Antropólogo e sociólogo Carlos Azevêdo lança livro de crônicas

Publicado em: 30/08/2026 às 20:40
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A obra do paraibano Carlos Alberto Farias de Azevêdo, ou “simplesmente” o cientista social, antropólogo, arqueólogo e educador Carlos Azevêdo, é extensa e heterogênea, dividindo-se em vários campos em que conhece profundamente e atua incansavelmente até hoje, no alto dos seus 86 anos. Dominando uma meia-dúzia de línguas, com ênfase no alemão, o professor, nascido no Bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, procura afastar os rótulos de intelectual e de pensador, mas trafega com a mesma desenvoltura em diversas vertentes: literatura, história regional, crítica literária, tradução, arqueologia, antropologia e patrimônio histórico.

‘Réquiem para uma prostituta e outras crônicas’ é o título do novo livro que Carlos Azevêdo lança nesta segunda-feira (31), às 18h, na livraria da Editora Ideia, localizada à Avenida Juarez Távora, 1369, no Bairro da Torre, na capital paraibana. A publicação reúne uma coletânea de sua produção literária extraída da sua coluna semanal publicada todas às sextas-feiras no jornal A União, na página do Memorial, onde estreou em 2019.

Os textos semanais de Carlos Azevêdo no Memorial de A União têm proporcionado ao leitor, nos últimos oito anos, verdadeiras aulas: de comportamento social; filosofias de vida e política; cultura; religião e crenças; e, principalmente, de história. Muita história. E muitas revelações até então desconhecidas por muitos. Ocorrências relevantes de sua trajetória de vida e da memória político-social da Paraíba, do Brasil e do mundo. Um universo “carlosazevediano”.

Seus artigos mexem com intensidade o imaginário dos leitores, a exemplo de quando registrou que a Escola Técnica de Comércio, em João Pessoa, que funcionava no antigo palacete de Ademar Vidal, foi “onde, em fins de dezembro de 1928, o escritor e etnógrafo Mário de Andrade se hospedara, fugindo dos mosquitos e muriçocas que infestavam o Hotel Luso-Brasileiro, no Varadouro”. Ou seja: “Ninguém, ou quase ninguém, sabia que o autor de ‘Macunaíma’ passara quinze dias no solar do doutor Vidal.”.

Em outro texto, ‘Tempo morto (1964)׃ fuga’, ele conta que, fugindo da perseguição da ditadura militar, foi “se esconder no lugar errado. Na casa de uma burguesa neurótica”, que se queixava o dia inteiro. “Reclamava do sobrinho, da empregada, de mim, do mundo. De tudo e de todos”. A “neurótica” disparava: “Quero que você deixe esta casa hoje. Já basta ter que acoitar o meu sobrinho, um comunista safado”. Assim, Carlos Azevêdo partiu para Recife, recorrendo ao seu amigo Heinrich von Gestern, o “Alemão”, que estava morando na Praia do Pina.

Detalhe: para imprimir sua fuga, Marina Varandas, uma tia de Carlos Azevedo, arranjou uma batina velha para ele, tinha sido de um seminarista da família Abath. “De batina, batina folgada, dançando no meu corpo, tomei o ônibus para Recife”. Na viagem, ele se sentou junto a uma senhora ainda jovem, simpática, atraente, “muito atraente mesmo”, que se dizia devota de Santo Expedito. No fim da viagem, os dois terminaram se beijando, se acariciando.

Carlos Azevêdo é um dos principais intelectuais da Paraíba ainda em plena produção. Ele nasceu em João Pessoa, mas na juventude se transferiu para a capital pernambucana, Recife, para estudar e trabalhar. Lá, formou-se em Sociologia e Política, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Depois, se especializou em Antropologia Cultural e Pesquisa Social.

