Não bastava ser sensível e competente às artes da pintura, da cerâmica e da escultura. Alimentar sonhos um tanto impossíveis, travestidos de empreendedorismos, também fazia parte do seu quotidiano. Sempre estava a inventar e colocar em prática seus experimentos e invenções. Marcos Antônio, o meu irmão Totonho, vivia a criar teorias e práticas não muito ortodoxas. A exemplo do meu tio Wilson (um Magaiver às avessas), Totonho sonhava em ganhar dinheiro com suas estripulias e engenhocas. E nem era só pelo dinheiro, mas por querer ficar famoso criando algo que iria satisfazer as pessoas do mundo.
Uma vez resolveu construir sua própria piscina no quintal de nossa casa. Utilizando material “emprestado” do meu pai – que ao descobrir ficou uma fera –, Totonho edificou com quase um milheiro de tijolos maciços e muito cimento uma piscina acima do solo (a inovação era não fazer buraco), com grossas paredes de um metro de altura e no formato de elipse. Não sei quantos litros d’água eram necessários para encher aquele negócio que lembrava uma maquete de estádio de futebol, mas nos divertimos muito na nossa modesta piscina.
Com o tempo, ele resolveu utilizar o tanque para ser um criadouro de girinos, “inaugurando”, assim, a sua empreitada no negócio de carne de rãs. Todavia, o empreendimento deu n’água. Ele não previu dois problemas: primeiro, não sabia identificar o que era sapo ou rã; depois, esqueceu da grande quantidade de galinhas que meu pai criava soltas no quintal: houve um “genocídio” por parte das galináceas, assim que os sapinhos começaram a saltitar.
No mundo das águas, ele uma vez quis criar umas técnicas de salvamento para quem estaria se afogando. No caudaloso e de forte correnteza do rio que fluía próximo aos fundos do nosso quintal, ele me utilizou como “vítima” (eu tinha cerca de seis anos de idade e ainda não sabia nadar). Primeiro, perguntou se eu queria aprender a arte de Michael Phelps. Com minha anuência, ele me pegou pelos pés, rodopiou e me atirou na correnteza. Pulou na água instantaneamente e me resgatou com um aparato que inventara com cordas e couro, evitando que fosse acusado de cometer fratricídio. Lamentou-se pelo equipamento que não funcionou ao modo que ele imaginara, pois quase morri enforcado pelas cordas durante o resgate. Precisava fazer uma segunda tentativa. Alterou “as falhas” do seu equipamento, pegou-me novamente pelos mocotós e me atirou até mais longe. Meu pânico foi tão grande que saí nadando feito um peixe. Acreditem: foi assim que aprendi a nadar – e muito bem! E ele ficou sem uma cobaia para o seu invento.
Ainda acerca do mundo das águas, certa vez ele fabricou com restos de tábuas de madeira e pregos uma mini canoa destinada ao público infantil. Para saber se a comercialização do empreendimento iria dar certo, a cobaia da vez foi a nossa sobrinha, Carine Rezende, à época com pouco mais de dois anos. No mesmo rio de forte correnteza – o Rio Verde –, Totonho amarrou uma longa corda na canoa pintada de azul (a ideia era confeccionar canoas pintadas de azul para os meninos e de rosa para as meninas) e soltou a embarcação artesanal rio abaixo. Antes, ordenou que eu acompanhasse a descida de Carine pela correnteza (que inocentemente sorria de alegria com a “brincadeira” dos tios), caminhando pela margem e funcionasse como salva-vidas. Claro que segundos depois o objeto navegante começou a afundar e tive que mergulhar e recolher a “menina dos testes” – aí eu já nadava com desenvoltura depois daquele aprendizado forçado no passado. O negócio “naval” de Totonho não deu certo e a canoa protótipo foi vendida a preço de banana a um dono de boteco, que a utilizou como decoração para ser apreciada por bêbados e boêmios em seu estabelecimento.
Mesmo longe dos perigos do Rio Verde, Totonho mantinha a cabeça efervescente por ideias e invenções que poderiam levá-lo à riqueza e à fama. E, claro, eu sempre estava nos seus planos, ou como cobaia ou simples ajudante. Ia de coisas simples, como ser o seu catador oficial de galhos e gravetos pelos matos que aparentavam formato de serpentes, que ele utilizava para esculpir, pintar e “dar vida” a cobras-corais, cascavéis, jararacas, surucucus e jiboias; a empreendimentos mais complexos no mundo da culinária: ele inventou um doce de pipoca endurecido e compactado por uma calda preparada à base de água, açúcar e suco de limão (roubado das vizinhanças – trabalho, honrosamente, destinado a mim). As serpentes de mentirinha até que renderam um bom lucro, mas deixadas de lado depois que ele não conseguia mais parentes que as comprassem por piedade. Já o projeto do doce revolucionário de pipoca se esvaiu após os insumos oriundos da dispensa de minha mãe acabarem.
Continuo com o tema no próximo texto, com os sonhos e empreendimentos do meu irmão Totonho, desta vez, voltados para os céus e o espaço sideral.
Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, na edição do dia 25 de agosto de 2026) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com
Comentários: