Às vezes, o pecado nasce pequeno: um engano dito às pressas, um lapso que escapa pela boca, um ato falho, um excesso, uma vontade torta. Nada grandioso. Quase nunca ele entra fazendo barulho. E são justamente esses movimentos mínimos, espalhados ao longo do dia, que acabam revelando mais sobre nós do que gostaríamos.

Gosto de pensar o pecado como sombra. E sombra, todo mundo sabe, só existe porque há luz. Onde um aparece, o outro já está por perto. Pecado e virtude vivem assim: parede com parede, respirando o mesmo ar, como duas faces da mesma moeda. É nessa dobra da vida que quero entrar: no trabalho, nos afetos, na educação, nos relacionamentos, no cansaço das rotinas, justamente onde quase nunca percebemos que estamos sendo postos à prova.

Falar de pecado hoje pode soar provocação. A palavra parece fora de moda, empoeirada, como um móvel antigo esquecido num canto da casa. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção e lá está ele outra vez, atravessando romances, estudos científicos, filmes, conversas de bar, salas de aula, grupos de família, congestionamentos e silêncios mal resolvidos. Mora no ciúme mal explicado, na crítica disfarçada de preocupação, na palavra que seguramos e, principalmente, naquela que não deveríamos ter dito.

Mudam os nomes. Mudam as roupas. Mas os pecados continuam frequentando a rotina, o vocabulário e os pensamentos de muita gente.

Talvez por isso falar sobre eles continue sendo uma tentação. Porque, no fundo, a ideia de pecado nunca pertenceu apenas às religiões. Todos nós conhecemos intimamente algum deles – seja como vítima, seja como artífices.

E talvez o pecado só comece de verdade quando encontra a consciência.

O bom pecador, se é que existe um, é aquele que sabe exatamente o que está fazendo e, ainda assim, continua. Percebe o passo em falso, mas avança do mesmo jeito. Há uma espécie de vertigem nisso: o instante em que a consciência avisa, mas o desejo fala mais alto.

Quem nunca?

Pecados distraídos, cometidos sem querer, quase não entram na conta. Só ganham peso depois, quando o desavisado olha para trás e reconhece o próprio rastro.

E como é confortável viver sem perceber! A ignorância poupa esforço, anestesia a culpa, alivia o espelho. O difícil começa depois: quando o erro ganha nome, quando a culpa se senta ao nosso lado e já não basta fingir que não foi conosco.

É aí que a vida exige outra coisa. Não o remorso estéril, mas o trabalho silencioso – e quase sempre doloroso – de trocar o pecado pela virtude.



Fonte: Espaço PB – Giovanna Barroca (giovannabarroca@gmail.com) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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