Azevêdo chegou a Recife por meio de um convite formulado pelo prestigiado Gilberto Freyre, no antigo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) – hoje, Fundação Joaquim Nabuco. Lá, ele exerceu a função de antropólogo, dirigindo durante dois anos o Museu de Antropologia do IJNPS. Na capital pernambucana, Azevêdo também fez sua carreira docente, lecionando a disciplina Antropologia Cultural, na Universidade Católica de Pernambuco (PUC/Recife).

Marxista, foi perseguido pela ditadura do governo militar (AI-5, de 1969), preso e torturado e, em 1974, transferiu-se para Berlim, na Alemanha, onde continuou seus estudos em Antropologia, Sociologia, História da Arte Primitiva, Arqueologia Clássica e Literaturas Românicas na Universidade Técnica de Berlin (TU). Foi nesse período também que passou a ensinar no Instituto de Estudos Latino-Americanos, da Universidade Livre de Berlim (FU), de 1978 a 1999. Foi docente também da Hochschule Bremen (International Studies of Global Menagement), para ministrar aulas de introdução à cultura brasileira.

Após esse extenso período morando fora como pesquisador e docente, Carlos Azevêdo volta para João Pessoa. O que parecia uma aposentadoria transformou-se em outro consistente percurso, dessa vez trabalhando como antropólogo. Desde 2000 até o presente, ele integra os quadros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep).

Ele iniciou a carreira literária com o aval de Jorge Amado e de Lygia Fagundes Telles, que assinaram, respectivamente, o prefácio e o posfácio da obra ‘Tríade’ (escritos). Depois disso, seguiram-se ‘Hamburgo Blues’ (1994), ‘Saber Com Sabor’ (1996), ‘Herdeiros do Medo’ (1996), ‘Meu Nome é Ninguém’ (1997) e ‘Os Lobos de Manhatan Não Uivam ao Amanhecer’ (1999).

Nas áreas da antropologia e da arqueologia, Azevêdo contribui até hoje para a preservação da cultura paraibana e de seus artefatos materiais. Ele é autor da plaquete ‘Sítios Arqueológicos de Santa Luzia’ (2004) e dos livros ‘Arqueologia – estudos e pesquisas’ (2008), ‘O Vale dos Dinossauros’ (2012) e ‘Antropologia Cultural (2009). Além desses livros, produziu um relato antropológico situado na época da covid-19, que tem o título de ‘Tristes Tempos – o coronavírus e eu’ (lançado em 2021).

Ele ajudou a fundar o Grupo de Pesquisa em História do Brasil Holandês, que se reúne semanalmente para estudar e debater a presença flamenga no estado da Paraíba. Além disso, junto com os outros integrantes desse grupo, que tem sede no prédio do Ipahep, no Centro de João Pessoa, publicou importantes reedições de documentos históricos, como a carta de despedida do príncipe Maurício de Nassau, ‘Adeus ao Brasil’ (2023), e, ‘Descrição Geral da Capitania Paraíba’ (de Elias Herckmans, em 2024).

Um importante trabalho de Carlos Azevêdo reconhecido pela Embaixada do Brasil na Alemanha é a tradução de diversos autores consagrados brasileiros para a língua alemã, ajudando a divulgar a cultura brasileira no exterior. Ele foi responsável por verter para o alemão a obra de Augusto dos Anjos, Sousândrade e Gregório de Matos.

O livro ‘Réquiem para uma prostituta e outras crônicas’ tem 181 páginas e vai custar R$ 60,00 no dia do lançamento. Uma curiosidade da publicação é que o autor reuniu várias fotos de diversos períodos de sua vida numa iconografia no final do livro em que o leitor vai poder acompanhar a leitura dos textos com as imagens de Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, João Antônio, Érico Veríssimo, Niède Guidon, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Alberto Cunha Melo, Jorge Amado, José Américo de Almeida, Balduíno Lélis, Políbio Alves, entre outros personagens da intelectualidade brasileira com quem ele conviveu.



Fonte: Espaço-PB com jornal A União – Foto: Divulgação – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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