Artigo: Uma barata na careca do vovô – Jorge Rezende

Publicado em: 30/09/2025 às 21:30 - Atualizado em: 30/09/2025 às 23:12
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Não tive o prazer e a felicidade de conhecer os meus dois avôs, tanto o do lado do meu pai, quanto o de minha mãe. Até hoje tenho a sensação de que eles me fizeram muita falta. Uma lacuna que, de vez em quando, vem à tona e chega a me dar uma angústia, alimentada pelas reminiscências de histórias contadas sobre os dois. Todas elas me foram repassadas repetidas vezes e quase sempre levavam meus pais às lágrimas. A nostalgia e a saudade cumprem seus papéis torturantes. São sentimentos esquisitos, ambíguos, gerando uma alternância de alegria e tristeza. Ao mesmo tempo, são bons e cruéis.

A vida toda, principalmente nas fases da infância e da adolescência, ouvi os relatos sobre Vô Totó (Antônio Olintho de Rezende), pai de minha mãe, e acerca de Vô Manoel (Manoel Severino do Carmo), pai do meu pai. Gostava de ouvi-los e ficar imaginando as cenas e situações vivenciadas por eles, mesmo nos episódios mais tristes. Gostava muito. E olha que muitas dessas histórias foram recontadas várias vezes e eu fazia de conta que estava ouvindo pela primeira vez. Não só por educação e respeito aos meus pais, é que eu gostava mesmo, de verdade. Ficava até imaginando como seriam os timbres das vozes de Vô Manoel e Vô Totó. E confesso que às vezes até chegava a escutar... Dentro da minha cabeça, mas escutava.

Nascido em Alagoa Grande, filho de um cearense e de mãe paraibana, Vô Manoel era analfabeto. Trabalhou até a primeira fase de sua vida adulta no roçado, no plantio e corte de cana e, principalmente, como cambiteiro (aquele que cuida do transporte de cargas em cambitos – forquilhas ou cangalhas – no lombo de animais). Trabalhou duro cambitando cana-de-açúcar em lombo de jumentos para os engenhos da região de Alagoa Grande.

Depois, para tentar viver uma vida menos pobre, Vô Manoel veio para João Pessoa, onde começou como calceteiro – aquele profissional especializado em assentar paralelepípedos em calçadas, ruas e praças. Sem estudo, mas tremendamente habilidoso na carpintaria, na alvenaria e em instalações elétricas e hidráulicas, terminou seus dias como o “faz-tudo” na Igreja de São Francisco, no Centro Histórico de João Pessoa. Já o mineiro Vô Totó era letrado e, segundo minha mãe, possuía uma cultura bem abrangente. Era funcionário da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), mas trabalhava embarcado nos trens do que mais tarde viria a ser a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RRFSA) – criada em 1957 e extinta em 2007. Vô Totó era o responsável pela distribuição de correspondências e encomendas pelas estações ferroviárias na linha entre Três Corações, no Sul de Minas Gerais, e Cruzeiro, interior de São Paulo.

Os dois, Vô Totó e Vô Manoel, morreram novos, antes mesmo de alcançarem os cinquenta anos de idade. Por coincidência, ambos tiveram mortes um tanto trágicas. Vô Manoel, no início dos anos de 1970, contraiu tétano. A neurotoxina bacteriana da doença, que afeta o sistema nervoso, causou-lhe alterações no estado mental. Morreu “como louco” nas dependências do então Manicômio Juliano Moreira (hoje Complexo Psiquiátrico), em João Pessoa. A morte de Vô Totó, em 1947, foi ainda mais impactante: ele cometeu suicídio por enforcamento (mas isso é assunto para um outro texto).

Não tenho nenhuma imagem física guardada dos dois. O que ficou na minha lembrança, além das histórias contadas, foi uma foto três por quatro, em preto e branco, de Vô Manoel, que às vezes meu pai mostrava; e um quadro na parede da casa de minha vó onde ela aparecia ao lado de Vô Totó – era um daqueles quadros de época com casais, conhecidos como fotopinturas, criados a partir de uma foto em preto e branco, onde um artista aplicava manualmente as cores e detalhes com tintas a óleo, transformando a fotografia em uma obra vibrante e única, preservando a imagem de forma sentimental e artística.

Quando muito criança, eu deveria ter uns cinco anos de idade, numa das noites que fui dormir na casa de minha vó, avistei uma enorme barata voadora pousada sobre esse quadro na parede, bem na testa de Vô Totó. Vocês podem até me ridicularizarem, mas até a minha quase idade adulta, eu achava – e acreditava – que haviam feito esta música em homenagem a meu Vô Totó: “Eu vi uma barata/ Na careca do vovô/ Assim que ela me viu/ Bateu asas e voou/ Dó, Ré, Mi, Fá, Fá, Fá/ Dó, Ré, Dó, Ré, Ré, Ré/ Do, Sol, Fá, Mi, Mi, Mi/ Dó, Ré, Mi, Fá, Fá, Fá.”.



Fonte: Espaço PB com jornal A União (texto originalmente publicado na seção Memorial, da edição do dia 30 de setembro de 2025) – Foto: Pixabay – Contato: jorgerezende.imprensa@gmail.com

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